IV Domingo de PÁSCOA (ciclo C)
Domingo do Bom Pastor
Dia mundial de oração pelas vocações
João 10, 27-30


Bom Pastor

Referências bíblicas

  • 1ª leitura: “Sabei que vamos dirigir-nos aos pagãos” (Atos 13,14.43-52).
  • Salmo: Sl. 99(100) – R/ Sabei que o Senhor, só ele, é Deus, nós somos seu povo e seu rebanho.
  • 2ª leitura: “O Cordeiro será o seu pastor e os conduzirá às fontes da água da vida” (Apocalipse 7,9.14-17).
  • Evangelho: Às minhas ovelhas, “Eu dou-lhes a vida eterna” (João 10,27-30).

Pastor sem fronteiras
Marcel Domergue sj

A fluidez das imagens

Às vezes, é preciso sair das imagens, mesmo sendo elas imagens evangélicas. Mas isto, claro, só depois de haver explorado toda a sua significação. A figura do “pastor”, do criador de ovelhas, se em outras épocas dizia alguma coisa, ela agora se tornou estranha à maior parte de nós. Sabemos que o pastor tinha de ser um pouco veterinário, um pouco meteorologista, um observador atento etc. Alguém, portanto, cheio de competências, justificando a sua autoridade.

Hoje, no entanto, não apreciamos muito ser comparados a animais, ainda mais a animais que, sempre balindo, seguem passivamente uns aos outros. E irresponsáveis, pois toda a responsabilidade é assumida pelo pastor. Felizmente as mesmas Escrituras vêm em nosso socorro, mostrando-nos que as imagens devem ser convertidas e superadas.

Neste capítulo 10 de João, Jesus diz ser ele o pastor que faz as ovelhas entrarem e saírem pela porta, ao contrário do ladrão. E também, sem qualquer transição, ser ele mesmo a porta; o que faz pensar em 14,6: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”.

Mas isto não é tudo: este pastor do capítulo 10 torna-se o Cordeiro no Apocalipse 7,17: “o Cordeiro que está no meio do trono será o seu pastor e os conduzirá às fontes da água da vida” (2ª leitura). O Cordeiro, portanto, torna-se o seu contrário, o pastor. Além disso, o trono nos faz pensar na cruz, e as fontes nos remetem ao Salmo 23. Jesus, aliás, já se havia declarado “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, em João 1,29. Com certeza, uma alusão ao rito do bode expiatório.

Podemos ver então que as imagens vão mudando as suas características, chegando até a inverter os seus significados.

O Pai e eu

Conforme nossa aritmética, “o Pai e eu” somam dois. Só que não! Este dois, aqui, é Um só. Em Deus, os contrários se reconciliam e a multiplicidade não é mais incompatível com a unidade. Sabemos que, com o Espírito, iremos para Três. Impossível aqui refazermos mais uma vez uma exposição sobre a Trindade. Lembremos somente que este fundo do Ser que chamamos de Deus, Ele é em Si mesmo intercâmbio.

Sendo assim, podemos então compreender porque as imagens se choquem violentamente, passando-se uma para a outra (o cordeiro e o pastor, por exemplo), mesmo quando, à primeira vista, elas até se contradigam. É difícil para nós não considerar o “Pai” como o Deus por excelência; e o “Filho” e o “Espírito” como uma espécie de subalternos, afeitos a tarefas de primeira importância, sem dúvida, mas dependentes de uma autoridade superior. A nossa lógica falha quando dizemos: são três vezes Um e isto faz somente Um.

Pois é uma Unidade que está se fazendo incessantemente, porque Deus é autor de Si mesmo, e, de uma só vez, necessariamente e livremente. Por esta Unidade, portanto é que Jesus emprega a mesma fórmula: “ninguém vai arrancá-las” (as ovelhas) sucessivamente da “minha mão” (v. 28) e “da mão do Pai” (v. 29). Se o Pai é “maior que todos”, o Filho igualmente, pois que fazem somente Um. Maior que todos, quer dizer, “acima” de todo o resto tomado em conjunto, acima de todas as “potestades e dominações”, como escreve Paulo, que poderiam tentar empreender arrancar-nos da “mão” divina.

E nós, o “rebanho”?

Superemos o aspecto negativo e desagradável desta imagem. A palavra “rebanho”, ausente de nossa leitura, encontra-se no v. 16: “um só rebanho, um só pastor”. Rebanho é a imagem da unidade. Assim como o Pai e o Filho são Um, os homens devem acabar por se reunirem num só corpo. “Pai, guarda-os em teu Nome que me deste, para que sejam Um como nós” (17,11), diz Jesus, para além de qualquer imagem. Esta unidade não apaga a consistência, a personalidade de “cada um”, por isso a palavra “rebanho” só é empregada uma vez neste capítulo 10: Jesus preferencialmente fala de “suas ovelhas” no plural; ele as conhece e as chama cada uma por seu nome (v. 3). Mais ainda, nada aconteceria se elas não conhecessem o pastor nem escutassem a sua voz (v. 3-5 e, sobretudo, v. 14). De novo, constatemos que, nos domínios de Deus, o “Um” não se opõe ao “múltiplo” nem a comunidade à singularidade. A unidade entre nós, entre as “ovelhas”, produz-se somente pela participação na unidade do Pai e do Filho: “para que sejam um, como nós somos um: Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade” (17,20-22. Ver também 15,4). Se Cristo nos diz tudo isto, é para nos revelar a nossa verdade última, mas também porque somos parte interessada nesta unidade: ela não pode se fazer sem a nossa adesão. Só livremente é que nos tornamos “participantes da natureza divina” (2 Pedro 1,4).

O Cordeiro será o Senhor

Quem aceita passar do estado de detentor da autoridade ao de «servidor» não conhece nenhuma diminuição nem alteração do que se pode chamar de valor. Ao contrário, é no momento em que alguém aceita dar algo de si mesmo para fazer o outro existir que ele se faz criador, que se torna semelhante a Deus e que entra na intimidade divina. Assim, em certo sentido, só quem se quer «servidor» é que se torna «senhor». Em nossa 2ª leitura, foi quem deu a sua vida, fazendo-se de Cordeiro, é que está «no meio do Trono».

Temos ainda aí uma inversão: este Cordeiro glorificado e sentado no trono acha-se no meio dos que têm fome e sede. Ele os habita e seu Trono são eles. Este Deus-em-nós está em trabalho para nos fazer percorrer o caminho que Ele mesmo seguiu, o caminho do dom de si mesmo que nos conduz «para as fontes da água da vida» (2ª leitura). Não vamos acreditar que para isso seja preciso fazer esforços «morais» consideráveis. Basta que nos abramos para acolher o que nos vem de qualquer modo e saiamos para fora das nossas muralhas defensivas. Isto, no fundo, significa escolher viver em liberdade, muito conscientes de que muitas das escolhas que nos tentam, longe de ilustrar esta liberdade, não poderiam senão nos subjugar. Autores antigos chamaram isto de «abandono à Providência». Sem esquecer que este abandono está intimamente ligado a um imenso desejo que, enfim, não é outro senão o desejo de viver.

Com esta certeza: nada nem ninguém nos poderá arrancar da mão criadora do Pai, mão que não é outra senão a mão do próprio Cristo (versículos 28 e 29). O Cristo conhece pessoalmente cada uma das suas «ovelhas» e nenhuma se perderá. «O Senhor é meu pastor, nada me há de faltar» (Salmo 23). Seja o que for que nos aconteça.

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Atrás e antes de cada vocação
há sempre a oração forte e intensa de alguém

Papa Francisco

O quarto Domingo do Tempo de Páscoa é caracterizado pelo Evangelho do Bom Pastor — no capítulo 10 de São João — que se lê todos os anos. O trecho de hoje cita estas palavras de Jesus: «As minhas ovelhas ouvem a minha voz, Eu conheço-as e elas seguem-me. Eu dou-lhes a vida eterna; elas jamais perecerão, e ninguém as arrebatará das minhas mãos. O meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém as pode arrebatar das mãos do meu Pai. Eu e o Pai somos um só» (10, 27-30). Estes quatro versículos contêm toda a mensagem de Jesus, o núcleo central do seu Evangelho: Ele chama-nos a participar na sua relação com o Pai, e esta é a vida eterna.

Jesus quer estabelecer com os seus amigos uma relação que seja o reflexo da relação que Ele mesmo tem com o Pai: uma relação de pertença recíproca na confiança plena e na comunhão íntima. Para manifestar este entendimento profundo, esta relação de amizade, Jesus utiliza a imagem do pastor com as suas ovelhas: Ele chama-as e elas reconhecem a sua voz, respondem ao seu apelo e seguem-no. Esta parábola é muito bonita! O mistério da voz é sugestivo: pensemos que desde o ventre da nossa mãe nós aprendemos a reconhecer a sua voz e a voz do nosso pai; do tom de uma voz sentimos o amor ou o desprezo, o carinho ou a insensibilidade. A voz de Jesus é única! Se aprendemos a distingui-la, Ele guia-nos pelo caminho da vida, uma senda que ultrapassa até o abismo da morte.

Mas numa certa altura, referindo-se às suas ovelhas, Jesus disse: «O meu Pai, que mas deu…» (Jo 10, 29). Isto é muito importante, é um mistério profundo, não fácil de compreender: se me sinto atraído por Jesus, se a sua voz aquece o meu coração, é graças a Deus Pai, que incutiu em nós o desejo do amor, da verdade, da vida e da beleza… e Jesus é tudo isto em plenitude! Isto ajuda-nos a compreender o mistério da vocação, especialmente das chamadas a uma consagração especial. Às vezes Jesus chama-nos, convida-nos a segui-lo, mas talvez não nos damos conta que é Ele, precisamente como aconteceu com o jovem Samuel. Hoje há muitos jovens, aqui na praça. Vós sois numerosos, não? Vê-se… Eis! Jovens, sois muito numerosos hoje aqui na praça. Gostaria de vos perguntar: ouvistes alguma vez a voz do Senhor que, através de um desejo, de uma inquietação, vos convidava a segui-lo mais de perto? Ouviste-lo? Não ouço. Eis… Tivestes o desejo de ser apóstolos de Jesus? É preciso pôr a juventude em jogo pelos grandes ideais. Vós pensais nisto? Concordais? Pergunta a Jesus o que Ele quer de ti e sê corajoso, sê corajosa! Pergunta-lhe!

Atrás e antes de cada vocação para o sacerdócio ou para a vida consagrada há sempre a oração forte e intensa de alguém: de uma avó, de um avô, de uma mãe, de um pai ou de uma comunidade… Eis por que Jesus disse: «Pedi, pois, ao Senhor da messe — ou seja, a Deus Pai — que envie operários para a sua messe!» (Mt 9, 38). As vocações nascem na oração e da oração; e só na oração podem perseverar e dar fruto. Apraz-me ressaltá-lo hoje, que é o «Dia mundial de oração pelas vocações». (…)

Invoquemos a intercessão de Maria, que é a Mulher do «sim». Maria disse «sim» durante toda a sua vida! Ela aprendeu a reconhecer a voz de Jesus, desde quando o trazia no ventre. Maria, nossa Mãe, nos ajude a reconhecer cada vez melhor a voz de Jesus e a segui-la, para caminhar pela vereda da vida.

21.5.2013

Eu sou vida indissolúvel das mãos de Deus,
laço que não se rasga, nó que não se desata
Ermes Ronchi

As minhas ovelhas escutam a minha voz (cf. João 10,27-30). Não as ordens, a voz. A voz que atravessa as distâncias, inconfundível; que narra uma relação, revela uma intimidade, faz emergir em ti uma presença.

A voz chega ao ouvido do coração antes das coisas que diz. É a experiência com que o bebé, quando ouve a voz da mãe, a reconhece, emociona-se, estende os braços e o coração para ela, e já está feliz bem antes de chegar a compreender o significado das palavras.

A voz é o canto amoroso do ser: «Uma voz! O meu amado! Ei-lo, chega correndo pelos montes, saltando pelas colinas» (Cântico dos Cânticos 2,8). E ainda antes de chegar, o amado pede o canto da amada: «Deixa-me ouvir a tua voz» (2, 14)… Quando Maria, ao entrar na casa de Zacarias, saudou Isabel, a sua voz fez dançar o ventre: «Mal a tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino sobressaltou de alegria no meu ventre» (Lucas 1,44).

Entre a voz do bom pastor e dos seus cordeiros corre esta relação confiante, amorosa, fecunda. Com efeito, porque é que as ovelhas devem escutar a sua voz? Dois géneros de pessoas disputam a nossa escuta: os sedutores, que nos prometem prazeres, e os verdadeiros mestres, que dão asas e fecundidade à vida. Jesus responde oferecendo a maior das motivações: porque Eu dou-vos a vida eterna.

Escutarei a sua voz não por obséquio ou obediência, não por sedução ou medo, mas porque como uma mãe, Ele faz-me viver. Eu dou-lhe a vida. O Bom Pastor coloca no centro da religião não aquilo que eu faço por Ele, mas aquilo que Ele faz por mim.

No coração do cristianismo não é colocado o meu comportamento, ou a minha ética, mas a ação de Deus. A vida cristã não se funda no dever, mas no dom: vida autêntica, vida para sempre, vida de Deus derramada dentro de mim, antes que eu faça o que quer que seja.

Ainda que eu diga sim, Ele semeou gérmenes vitais, sementes de luz que possam guiar-me a mim, desorientado na vida, à terra da vida. A minha fé cristã é incremento, acrescento, intensificação do humano e de coisas que merecem não morrer.

Jesus di-lo com uma imagem de luta, de combativa ternura: ninguém arrancará as minhas ovelhas da minha mão. Uma palavra absoluta: «Ninguém». Dita duas vezes, como se tivéssemos dúvidas: ninguém as pode arrancar da mão do Pai.

Eu sou vida indissolúvel das mãos de Deus, laço que não se rasga, nó que não se desata. A eternidade é um lugar entre as mãos de Deus. Somos passarinhos que temos o ninho nas suas mãos. E na sua voz, que aquece o gelo da solidão.

Ermes Ronchi
In Avvenire
http://www.snpcultura.org