Nada do que Bolsonaro representa – sexismo, racismo, xenofobia, ódio e violência, vulgaridade, vazio de ideias e de projectos – faz falta seja ao Brasil seja a qualquer outro país da América Latina – pelo menos à América Latina com memória.
A fulgurante ascensão de um homem que até há pouco não atraía mais do que pena ou raiva, conforme o que dizia dava para rir ou era excessivo, acabou por ser incontornável na cena política do Brasil e dos países vizinhos. E entende-se: a América Latina pagou demasiado caro por extremistas, senão por doidos, na sua história recente.
No período que antecedeu a primeira volta das eleições brasileiras do mês passado, e principalmente no que introduziu a segunda, os governos da região mantiveram o low profile que o caso exigia. Tanto mais que não sabiam como acabaria a mais decisiva de todas as corridas eleitorais do país desde o fim da ditadura (1964-1985).
Foi por isso que, exceptuando alguns casos pontuais, a reacção geral foi de contenção das emoções, de resguardo, até que os eleitores tivessem a última palavra, no passado dia 28.
Sombras
O presidente chileno Sebastián Piñera, tinha o ultra brasileiro passado à segunda volta como o mais votado, louvou-lhe, mesmo sem saber ainda do que falava, o «plano muito concreto, muito específico, sobre como vai enfrentar os problemas» do seu país demarcando-se, porém, da sua linguagem «homofóbica» ou a usada sobre as mulheres. Já o venezuelano Nicolás Maduro e a vice-presidente uruguaia, Lucia Topolanski, mulher de Mujica, por exemplo, foram sombrios, temendo pelo que consideraram um quase regresso aos Anos de Chumbo [designação do período mais repressivo da ditadura militar no Brasil, de 1968 a 1974].
A frase usada pela mulher de José Mujica, numa entrevista ao diário uruguaio El País, resumiu bem o sentimento geral e a tensão que acompanhou a corrida: «Há toda uma tendência conservadora na região, mas isto é quase um retorno ao ditatorial.» E é esta a questão. A coisa pode pegar-se? Alastrar?
Entre os anos 60 e 80 do século passado, a América Latina viveu um inferno de golpes, ditaduras e guerras, que, além de um número incontável de mortos, feridos e estropiados, deslocados e refugiados, atrasou a democracia e o desenvolvimento. Os processos de paz, ou os da verdade e reconciliação, e a parlamentarização trouxeram calma e permitiram a onda rosa que depois quase tudo ali alcançou ainda que de formas desiguais. Admitir uma reviravolta neste processo de tão pouco tempo é como querer saber as horas com os ponteiros de um relógio a andar ao contrário.
Memória
Para que a história desse ali uma cambalhota do tipo Bolsonaro, seria preciso, mais do que o despontar de extremistas e de desequilibrados, que se juntassem, como aconteceu no Brasil, a polarização, a guerra cultural e o autoritarismo, aceitando como bom o raciocínio do sociólogo Jorge Galindo (El País). É verdade que a fulgurante ascensão de um homem que até há pouco ou metia dó ou apenas irritava despertou a esperança entre os ideólogos reaccionários e autoritários da zona. Mas também é que além dela é necessário ambiente e a realidade é muito diferente de país para país. O Chile, por causa de Piñera e de nacionalistas como José Antonio Kast, que foi da UDI e agora é da Acção Republicana, ainda mais radical, e que se apressou a ver no fenómeno Bolsonaro a «rejeição categórica da esquerda na América Latina», a Colômbia, onde a direita uribista se mandou, em 2016, contra debates sobre o aborto, a violência de género e a presença da religião na vida pública, o Equador ou o Paraguai, poderiam ser palcos de aventuras semelhantes, mas em nenhum se conjugam, da mesma maneira com a mesma grandeza, as três condições.
De todo o modo, Jair Bolsonaro e o que ele representa, o sexismo, o racismo, a xenofobia, o discurso do ódio, a ausência de ideias e de projectos, a mentira e a falsidade como modos de campanha, ou o culto da violência, para ficarmos por aqui, é tudo o que a América Latina não precisa – pelo menos a América Latina com memória.
Nota: Este artigo foi escrito com base apenas na ascensão de Jair Bolsonaro e nos elementos disponíveis no dia 15 de Outubro.
FERNANDO SOUSA
Além-Mar, Novembro 2018
