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A desigualdade continua a agravar-se. No ano passado, 82 % da riqueza mundial gerada foi parar às mãos de 1 % da população mundial mais rica.

Mais uma vez, reuniram-se em Davos, num encontro promovido anualmente pelo Fórum Económico Mundial, mais de 340 chefes de Estado e de governo. Na agenda esteve a luta contra as crescentes desigualdades económicas em todo o mundo.

O mundo, de facto, está cada vez mais desigual e essas desigualdades são facilmente perceptíveis nas nossas cidades. Os dados do relatório «Recompensem o trabalho, não a riqueza», da Oxfam, mostram o tamanho da concentração de rendimento e da desigualdade social em todo o mundo. Segundo aquela organização não-governamental britânica, a desigualdade continua a agravar-se. No ano passado, 82 % da riqueza mundial gerada foi parar às mãos de 1 % da população mundial mais rica. Entretanto, os 50 % mais pobres – 3700 milhões de pessoas – não beneficiaram em nada com o crescimento. Apesar do crescimento económico, quase 40 milhões de pessoas ainda vivem abaixo da linha de pobreza.

No ano passado, produziu-se o maior aumento da História no número de pessoas cujas fortunas superam os mil milhões de dólares, com um novo multimilionário a cada dois dias. No total, há 2043 multimilionários em todo o mundo, que formam um restrito clube: de cada dez, nove são homens. Em doze meses, a riqueza dessa elite de super-ricos aumentou em 762 mil milhões de dólares. Riqueza suficiente para acabar com a pobreza extrema sete vezes. Nos Estados Unidos, por exemplo, as três pessoas mais ricas do país detêm a mesma riqueza que a metade mais pobre da população, ou seja, 160 milhões de pessoas.

Perante esse cenário de desigualdade, o Papa Francisco exortou os líderes políticos e financeiros a criarem condições para «a construção de sociedades mais inclusivas, justas e solidárias». O Santo Padre salienta que «o mundo não pode continuar silencioso diante do sofrimento de milhões de pessoas feridas na sua dignidade, nem pode continuar a seguir em frente como se os dramas da pobreza ou da injustiça não existissem».

O papa alerta para as consequências sociais que resultam de um «estilo de vida egoísta» ou baseado na «opulência». Chagas como o desemprego ou a pobreza crescente que criaram novas formas de «escravatura» e alargaram as «discrepâncias socioeconómicas» entre as pessoas, «em muitas regiões do mundo».

Actualmente, é difícil encontrar um dirigente político ou empresarial que não expresse a sua preocupação pela desigualdade. A cúpula de Davos também reconhece os riscos de uma crescente desigualdade, que contribui «para a polarização política e a erosão da coesão social em muitas economias avançadas e emergentes». E adverte o fórum de que o crescimento dos últimos cinco anos não serviu para reduzir a pobreza nem para aumentar o rendimento familiar. No entanto, a única receita que propõe é um novo índice para medir o desempenho da economia de forma mais inclusiva.

Para superar a desigualdade requerem-se iniciativas e programas inovadores que mudem o paradigma económico vigente, que gera exclusão e beneficia minorias. É necessário pôr em prática um modelo alternativo que recompense o trabalho e não a riqueza. Só desse modo poderemos fechar o abismo, cada vez mais amplo, que existe entre ricos e pobres.

Revista Além-Mar, Fevereiro 2018