29° Domingo do Tempo Comum (ciclo C)
Lucas 18,1-8


Fede

Referências bíblicas

  • 1ª leitura: “Enquanto Moisés conservava a mão levantada, Israel vencia” (Êxodo 17,8-13)
  • Salmo: Sl. 120(121) – R/ Do Senhor é que vem o meu socorro, do Senhor que fez o céu e a terra.
  • 2ªleitura: A Escritura faz “o homem de Deus perfeito e qualificado para toda boa obra” (2 Timóteo 3,14;4,2)
  • Evangelho: “Deus fará justiça aos seus escolhidos que noite e dia gritam por Ele” (Lucas 18,1-8)

Habitar no interior de uma relação
José Tolentino Mendonça

Queridos irmãs e irmãos,

Hoje um dos temas das leituras que vamos proclamar é a oração. E a oração que nos diz que a nossa vida é uma vida escutada, o Senhor escuta-nos. Escuta o que dizemos e o que não dizemos, o que somos e o que não conseguimos ser, aquilo que são os nossos sonhos mas também as nossas dúvidas, as nossas hesitações. O Senhor escuta aquilo que nem lhe chegamos a dizer. Por isso, sintamos confiança, sintamos, no fundo do nosso coração, o Senhor a tornar fortes, a tornar firmes os passos que nós encaminhamos a na direção Dele.

Queridos irmãs e irmãos, hoje a Palavra de Deus enfoca-nos na questão da oração. E a oração é antes de tudo o reconhecimento de Deus como alguém com quem nos relacionamos, Deus como um “tu” da nossa vida.

É muito impressionante aquilo que um escritor italiano Eri de Luca escreve num pequeno livrinho precioso chamado ‘Caroço de azeitona ‘. Ele diz: “Eu, estando muito perto da tradição cristã e dos textos bíblicos de que gosto muito, a verdade é que não me considero um crente. E não me considero um crente por isto: porque não consigo rezar. E não consigo rezar porque não consigo pensar nem relacionar-me com Deus como um «tu». Para mim Deus não tem rosto, Deus é uma impessoalidade, Deus é uma impossibilidade de eu nomear, de eu tratar por tu. Por isso, sinto inveja dos crentes que reconhecem que Deus é alguém em relação ao qual podemos empregar um vocativo, podemos gritar, chamar por Ele, derramar a nossa vida, conversar, estar calado, mas sentir em Deus alguém que do outro lado, que do lado de Deus, é capaz de nos acolher, de nos acompanhar, de nos abraçar, de nos amar.”

Esta é, de facto, a grande força, a grande originalidade dos crentes. É que, para nós, Deus não é apenas um princípio filosófico. Deus é alguém, Deus é uma presença de amor. E mais: há uma relação que nós estabelecemos e essa relação chama-se oração. Não basta apenas a convicção, não basta apenas a fé como certeza de que Deus existe. Deus existe, ponto. Então, façamos alguma coisa com essa verdade axial das nossas vidas. E aquilo que nós podemos fazer é comunicar, é entrar em relação, é expormo-nos diante de Deus, é abrirmo-nos na nossa nudez, na nossa vulnerabilidade. É confiarmos tanto que nos entregamos no nosso estar, no nosso falar, no nosso calar, sentindo que Deus é o interlocutor privilegiado das nossas vidas.

O Senhor que criou o universo e os mundos, e o que vemos e o que não vemos, Ele é este “Tu” que eu posso invocar, que eu posso nomear. Por isso, fundamental na oração é o reconhecimento de que Deus é um parceiro da nossa vida, que Deus é um “Tu” a quem nos podemos dirigir. Mas, só há oração verdadeira quando também nós somos um “eu” e sentimos que a nossa vida é também a possibilidade de rezarmos, descobrirmos essa possibilidade dentro de nós.

Às vezes acontece que, sendo cristãos há muitas décadas, há muitos anos ou há pouco tempo, nós ainda não desenvolvemos em nós a capacidade de rezar, nós ainda não descobrimos que somos seres orantes, que temos em nós este dom maravilhoso que é de nos podermos abrir, nos podermos dizer, nos podermos expor em oração.

Nós não apenas fazemos orações, não apenas rezamos orações, a verdadeira oração nasce quando nós compreendemos isto: eu sou uma oração, a nossa vida é uma oração. Nós não somos uma maquinazinha de fazer orações, nós somos uma oração. Porquê? Porque a nossa vida, se nós olharmos bem para ela, é um grito, é um apelo, é uma chamada, é um estar diante de Deus. Nós somos continuamente na sua presença, e por isso nós somos uma oração. A nossa oração não é apenas a repetição de uma fórmula, não é apenas a repetição de uma oração aprendida, não é apenas coisas tão importantes como o Pai-Nosso e a Avé-Maria que nós possamos dizer. Mas, antes de tudo, a nossa oração é esta tomada de consciência profunda de que nós estamos diante de Deus e do que isso significa. Porque a nossa vida toda é chamada a exprimir-se, a expressar-se com confiança diante de Deus.

E essa relação, que necessariamente é uma relação de amizade e de amor, que é uma relação de um filho para com o Pai, que é uma relação de criatura para com o Criador, que é uma relação de enamoramento, de confiança, que é uma relação fusional e ao mesmo tempo também uma relação na diferença, porque Deus é Deus e nós somos mulheres e homens, nós somos criaturas, é esta relação fulcral que é no fundo o mistério da oração.

Por isso, às vezes ouvimos dizer ou dizemos: “Mas eu não sei rezar.” A primeira coisa é: antes de querer aprender orações, aprende que o rezar é respirar, aprende que o rezar é estares diante de Deus, é tomares consciência de que Deus está aqui. Ao longo do nosso dia nós podemos fazer momentos de oração em qualquer lado. O que é um momento de oração que nós construímos? É um momento mais agudo, mais intenso da nossa parte, um momento de consciência, uma tomada de consciência de que nós estamos perante Deus e nessa tomada de consciência há uma qualidade de relação, há uma qualidade de comunicação espiritual que se intensifica e que torna aquele momento um momento precioso, torna aquele momento um momento de comunicação. Nós estamos sempre, mas precisamos de tomar consciência de que estamos, precisamos de tomar consciência de que somos diante de Deus.

Há maneiras certas de rezar? Esse é um assunto para especialistas. Porque, eu diria: a maneira certa de rezar é rezar, é rezar. Eu não me esqueço da história de vida de um rapaz que eu acompanhei. Ele é um convertido, e lembro-me no primeiro tempo de oração o entusiasmo com que ele vivia a oração e ele dizia-me isto:

“-Padre Tolentino, eu rezo como um porco.
– Tu rezas como um porco?
– Sim, eu alimento-me de tudo, tudo me serve para oração. Eu não escolho rezar isto ou rezar aquilo. Não, eu rezo tudo o que sou, tudo o que apanho eu rezo.”

De facto, a verdadeira oração é essa, é a oração que hipoteca todo o nosso ser. Não é eu vou rezar esta intenção ou vou rezar aquela. Sim, posso, devo fazer isso, mas é importante que eu faça isso rezando todo o meu ser, rezando permanentemente.

É muito belo na tradição cristã, por exemplo, um dos tratados de oração mais conhecidos e mais marcantes de oração no Cristianismo, é o Relato do peregrino russo. É uma história impressionante de um homem que entra um dia na Igreja e estão a celebrar a missa e ele ouve ler a Carta de S. Paulo aos Tessalonicenses, onde S. Paulo diz isto: “Rezai sem cessar.” Ele agarra-se a isto e diz: “Mas como é que isto é possível? Como é que eu posso, eu que ando de um sítio para outro, com a vida que tenho, como é que eu posso rezar sem cessar?” E então, ele começa a fazer um caminho por vários mestres espirituais, vai colocar a pergunta a um padre, a um peregrino, ele ouve dizer que há um mestre iluminado e vai tentar conversar com ele para tentar perceber como é que pode rezar sem cessar. Até que por fim, quando a gente procura encontra, quando a gente bate abre-se, quando a gente pede é-nos dado – é isso que Jesus nos diz. Também foi aberto, foi dado, foi explicado àquele homem o que significa rezar sem cessar. E ele percebeu que a oração se misturava com a sua própria respiração e que a sua oração sem cessar era a oração do pecador que confia: “Senhor Jesus, Filho de Deus vivo, tem piedade de mim.” E ele passou a dizer isto, em vez de respirar ele dizia isto: “Senhor, Filho de Deus vivo, tem piedade de mim.”

É claro, se nós vivermos com o nome de Jesus nos lábios, se nós vivermos a respirar o nome de Jesus isso transforma a nossa vida por completo, transforma-nos, só pode ser. Nós tornamo-nos uma cristofania, tornamo-nos uma manifestação de Cristo, porque Ele está sempre em nós, a oração é uma habitação. Os salmos falam muito disso, da alegria de habitar na casa do Senhor, no Templo do Senhor. Essa habitação não é habitar numa casa, é habitar no interior de uma relação. O Evangelho de S. João, por exemplo, explica a oração como um permanecer, é uma forma de permanecer. São tudo verbos que mostram o quê? Que a oração tem de ter uma continuidade, que a oração não são as fórmulas que nós dizemos. A oração é um estar, é a nossa vida ser aquilo, ser transformada por aquilo.

É claro que este é um caminho, é progressivo, é progressivo em nós. Mas, é chamado a confundir-se completamente com aquilo que somos.

Dos encontros mais incríveis que tive na vida foi com uma senhora que estava em estado terminal, estava num sanatório do Funchal. Ela já não sabia nada, não sabia o seu nome, não sabia quantos filhos tinha, o nome dos filhos, se tinha comido de manhã ou não, o nome das enfermeiras, não sabia nada de nada. Qualquer pergunta que se lhe fizesse ela começava a rezar o Pai-nosso, qualquer pergunta. Para qualquer pergunta que se fizesse ela rezava o Pai-nosso. Quer dizer, naquela consciência, naquele ser, o núcleo inapagável, irremovível do seu coração e da sua mente era a experiência do Pai-nosso, era a experiência de que Deus é Pai. Para isto ser assim, eu pergunto-me: quantos Pai-nosso aquela mulher não teve de rezar para tatuar de tal forma o Pai-nosso no fundo mais irremovível do seu ser? Essa é uma experiência de oração.

Por isso, isto que diz Jesus: O que é a oração? A oração é rezar sem desanimar, oração é insistir na oração, oração é uma insistência com Deus. Quer dizer: a oração é a felicidade da repetição, a felicidade da repetição. Nós estarmos e voltarmos a estar, nós exprimirmos, nós cansarmos Deus com a nossa oração, nós cansarmo-nos a nós mesmos com a nossa oração.

A quem diga: “Ah, padre mas eu adormeço na oração.” Bendito sono! Deves adormecer mais vezes, deves prolongar a oração para lá até dos processos da tua consciência, para lá da tua racionalidade. Isto é, a oração deve penetrar completamente em nós, naquilo que somos. E isso transforma-nos, isso transforma-nos. E isso, reparem, está ao alcance de todos nós, não é preciso fazermos um curso de teologia ou um curso de espiritualidade para nos tornarmos grandes orantes, grandes aventureiros no interior de Deus. É uma questão de insistência, é uma questão de treino, é uma questão de prática, é uma questão de não darmos descanso a nós próprios na vigilância, na repetição, na atenção, na fidelidade.

Não podemos fazer depender a oração das nossas sensações, se eu sinto oração, se eu não sinto oração, se eu sinto um eco, uma reverberação luminosa. Nós lemos o diário espiritual de Santa Teresa de Calcutá e ela diz que nunca sentiu nada, nunca sentiu nada. Nunca teve nenhuma experiência favorável, nunca sentiu o coração cheio, nunca sentiu a alma a transbordar de luz. Pelo contrário, seca, seca, seca como um carapau, seca, seca, seca; nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada. E às vezes a nossa oração é o nada, nada, nada, nada. Ou, como dizia Santa Teresa de Ávila, outra grande mestra da vida espiritual, ela dizia que rezou anos e anos e a oração sabia-lhe a palha – é como estar a comer palha.

Então, a oração não depende da nossa sensação. A oração, como diz Jesus, “É orar sempre sem desanimar.” A eficácia da oração não depende da nossa sensibilidade, depende da confiança que fazemos em Deus e na ação de Deus. Quando olhamos para os resultados da vida de santa Teresa de Calcutá, nós percebemos isso: Deus fez daquela mulher um instrumento de amor inacreditável. Deus fluiu através dela, ela própria não sentiu, não percebia como mas Deus fluía. E é esse também o mistério na nossa vida.

Por isso, queridos irmãs e irmãos, nós temos de rezar, temos de praticar mais a oração, temos de trazer a oração para a nossa vida, dar tempo, dar tempo à oração no nosso dia a dia de forma muito concreta. Porque é isso que verdadeiramente nós transforma, é isso que nos transforma, é isso que nos alimenta.

Cada um terá uma forma própria de rezar, como tem uma forma própria de rir, de chorar, de caminhar pelo mundo. Mas o que é importante é que nós pratiquemos. A oração não é uma teoria. Eu acho que, teoricamente, sobre a importância da oração nenhum de nós tem dúvidas. Mas a oração é sobretudo uma prática e aí é que nós falhamos. Oração é concretizar oração, oração não é uma filosofia, oração é rezar. Por isso, vamos pedir ao Senhor que reze em nós e nos ajude a rezar. Nos ajude a rezar a nossa vida, nos ajude a rezar uns pelos outros, nos ajude a louvar.

Na nossa peregrinação a Assis eu fiquei muito impressionado quando me dei conta que, o Cântico das Criaturas de S. Francisco de Assis, que é aquele poema maravilhoso: “Senhor, altíssimo sempre eterno, eu te dou graças pelo sol, eu te dou graças pelo calor, pela água…”, S. Francisco de Assis o escreveu enquanto enfermo e praticamente cego. Nós pensamos que uma pessoa que faz um elogio ao mundo, à beleza do mundo, à beleza da criação é um jovem, está apaixonado, está a agradecer tudo aquilo que ele vive. Não, Francisco de Assis estava cego, estava enfermo, estava a meses da sua morte quando escreveu este que é um testamento espiritual inacreditável. Isto também é alguma coisa que só a força da oração nos permite, que é no fundo uma grande liberdade face até aos contextos adversos e uma compreensão de que nada nos falta.

Às vezes andamos com carências enormes, com fomes, com necessidades imaginárias e reais, não importa, a oração enche o nosso coração. A experiência de oração é também a experiência de que nada nos falta e que o encantamento pela vida não depende de estarmos a viver tempos cor-de-rosa, S. Francisco já não via nada e ele via tudo.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo XXIX do Tempo Comum

http://www.capeladorato.org

Por que rezar sempre?
Marcel Domergue

O Filho do homem, quando vier…

Estamos sempre diante do mesmo problema; problema que é nosso, que era o de Israel, no deserto, e também era o da comunidade para a qual Lucas escreveu seu evangelho. Foi dito que fomos libertados, que fomos salvos, que Deus está conosco… E, no entanto, temos de atravessar uma longa espera, temos de viver o tempo do silêncio de Deus e da violência dos homens, sem excluir a nossa própria violência.

Para os primeiros leitores de Lucas, o tempo se delongava e nada acontecia. A promessa ia, então, se ofuscando e a fé se enfraquecendo: daí a pergunta « o Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?» Rezamos tanto e nada aconteceu!

Ora, temos aí uma resposta: Deus não intervém através de milagres para modificar o curso dos acontecimentos. Ele deixa o homem entregue à sua liberdade. Cabe ao homem dominar a terra e controlar seus demônios. E se isto é verdade, se não cabe a Deus fazer nada, então, por que rezar? O que significa a 1ª leitura? e a terceira?

A hora de Deus

Já expliquei que, conforme as Escrituras, Deus deixa as coisas irem até bem longe, até o limiar da morte. Sua hora é de quando a crise chega ao paroxismo. Mas falar de limiar da morte é no mínimo insuficiente: Jesus realmente passou pela morte e só então foi que Deus se manifestou. Dizem alguns que para provar nossa fé.

Pessoalmente, não gosto desta explicação: Deus não tem necessidade de aplicar nenhum teste, para saber até onde vai a nossa fé. Ao contrário, uma prova assim gratuita tem até uma aparência de sadismo. Parece-me ser preciso voltar à explicação precedente: tudo está verdadeiramente em nossas mãos e o respeito à nossa liberdade exige que Deus não intervenha, de modo a falsear o jogo da história que estamos construindo.

A sua intervenção situa-se justamente no instante em que a história chega ao fim. O fim da história não é o fim da vida, porque Deus, que é a vida, não tem fim. Temos, pois, assim recolocada a questão: nestas condições, por que rezar?

A parábola

Lendo com atenção a parábola do evangelho, ficaremos chocados com uma espécie de contradição. Jesus apoia-se na história de um juiz que, cansado de guerra, acaba por fazer justiça só para ter paz, depois de ter feito esperar muito tempo. Isto para nos dizer: primeiro, que Deus também, e com mais forte razão, faz justiça; e, segundo, que Ele não faz esperar. Mas como servir-se do exemplo de alguém que faz esperar, para nos falar de Deus, que não faz esperar?

É que Deus parece fazer esperar e, como disse mais acima, manifesta-Se somente quando a crise atinge o seu ponto culminante. « Por que tardar?» é a pergunta que se fazem muitos Salmos. Por que não imediatamente? Bom, Jesus nos convida a superar esta «evidência» do atraso de Deus. Trata-se de acreditar que Ele está intervindo agora, que a sua intervenção é contemporânea à nossa oração e, também, que a nossa oração já é ela mesma «prova» de que Deus está intervindo: não podemos rezar sem que o Espírito já esteja aí.

Por que rezar sempre?

Afinal, a hora da crise é sempre a hora em que vivemos. Crise não é só aquela do final. Por toda a jornada Israel teve de conduzir a sua vitória contra os amalecitas, contra a morte. É a cada instante que estamos na linha de cumeada, entre a vida e a morte. E, como já disse, a revelação que em Cristo nos foi dada mostra que até mesmo este limiar foi superado: a morte não foi poupada. E Paulo diz muito bem, que somos continuamente submetidos à morte a fim de que a vida, esta que não está destinada à morte, pois que a atravessou, ressurja continuamente.

Deus parece fazer esperar porque nós, em nossa miopia, só vemos a face da morte, na Páscoa em que vivemos. Só a fé nos faz descobrir a face da vida e faz brotar em nós a ação de graças, «a Eucaristia». É preciso rezar sempre porque é sempre a hora em que Deus, com as nossas injustiças, faz nossa justiça. A hora em que, para nós, vem o Filho do homem.

A benquerença de Deus

Esta parábola se situa num contexto social e jurídico que pouco ou nada tem a ver com a ordem atual das coisas. Pouco importa! Jesus nos põe na presença de um juiz munido de todos os poderes, mas desprovido de qualquer moralidade. Diante de uma viúva que é só (não se fala de sua parentela) e sem defesa. Ela acaba de obter ganho de causa por força de sua perseverança.

No princípio, em sua condição de impotência diante do juiz, é uma imagem de cada um de nós. Tomemos consciência de que não temos nenhum título que fazer valer, nenhum «mérito» que (pode) possa justificar a benquerença divina. Não confiemos nem mesmo nos «bons sentimentos» que podemos experimentar de tempos em tempos, nem nas qualidades que nos são reconhecidas por nossos familiares. A viúva da parábola pede somente que lhe seja feita justiça: nós nem isso podemos pedir, porque a justiça arrisca de nos ser fatal. Deixemo-nos convencer que não temos nada de agradável que não nos tenha sido dado. A nossa verdade não é uma reivindicação de justiça, mas uma ação de graças. Felizmente, nossas exigências de justiça não são ouvidas por Deus. «Não entres em julgamento com teu servo, Senhor, pois frente a ti nenhum vivente é justo», diz o salmo 143. Isto, porém, não deve nos entristecer nem deprimir, mas, ao contrário, tranquilizar-nos e nos libertar. Com Cristo, já estamos justificados e podemos sair do regime da justiça para entrar no do amor.

Deus para além de toda justiça

Para a viúva da parábola, tudo finalmente entrou em ordem, ao preço de muito tempo e muitas dificuldades. É que ela estava diante de um juiz que era todo ao contrário de Deus. Como dissemos, a parábola está construída sobre este contraste. Se até mesmo um juiz perverso acaba por ouvir o pedido de uma viúva sem defesa, por mais forte razão, Deus, que está mais além da justiça, porque é amor, ouvirá os seus filhos. O texto, no entanto, diz que Ele lhes fará justiça. À luz do conjunto do Novo Testamento, devemos compreender que isto significa que os tornará justos, que os justificará. Estes filhos de Deus «gritam por ele dia e noite» e, no entanto, «Ele não os fará esperar». Marcos 11,24 vai até mais longe: «Tudo quanto suplicardes e pedirdes crede que já o recebestes e vos será dado.» Nesta perspectiva, para nós, a oração é uma tomada de consciência do dom de Deus, de um dom já oferecido. Mais isto só: este dom só vem a ser ativo em nós se cremos sinceramente que foi Deus quem o fez.

Notemos que esta fé é ela mesma um dom do Espírito. E que, igualmente, é o Espírito que nos foi dado em resposta à nossa oração. Por Ele e com Ele, nos tornamos capazes de viver no amor a situação que motivou a nossa oração. No amor e na paz que decorrem daí. No fundo, nosso único trabalho consiste em acolher, em consentir nisto que, sem cessar, Deus nos dá. Consentimento este que habita a ação de graças’.

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