Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus
Dia Mundial da Paz


Emmanuel 009

Referências bíblicas
1ª Leitura – Nm 6,22-27
Salmo – Sl 66
2ª Leitura – Gl 4,4-7
Evangelho – Lc 2,16-21

Um olhar de bênção
José Tolentino Mendonça

Queridos irmãs e irmãos,

Este detalhe da narrativa de S. Lucas sobre a forma como Maria acompanhava Jesus é precioso para nós. Porque é uma espécie de programa espiritual.

“Maria conservava todas estas coisas no seu coração, meditando nelas.” É isto que nós somos chamados a fazer. Nós acompanhamos Maria em três etapas.

Nós acompanhamo-la primeiro no Advento, no mistério da sua Anunciação. Quando, na sua liberdade, Maria é colocada perante a vontade de Deus que lhe diz através do anjo que ela ia ser mãe, ia ser parceira desta grande aventura que é o mistério da Encarnação e Maria diz: “Sim”, “Fiat”, “faça-se.”

Depois, vemos Maria a colocar o Menino Jesus na Terra, na vida, colocando-o de forma simbólica sobre aquela manjedoura. É a segunda etapa.

E a terceira etapa da maternidade de Maria é esta em que Maria acompanha Jesus, a partir do seu coração. Conservando, guardando o que a Ele diz respeito e meditando, maturando, ruminando o mistério da vida de Jesus.

Maria é exemplo para nós porque, a aproximar-se o fim do ciclo do Natal, o que nós somos chamados é a permanecer. E a forma de permanecer é guardar no coração. Não vamos guardar o presépio apenas numa caixa, não vamos guardar os símbolos num saco à espera do ano novo. Vamos guardar no nosso coração aquilo que vivemos. Vamos ruminar, vamos meditar, vamos estender no tempo o sabor daquilo que, de uma forma tão intensa, nós meditamos no Mistério do Presépio.

E o que é que nós vimos acontecer? Vimos acontecer o Deus connosco, o Deus que toma a nossa carne, que toma a nossa humanidade. Essa é a forma mais extraordinária de bênção que Deus dá a cada um de nós. É colocar Cristo na nossa vida como companheiro daquilo que somos. No fundo mais fundo do nosso coração, de todos nós, mulheres e homens, crianças, adultos há o desejo de uma bênção. Cada um de nós precisa de uma bênção, como a terra seca precisa da água. Uma bênção é aquilo que a própria palavra quer dizer: dizer bem, dizer o bem que nos habita. Nós precisamos sintonizar a nossa vida com a luz de uma bênção que em cada momento nos recoloque na esperança, que em cada momento diga a beleza que nós somos. Mesmo no provisório, no vulnerável, mesmo no meio da imperfeição, que diga não o mal que é sempre óbvio, não o tosco que se vê logo, mas veja a beleza daquilo que nos habita. Nós precisamos desse olhar. Aquilo, por exemplo, que o escultor Miguel Ângelo dizia: “Quando eu olho para uma pedra, para um mármore, eu não vejo um mármore tosco, primitivo, em bruto. Quando eu olho vejo já a escultura, vejo já a obra-prima. E o que eu faço é libertar a forma daquele mármore bruto.”

Quando Deus nos olha não vê o nosso pecado, não vê a nossa miséria, não vê a nossa imperfeição, não vê que nós somos fracos, não é isso que Ele vê. O que Ele vê em nós a cada momento é a obra-prima, e este olhar é um olhar de bênção. Nós precisamos de ser olhados assim, de ser amados assim. Porque, só isso é que nos dá a força e a capacidade de não sucumbir sob o peso da nossa imperfeição e da imperfeição do mundo. Só isso nos dá a força de não nos apagarmos completamente no deserto da nossa própria sede. É este olhar de bênção que Deus nos dá. Dentro de nós há essa sede profunda. Mas não só dentro de nós, dentro de cada homem, dentro de cada mulher há essa sede profunda.

Às vezes nós olhamos para uma pessoa e julgamo-la rapidamente. Olhamos muitas vezes para uma criança: que mal comportada, que isto, que aquilo! E às vezes não pensamos que uma criança de quatro anos já sofreu mais que muitos adultos. Não pensamos nisso, na carga de sofrimento que há naquela pessoa. E às vezes vemos cenas ou vemos gestos que não compreendemos, sem pensar que por detrás daquilo existe uma dor. Nós só conseguimos perdoar quando conseguimos perceber que a dor que o outro provocou em nós é mais pequena que a dor que ele transporta, que o faz ferir os outros daquela maneira. A dor que ele nos provoca é mais pequena do que a dor que o habita. Quando percebemos isso nós somos capazes de perdoar.

Nós vivemos este num mundo em transformação, num mundo com tantas imperfeições, tantas coisas novas, num mundo que é uma espécie de vulcão de acontecimentos. E que atitude nós devemos ter? Nós, cristãos, face aos grandes acontecimentos, face aos pequenos, aos quotidianos, aos da nossa escala que atitude devemos ter? Nós devemos abençoar, nós devemos sintonizar com a fome de bênção e tentar saciá-la, nós devemos dizer o bem que há no outro. E isso passa por mantermos uma relação de esperança, de confiança, de hospitalidade com a própria vida. Porque recusar a vida, fechar-lhe as portas, condicionar apenas a vida ao que já vivemos, às nossas convicções e convenções é muito estreito.

Nós temos de viver na abertura, temos de ser bons condutores desta bênção de Deus que se fez homem, que não nos quer como escravos, mas nos quer como filhos e como herdeiros. Sintamo-nos como herdeiros, e como herdeiros com capacidade de condividir, de partilhar.

Queridos irmãs e irmãos, estamos a começar. E Deus ajuda quem começa. Nós estamos a começar o ano, nós somos sempre novos, nós somos sempre inéditos. Não somos apenas a continuação, nós damos saltos, nós avançamos. Não podemos dizer: eu agora estou escravo disto. Não, não. Podes estar e podes não estar, podes dar saltos. A vida avança por saltos. Não conta o que nós fomos, conta o que nós somos, conta o que nós queremos ser. Não conta o peso do passado, conta a alegria do hoje, conta o chamamento do futuro. Por isso, sintamo-nos inéditos, sintamo-nos a começar um tempo novo. O ano que começa não é apenas o calendário, é a oportunidade da vida, é o “kairós”, é o momento da Salvação que pode acontecer. Por isso, cada um de nós invista no tempo a confiança, cada um de nós invista no tempo a bênção. Porque, se eu estou sedento de bênção, o outro também está sedento de bênção. Então, caminhemos para o Senhor de todas as bênçãos em cada dia.

Pe. José Tolentino Mendonça, Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

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Homilia do Papa Francisco

Os pastores encontram «Maria, José e o menino deitado na manjedoura» (Lc 2, 16). A manjedoura é sinal de alegria para os pastores: confirma o que tinham sabido do anjo (cf. 2, 12), é o lugar onde encontram o Salvador. E é também a prova de que Deus está junto deles: nasce numa manjedoura, objeto bem conhecido deles, demonstrando assim ser-lhes próximo e familiar. Mas a manjedoura é um sinal de alegria também para nós: Jesus, nascendo pequenino e pobre, toca-nos o coração, incute-nos amor em vez de temor. A manjedoura preanuncia-nos que Ele Se fará alimento para nós. E a sua pobreza é uma boa notícia para todos, especialmente para os marginalizados, para os rejeitados, para quem não conta no mundo. Ali desce Deus: nenhuma via preferencial, nem sequer um berço! Eis por que é bom vê-Lo deitado numa manjedoura.

Mas para Maria, a Santa Mãe de Deus, não foi assim. Ela teve de suportar «o escândalo da manjedoura». Também Ela, muito antes dos pastores, recebera o anúncio de um anjo, que Lhe dissera palavras solenes, falando-Lhe do trono de David: «Hás de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e vai chamar-Se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-Lhe o trono de seu pai David» (Lc 1, 31-32). E agora tem de O colocar numa manjedoura para animais. Como harmonizar o trono do rei e a pobre manjedoura? Como conciliar a glória do Altíssimo e a miséria dum estábulo? Pensemos no desconsolo da Mãe de Deus. Que há de mais duro, para uma mãe, do que ver o seu filho sofrer a miséria? É caso para se sentir desconsolado. Não se poderia censurar Maria, se Se lamentasse de toda aquela desolação inesperada. Ela, porém, não perde a coragem. Não Se queixa, mas está em silêncio. Em vez dos nossos queixumes, opta por uma saída diversa: «Quanto a Maria – diz o Evangelho –, guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração» (Lc 2, 19).

Trata-se dum comportamento diferente do dos pastores e do povo. Eles contam a todos o que viram: o anjo que lhes apareceu no meio da noite, as suas palavras sobre o Menino. E o povo admirava-se ao ouvir estas coisas (cf. 2, 18): palavras e admiração. Ao contrário, Maria aparece pensativa. Guarda e medita no coração. São duas atitudes diferentes, que se podem encontrar também em nós. A narração e a maravilha dos pastores recordam a nossa condição nos primeiros tempos da fé: então é tudo fácil e linear, alegra-se pela novidade de Deus que entra na vida, enchendo todos os seus aspetos dum clima de maravilha. Diversamente, a atitude meditativa de Maria é a expressão duma fé madura, adulta, não inicial; duma fé que não é recém-nascida, duma fé que se tornou geradora. Porque a fecundidade espiritual passa através da prova. Saída da tranquilidade de Nazaré e das promessas triunfantes recebidas do anjo – o seu início –, Maria encontra-Se agora no estábulo escuro de Belém. Mas é aqui que dá Deus ao mundo. E enquanto outros, perante o escândalo da manjedoura, teriam sido tomados pelo desconsolo, Ela não: guarda meditando.

Aprendamos da Mãe de Deus esta atitude: guardar meditando. Com efeito, acontece também a nós ter de suportar certos «escândalos da manjedoura». Esperamos que tudo corra bem, mas depois, como relâmpago em céu sereno, chega um problema inesperado. E gera-se uma dolorosa colisão entre as expetativas e a realidade. E pode acontecer também na fé, quando a alegria do Evangelho é posta à prova numa situação difícil por que passamos. Mas hoje a Mãe de Deus ensina-nos a tirar proveito desta colisão. Mostra-nos a sua necessidade: é o caminho estreito para chegar à meta, é a cruz sem a qual não se ressuscita. É como um parto doloroso, que dá vida a uma fé mais madura.

Pergunto-me, irmãos e irmãs, como realizar esta passagem, como superar a colisão entre o ideal e o real? Fazendo precisamente como Maria: guardando e meditando. Em primeiro lugar, Maria guarda, ou seja, não deixa disperso. Não rejeita o que acontece. Guarda tudo no coração, tudo aquilo que viu e ouviu: não só as coisas lindas, como o que Lhe dissera o anjo e aquilo que contaram os pastores, mas também as coisas difíceis de aceitar: o perigo que correu aparecendo grávida antes do casamento, agora a triste desolação do estábulo onde deu à luz. Eis o que faz Maria: não seleciona, mas guarda. Acolhe a realidade como vem, não tenta camuflar, maquilhar a vida; guarda no coração.

Depois temos a segunda atitude. Como guarda Maria? Guarda meditando. O verbo usado no Evangelho evoca o entrelaçamento das coisas: Maria compara experiências diferentes, encontrando os fios ocultos que as interligam. No seu coração, na sua oração realiza esta operação extraordinária: interliga as coisas lindas e as coisas duras; não as mantém separadas, mas une-as. E por isso Maria é a Mãe da catolicidade. Podemos, forçando um pouco as palavras, dizer que Maria é católica por isto: porque une, não separa. E assim apreende o sentido pleno, a perspetiva de Deus. No seu coração de mãe, compreende que a glória do Altíssimo passa pela humildade; acolhe o plano da salvação, segundo o qual Deus devia descansar numa manjedoura. Vê o Menino divino frágil e tiritando de frio, e acolhe o maravilhoso entrelaçamento divino de grandeza e pequenez. É assim que Maria guarda: meditando.

Este olhar inclusivo, que supera as tensões guardando e meditando no coração, é o olhar das mães, que nas tensões, não separam, mas guardam-nas, e assim cresce a vida. É o olhar com que muitas mães abraçam as situações dos filhos. É um olhar concreto, que não se deixa condicionar pelo desconsolo, nem se deixa paralisar perante os problemas, mas coloca-os num horizonte mais amplo. E Maria continua assim, até ao Calvário, meditando e guardando: guarda e medita. Vêm à mente os rostos das mães que assistem um filho doente ou em dificuldade. Quanto amor há nos seus olhos, banhados de lágrimas, que ao mesmo tempo sabem inspirar motivos de esperança! Trata-se de um olhar consciente, sem ilusões, e, todavia, sem se deter na tristeza e nos problemas, oferece uma perspetiva mais ampla, a perspetiva do cuidado, do amor que regenera a esperança. É isto que fazem as mães: sabem superar obstáculos e conflitos, sabem infundir a paz. Assim conseguem transformar as adversidades em ocasiões de renascimento e em ocasiões de crescimento. Fazem-no porque sabem guardar. As mães sabem guardar, sabem manter os fios da vida todos juntos. Há necessidade de pessoas capazes de tecer fios de comunhão, que contrastem os numerosos fios de arame farpado das divisões; fios de comunhão, isto sabem-no fazer as mães.

O novo ano começa sob o signo da Santa Mãe de Deus, sob o signo da Mãe. O olhar materno é o caminho para renascer e crescer. As mães, as mulheres olham o mundo não para o explorar, mas para que tenha vida: olhando com o coração, conseguem manter juntos os sonhos e a realidade concreta, evitando as derivas do pragmatismo assético e da abstração. E a Igreja é mãe, é mãe assim! E a Igreja é mulher, é mulher assim! Por isso não podemos encontrar o lugar da mulher na Igreja sem a espelhar neste coração de mulher-mãe. Este é o lugar da mulher na Igreja, o grande lugar, do qual derivam outros mais concretos, mais secundários. Mas a Igreja é mãe, a Igreja é mulher. E enquanto as mães dão a vida e as mulheres guardam o mundo, empenhemo-nos todos para promover as mães e proteger as mulheres. Quanta violência existe contra as mulheres! Basta! Ferir uma mulher é ultrajar a Deus, que tomou duma mulher a humanidade… Não a tomou dum anjo, nem [a criou] diretamente: tomou-a duma mulher. Tal como duma mulher, a Igreja-mulher toma a humanidade dos filhos.

No início do Ano Novo, coloquemo-nos sob a proteção desta mulher, a Santa Mãe de Deus, que é nossa mãe. Que Ela nos ajude a guardar e meditar tudo, sem ter medo das provações, na jubilosa certeza de que o Senhor é fiel e sabe transformar as cruzes em ressurreições. Invoquemo-La, também hoje, como fez o Povo de Deus em Éfeso. Ponhamo-nos todos de pé, fixemos o olhar em Nossa Senhora e, como fez o povo de Deus em Éfeso, repitamos três vezes o seu título de Mãe de Deus. Todos juntos: Santa Mãe de Deus, Santa Mãe de Deus, Santa Mãe de Deus!». Amen.

1 gennaio 2022