Conflitos, crises económicas agravadas pela covid-19 e alterações climáticas extremas aumentaram a insegurança alimentar em 2020, e 2021 será igualmente um «ano difícil». O objectivo de erradicar a fome até 2030 parece cada vez mais inatingível. É o que dizem dois relatórios, um da Rede Mundial contra as Crises Alimentares, aliança que integra a FAO, a União Europeia e PAM, e outro da Unicef.

MARGARIDA SANTOS LOPES
Revista Além-Mar, setembro 2021

Quase um décimo da população mundial – entre 720 e 811 milhões de pessoas – passaram fome em 2020, ou seja, «entre 118 e 181 milhões mais do que em 2019», segundo The State of Food Security and Nutrition in the World («Estado da Segurança e Nutrição Alimentar no Mundo», da Unicef. 

Os números revelam «desigualdades regionais preocupantes»: uma em cada cinco pessoas (21% da população) passou fome em África – mais do dobro de qualquer outra região. E isto representa um aumento de 3 pontos percentuais num só ano. Segue-se a América Latina e as Caraíbas (9,1%) e a Ásia (9,0%), com aumentos de 2,0 e 1,1 pontos percentuais, respectivamente, entre 2019 e 2020, refere o Fundo das Nações Unidas para a Infância.

Mais de metade dos 768 milhões de desnutridos do mundo vive na Ásia (418 milhões) e mais de um terço em África (282 milhões), enquanto a América Latina e as Caraíbas representam 8% ou 60 milhões, acrescenta a Unicef. Em comparação com 2019, a fome afectou mais 46 milhões de pessoas em África, 57 milhões na Ásia e 14 milhões na América Latina/Caraíbas.

Novas projecções indicam que cerca de 660 milhões de pessoas continuarão a passar fome em 2030, em parte devido aos efeitos duradouros da pandemia sobre a segurança alimentar global, ou seja, mais 30 milhões do que num cenário sem covid-19.

Em 2020, quase uma em cada três pessoas no mundo (2370 milhões) não teve acesso adequado a alimentos – uma subida de quase 320 milhões num só ano. Cerca de 12% da população global estava em situação de insegurança alimentar severa, representando 928 milhões, ou seja, mais 148 milhões do que em 2019.

Estima-se que, o ano passado, 22% ou 149,2 milhões de crianças com menos de 5 anos de idade tivessem sofrido atrasos no crescimento e que 6,7% ou 45,4 milhões definharam – números que deverão aumentar em consequência da pandemia. A maioria das crianças desnutridas vive em África e na Ásia.

No seu minucioso relatório sobre 2020, a Rede Mundial contra as Crises Alimentares salienta, por seu turno, que 155 milhões de pessoas em 55 países/territórios estavam em situação de «crise» alimentar, «pior ou equivalente» – um aumento de 20 milhões em relação a 2019. Deste total, 66% vivem na República Democrática do Congo (21,8 milhões), no Iémen (13,5 milhões), no Afeganistão (13,2 milhões), na Síria (12,4 milhões), no Sudão (9,6 milhões), no Norte da Nigéria (9,2 milhões), na Etiópia (8,6 milhões), no Sudão do Sul (6,5 milhões), no Zimbábue (4,3 milhões) e no Haiti (4,1 milhões).

Em três países, mais de metade da população está em situação de «crise, pior ou equivalente»: a Síria (60%), o Sudão do Sul (55%) e a República Centro-Africana (51%).

Mais de 28 milhões em 38 países/territórios estavam em situação de «emergência», necessitando de ajuda urgente para salvar vidas e meios de subsistência. Outras 133 mil encontravam-se em situação de «catástrofe», em particular no Burquina Faso, no Sudão do Sul e no Iémen.

Pelo menos 65% dos 46 milhões de deslocados internos em 2020 viviam na República Democrática do Congo, no Iémen, no Afeganistão, no Sudão, no Norte da Nigéria, na Etiópia e no Sudão do Sul.

Dos 30,5 milhões de refugiados e requerentes de asilo em todo o mundo, 38% eram originários de três países em situação de crise alimentar: a Síria, o Afeganistão e o Sudão do Sul.

Para 2021, em grande medida devido a conflitos, mas também às repercussões económicas da covid-19, às alterações climáticas e outras ameaças transfronteiriças, como pragas de gafanhotos, prevê-se que 142 milhões de pessoas fiquem em situação de «crise, pior ou equivalente» em pelo menos 40 países. Em dois deles, 155 mil pessoas deverão enfrentar o estado de «catástrofe»: Sudão do Sul (108 mil) e Iémen (47 mil).