XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM (B)
Marcos 6,1-6 

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(…) Quando nós fazemos uma viagem ou recebemos alguém de fora parece que temos uma disponibilidade maior para acolher a profecia, para acolher os sinais. Isso é uma grande oportunidade que Deus nos dá, fazer uma viagem, ter um tempo de férias, conhecer outra realidade.

Mas o evangelho de hoje fala-nos do contrário. Fala-nos, às vezes, da nossa dificuldade de perceber na vida de todos os dias, e com os interlocutores que nos são mais próximos, perceber como Deus se manifesta, como Deus nos visita. Jesus visitou Nazaré, e lá fez vários sinais, mas porque Ele era o filho do tal e da tal, e porque Ele era o parente do outro e da outra, não o quiseram escutar. E isso para nós constitui um desafio muito grande que é: como valorizarmos, naquilo que é mais próximo, nas vozes que já nos são mais habituais, no mundo mais conhecido, no nosso espaço doméstico, na nossa vida quotidiana, como valorizamos o Deus que nos visita? E como manter o nosso coração aberto?
Porque, às vezes, o que acontece é que antes da pessoa abrir a boca nós já sabemos, já nem queremos ouvir, já percebemos tudo, ou achamos que percebemos tudo. E a verdade é que perdemos muito se trancamos o coração a este Deus que nos visita não só no extraordinário, mas que nos visita também no ordinário, na vida de todos os dias, e às vezes, no difícil dos dias, no difícil dos dias.

A história de S. Paulo, da Segunda Carta aos Coríntios que hoje nós lemos, é um texto verdadeiramente admirável porque Paulo estava em dificuldade. Ele escreve metaforicamente dizendo que era como um “anjo de Satanás que o esbofeteava”. Era uma situação difícil que ele estava a sofrer e, contudo, Deus diz-lhe: “ Mantém-te forte, descobre a graça de Deus mesmo no meio da dificuldade, mesmo no meio da crise.” Deus não diz: “Não, não estás a viver isso.” Não, estás a viver, a dificuldade existe, a dificuldade existe, a dificuldade existe, o problema está aqui. A questão é: “Conta com a Minha graça aí, no meio da tua dificuldade e no meio do teu sofrimento, a Minha graça revela-se.” E isto parece um oximoro, uma coisa que nunca se vai compreender, que é o oposto: a fraqueza e a força.

O que parece um oximoro torna-se o caminho da nossa vida: “Quando sou fraco, então é que sou forte.” Isto é: descobrir nesta experiência da fragilidade, da vulnerabilidade – que é no fundo uma experiência que todos temos de fazer, faz parte das nossas vidas, por uma razão ou por outra, em todas as idades nós fazemos esta experiência da vulnerabilidade – como torná-la também uma oportunidade para compreender melhor a presença de Deus na nossa vida, compreender melhor a graça de Deus, perceber que não é o fim mas há coisas importantes que se vivem também em ocasiões que são muito difíceis de suportar e de viver.

Como nos lembra o profeta Ezequiel: “Deus não desiste, Deus não desiste.” Nós somos visitados por Deus, Deus não desiste das nossas vidas. E não é a rebeldia, ou a dureza de coração, ou a nossa cabeça dura que impede Deus continuamente de enviar-nos a Sua graça, enviar-nos os Seus profetas que toquem o nosso coração e deixem uma palavra de esperança.

Vamos pedir nesta eucaristia que o Senhor nos dê por um lado o olhar para o extraordinário, para um desejo muito grande de ir além do nosso quintal, do nosso mundo. Mas também que Ele nos ajude a olhar para o nosso pequeno mundo, para a nossa vida de todos os dias, para o nosso universo habitual com os olhos de quem se deixa surpreender e tocar.

Que o Senhor não permita que sejamos impermeáveis em relação aos outros que nos estão próximos e à vida que vivemos, mas nos dê um olhar de quem olha a vida pela primeira vez, de quem repara nos detalhes, de quem mantém um coração muito grato, muito agradecido, por aquilo que em cada dia e com os interlocutores habituais da nossa vida recebe. Porque é sobretudo através desses canais que Deus nos fala. Que no fundo do nosso coração sintamos que Deus não desiste. Deus não desiste de manifestar o Seu amor, de manifestar a Sua ternura, de manifestar a nossa esperança, manifestar a esperança nas nossas vidas.

Vamos colocar no altar as razões da nossa gratidão. Hoje a nossa comunidade tem também a alegria de poder juntar-se em oração e ação de graças pelos 90 anos da Ester, agradecer muito a Deus a sua vida, tudo aquilo que através dela o Senhor tem feito chegar à sua família, aos seus amigos. Pedir que o Senhor a conserve na saúde e na graça. E agradecer o dom da vida de cada um de nós que é o lugar extraordinariamente expressivo do amor e da misericórdia do Pai.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo XIV do Tempo Comum

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