O Pão do III Domingo da Quaresma (ciclo C)
Lucas 13,1-9

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Beber da Rocha que é Cristo

Referências bíblicas:

  • 1ª leitura: “Assim responderás aos filhos de Israel: ‘Eu sou’ enviou-me a vós” (Êxodo 3,1-8.13-15)
  • Salmo: Sl. 102(10,3) – R/ O Senhor é bondoso e compassivo.
  • 2ª leitura: A Escritura conta a vida de Moisés com o povo no deserto para nos advertir (1Co 10,1-6.10-12)
  • Evangelho: “Se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo” (Lucas 13,1-9)

UM DEUS CREDIVEL
José Tolentino Mendonça

Queridos irmãs e irmãos,
O primeiro anúncio desta Palavra é um anúncio feliz, é um anúncio de que Deus não é indiferente à nossa condição. Deus não olha de fora, de modo neutral, para a história dos homens. O nosso Deus é um Deus que, no amor e na misericórdia, se compromete. É um Deus que toma a iniciativa de manifestar o Seu amor e de transformar o inaceitável da história numa história nova, numa história aberta, numa história onde a vida é verdadeiramente possível.

Deus toma a iniciativa nos primórdios da Revelação de falar a Moisés e apresentar-Se como: “Eu Sou Aquele que é para vós, para vós.” Deus não é apenas um Deus perdido nos confins da sua divindade mas Deus é um Deus que Se derrama em amor e em misericórdia, em solicitude, em cuidado para cada um de nós.

E aqui cada um de nós, queridos irmãs e irmãos, tem de saber no fundo do seu coração que pode confiar em Deus. Cada um de nós pode confiar em Deus. Deus é um Deus credível, é um Deus no qual cada um de nós pode confiar inteiramente porque o Seu amor é um amor incondicional. É Ele quem toma a iniciativa de nos amar e amar-nos quando mais nós precisamos, quando mais nós precisávamos desse amor. Estávamos no Egito, eramos escravos, eramos perseguidos, estávamos abatidos, oprimidos e Deus vem ao nosso encontro.

Então, não há limite, não há separação, não há momento nenhum na nossa vida no qual o amor de Deus e a Sua misericórdia não se possam manifestar. Não há obstáculos para o amor de Deus, Ele pode amar-nos sempre, e pode amar cada uma das Suas criaturas sempre, em todo o tempo. Esta é a mensagem libertadora dirigida ao nosso coração: nós não estamos sós, o nosso Deus não é um Deus que não vê, não é um Deus que assiste de longe, não é um Deus impávido. É um Deus que vê, é um Deus que ouve, que escuta o nosso sofrimento, a nossa miséria e vem ao nosso encontro.

Por isso, cada um de nós se sinta verdadeiramente envolvido, tocado, mergulhado no mistério da misericórdia de Deus. A nossa vida não está sob o signo da fatalidade, a nossa vida está sob a luz de uma bênção, sob a luz de uma promessa. Por isso, cada um de nós é chamado a confiar, a confiar. Confiemos, confiemos neste amor que Deus nos oferece, confiemos naquilo que Deus pode realizar em nós. Por maior que seja a nossa dificuldade, o emaranhado da nossa vida, o nó, a fragilidade, Deus pode, Deus pode. Confiemos, acreditemos nesta misericórdia, nesta mão estendida que Deus lança à vida de cada um de nós. Esta é a palavra mais importante.

Nós hoje ouvimos hoje o salmo 102: “Bendiz, ó minha alma o Senhor e não esqueças nunca os seus benefícios porque Ele perdoa os teus pecados e coroa-te de graça e misericórdia.” No fundo, o salmo 102 lembra-nos que o caminho do Povo de Deus ao longo da história é o caminho de uma memória sempre presente do amor de Deus e da sua misericórdia. A nossa biografia, a nossa autobiografia crente, o património de vida que construímos juntos é um património que pode atestar e documentar como Deus é misericordioso para nós.

Queridos irmãos, nesta Quaresma sintamo-nos apóstolos da misericórdia de Deus, chamados a ser misericordiosos. Cada um de nós tem de ser testemunha da misericórdia, aprendermos a arte da misericórdia que é uma arte de reconciliar, de restaurar, de abrir portas fechadas, de quebrar isolamentos, de testemunhar que é possível, de acordar a esperança, de não apagar a pequenina chama entre as cinzas, mas pelo contrário fazer tudo para que aquela chama não morra. Que cada um de nós se sinta um enviado da misericórdia na sua vida, no seu contexto familiar, no seu mundo de trabalho, com os seus amigos, com os próximos e os distantes, com aqueles com quem estamos bem e com aqueles com quem temos problemas, com quem temos conflitos. Podermos testemunhar neste  tempo de Quaresma que é um tempo de intensificação espiritual, sermos apóstolos da misericórdia: vermos, ouvirmos.

A Sophia de Mello Breyner, sem dúvida inspirada nesta teologia, depois escreveu: ”Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar.” A misericórdia é esta impossibilidade de ignorar o sofrimento dos outros. Não ignoramos e não julgamos, não julgamos. O Evangelho de hoje, neste capítulo XIII de S. Lucas é muito nessa linha. Nós não podemos julgar ninguém, não podemos julgar, só nos podemos compadecer, sabemos lá, sabemos lá. Às vezes ouvimos falar de coisas e é tão fácil julgar, é mais difícil colocar-nos no lugar do outro, na pele do outro.

Isso acontece muito, por exemplo, quando visitamos as prisões ou quando visitamos pessoas em situações de grande miséria, de grande sofrimento. É uma lição de humildade porque com muita facilidade a gente percebe que podia estar naquele lugar. Nós podíamos ser aquela pessoa, naquela situação. Só não somos nós que estamos ali porque fomos muito poupados, porque fomos muito protegidos, porque tivemos muitas graças, porque nos encontramos com as pessoas certas, porque fomos embalados por uma mão protetora. Porque senão, todos somos feitos da mesma matéria, da mesma massa, passamos pelas mesmas tentações. Às vezes colocamo-nos numa posição de superioridade mas é só porque não estamos a ver bem, não estamos a ver bem. Porque quando olhamos bem para aquilo que somos, com verdade, nós percebemos que somos quem somos apenas por graça, apenas por misericórdia, apenas porque fomos amparados. E isso aumenta a nossa responsabilidade e é disso que Jesus também fala no Evangelho de hoje. Sentirmo-nos responsáveis.

Mas responsáveis no melhor dos sentidos, responsáveis no sentido de comprometidos com uma missão libertadora, comprometidos com uma missão messiânica, comprometidos com uma tarefa transformadora da realidade. Não é para nos culparmos. Aquela frase do Dostoievski, “Nós somos responsáveis por tudo perante todos”, que é uma frase cristianíssima, que é uma frase evangélica, mas não é uma frase para nos esmagar com a culpa: “Ah, eu sou responsável, eu merecia, eu não tenho, eu merecia um castigo e fui poupado.” Não, isso não é evangélico, isso não é cristão, são as nossas culpas, é o labirinto do nosso interior que também precisamos arrumar interiormente.

A responsabilidade tem de ser não vivida como culpa mas vivida como missão, vivida como envio. Significa: agora, torna à tua volta o mundo melhor, enche-o de pequenos gestos, acende pequenas luzes, modifica, altera, renova, faz o que está ao teu alcance em todos os dias. É esta mobilização ativa para o bem que a Quaresma pede a cada um de nós em vista da Páscoa. É este rejuvenescimento da alma que a responsabilidade pelos outros, pelo mundo, nos dá. E não ficarmos esmagados por uma culpa ou por um sentido de responsabilidade que nos paralisa, que nos imobiliza completamente e nos prende as mãos e os pés e as palavras e os ouvidos e o coração para nos colocarmos como cuidadores, como servidores da Humanidade ferida.

Aquela palavra de Paulo, “Quem está de pé esteja atento para não cair”, significa: vigiemos sobre nós próprios, não nos fechemos em nós, no nosso conforto, no nosso egoísmo, nos nossos problemas, nos nossos: ‘Eu tenho isto, eu tenho aquilo’, nas nossas dores: ‘doí-me aqui, doí-me ali’ e de repente nós perdemos a capacidade de amar.

Eu lembro-me da pedagogia do Padre Américo. Ele fundou uma instituição chamado “Calvário” precisamente para doentes em estado muito avançado, pessoas com grandes problemas de saúde. Mas ao lado do “Calvário” ele colocava uma “Casa do Gaiato”. Quer dizer, ao lado das pessoas que estão já com muitas limitações, muitos sofrimentos, colocava crianças. No fundo para que cada um se sentisse responsável pelos outros e pudesse sair um bocadinho de si próprio. Sair um bocadinho de si próprio, deixar de pensar no que dói e entusiasmar-se pela vida, pelo cuidado. Porque no fundo o grande milagre é esse até ao fim, o grande milagre é a possibilidade de amarmos.

Porque a nossa fragilidade vai acompanhar-nos sempre. “Ah, eu tenho um feitio muito mau.” Vais corrigi-lo, vais altera-lo mas se calhar tu vais ser sempre uma pessoa com um feitio um bocadinho difícil. Mas não desistas é de, com o feitio que tu tens, fazer outras coisas, fazer o milagre do amor. Esforça-te! “Ah, eu falo muito das minhas doenças.” Vais continuar a falar disso mas esforça-te um bocadinho por ouvir das doenças dos outros calado, sem comentar: “Eu também tenho, também me dói.” Não, ouve calado. Ouve o sofrimento dos outros, as doenças dos outros. E no fundo, é um método, é um método. Quer dizer, a nossa vulnerabilidade vai acompanhar-nos sempre e nós também se somos água não nos vamos tornar azeite, sejamos realistas. Mas dentro do realismo não desistamos de ir ao encontro dos outros, do milagre do amor, do milagre do serviço, do colocar os outros em primeiro lugar. E este esforço transforma-nos, coloca luz dentro de nós.

“Bebamos – como diz S. Paulo- do rochedo que é Cristo.” Bebamos dessa nascente. O tempo da Quaresma, queridos irmãs e irmãos, é para colocarmos os olhos em Jesus. Que Ele seja para cada um de nós o modelo. Isso implica também que cada um de nós se coloque perante Ele. É muito importante que o tempo da Quaresma seja um tempo de oração, que cada um de nós, sozinho, olhe para Ele. E Ele fala a cada um de nós, Ele diz coisas concretas à nossa vida. Cada um de nós se coloque perante Ele, perante os Seus braços abertos capazes de acolher por inteiro a nossa vida, capazes de nos abraçar e capazes de reprogramar a nossa vida, os nossos sentimentos, as nossas prioridades, a nossa agenda. Isto é quaresma, quaresma é dar-se que fazer, quaresma é desinstalação, quaresma é renovação.

“É possível renascer” começamos nós por cantar. Seja este um tempo mobilizado, um tempo para sentir que temos uma tarefa por fazer e essa primeira tarefa é o amor, e a segunda tarefa é o amor e a última tarefa ainda é o amor.

http://www.capeladorato.org 

Deus é inocente em relação ao mal que fazemos
Marcel Domergue

Apesar do livro de Jó e de várias outras passagens da Bíblia, os hebreus ligavam facilmente o mal que nos aflige ao pecado. Quando se é testemunha de uma catástrofe, é reconfortante poder dizer das vítimas que elas não procuraram aquilo. A imagem de um Deus que pune não desapareceu totalmente de nossas mentalidades, e ainda se escuta pais que dizem a um filho culpado por alguma bobagem: “Deus castiga”. Nada disso! Deus não pune nem provoca de jeito nenhum o mal que nos aflige.

Gênesis 1 diz que, no final da criação, “Deus viu que era bom”. Mas, sempre no mesmo capítulo, lemos que este universo foi confiado ao homem para que ele o administrasse e o humanizasse. Ora, não poderia o próprio Deus humanizá-lo desde o início? Não, porque assim não teríamos sido feitos à sua imagem e semelhança. Para isso é necessário que também o ser humano seja criador.

Um detalhe, porém: para sermos imagem de Deus temos de fazer coisas boas sim, mas sempre livremente. Não poderíamos ser forçados, estar condenados a «fazer o bem». Foi Pilatos e não Deus, quem escolheu o mal e a morte, fazendo com que os galileus fossem massacrados enquanto ofereciam um sacrifício. É o seu pecado que está na origem desta tragédia e não o das vítimas. A vontade de Deus é fazer viver, não fazer morrer. Refratários à verdade que proclama estar tudo no mundo submetido ao homem, ainda há quem se pergunte por que Deus “permite” isto ou aquilo…

Ora, Deus não permite nada, em absoluto; não permite nem proíbe. Deus simplesmente nos prescreve o amor, amor pelo qual chegaremos à sua semelhança. A justiça de Deus não é a que pensamos. Para nos justificar, foi preciso que um justo desse sua vida e, assim, sofresse a mesma sorte do culpado. Um excesso de injustiça que o Filho, imagem perfeita do Pai, iria subscrever: Deus não quis arrolar-Se entre os nossos assassinos, mas sim entre as suas vítimas.

Homens em conflito

Não existem somente os males pelos quais somos responsáveis. Também existem terremotos, inundações, acidentes… Hoje se busca sempre alguma falha humana na origem dos sinistros. Mas nos encontramos com frequência diante do imprevisível e da impossibilidade de designar os responsáveis. E, então, Deus é o responsável? A Bíblia vê as coisas de outro modo. No capítulo 3 do Gênesis, Deus constata que o pecado do homem, a sua vontade de decidir por si mesmo o que é bom e o que é mau, colocou-o num conflito multiforme: conflito entre o homem e a mulher (3,16), conflito dos homens com a natureza (3,17-19) e conflito dos homens entre si (4,9). A Bíblia toda está cheia dessas diversas oposições, até o dia em que o Mestre, na Cruz, colocou-se na posição de escravo.

Então, agora sim, Paulo vai poder escrever que (do ponto de vista do estatuto social) não há mais nem homem nem mulher, nem escravo nem homem livre, nem judeu nem pagão… Agora há somente o Cristo, que é tudo em todos. Temos aí então outro conflito mais fundamental; aquele que Gênesis 3 simboliza pela imagem da hostilidade entre a descendência da mulher e a da serpente, figura do mal. Esta descendência, no horizonte, é o Cristo, o “Filho do homem”. Ele se fará serpente (João 3,14) para que o mal do homem seja crucificado.

A injustiça de Deus

Mas o que quer Jesus nos fazer compreender quando diz: “Se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”? Não voltamos aqui, assim, à ideia da punição divina? Absolutamente! Converter-nos significa: ir em direção á nossa verdade de homens e mulheres, humanizar-nos.

Fora isso, não há para nós outra opção que não seja o nada. Ou somos imagem e semelhança de Deus ou não somos nada, ou seja, destinados à morte. Somente o amor, pelo qual nos assemelhamos a Deus, pode nos fazer superar a morte. Ao amor, portanto, é que temos de nos converter, a este amor que nos faz superar as divisões e os conflitos. Foi este amor que conduziu o Cristo a submeter-se à morte que nos espera a todos nós, solidários que somos, de diversas maneiras, do mal -do anti-amor- que envenena o mundo.

Eis que ele, contudo, é o único justo, o único não destinado à morte. O único que mantém perfeito acordo com a natureza e com os seus semelhantes (é este um dos sentidos das curas e de outros “sinais”). Por ele, crucificado, fomos postos sob o regime da injustiça de Deus, injustiça que paga a mesma quantia ao operário da última hora e ao que trabalhou desde manhãzinha. Segundo a lógica da justiça, deveríamos todos “morrer do mesmo modo”. Mas, no caminho da nossa morte, encontramos o Cristo crucificado. Ele venceu a morte e, por ter-se feito solidário conosco em nosso destino de pecadores, somos solidários com Ele em sua ressurreição.

Da parte do homem, é impossível entrar no reino de Deus. Mas o que é impossível ao homem é possível a Deus (Lucas 18,27). A paciência do vinhateiro para com o sarmento estéril é inesgotável.

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