O Mestre está cá, e chama-te. Bíblia e Vocação
Manuel João Pereira Correia
Apresentação do livro

Deus à nossa procura
O presente volume recolhe os textos escritos pelo Pe Manuel João Pereira Correia, missionário comboniano, para a revista Além-Mar desde Abril de 2012 até Dezembro de 2013. O espaço em que ele escreveu é herdeiro de uma longa tradição de reflexão vocacional, em chave missionária. Os leitores, jovens e menos jovens, estão familiarizados com estas páginas, a fecharem cada número da revista.
Os textos são aqui agora recolhidos num volume com o título «O Mestre está cá, e chama-te», palavras tiradas do Evangelho de João 11, 28 e que retratam o momento em que Marta vai informar sua irmã Maria da chegada de Jesus e esta corre ao seu encontro. Estas palavras foram sugeridas pelo autor «como um augúrio que cada uma das páginas do livro fosse o eco da voz de Marta dirigida a cada leitor: “o Mestre está aqui e chama-te”! E de uma nossa resposta imediata, como a de Maria que se levanta e corre logo ao encontro de Jesus».
Os assinantes da revista que se foram habituando aos textos do Pe Manuel João nunca mais os deixaram, saboreando-os mês após mês, como agora farão os leitores que abrirem o livro e se aventurarem pela leitura destas páginas. Reuniram-se os textos em livro para dar a outros e outras esta oportunidade de se encontrarem com páginas de grande beleza espiritual e de profunda sensibilidade bíblica, com narrações que nos oferecem a possibilidade de entrar na aventura de tantas vidas tocadas pelo mistério de Deus – e de nelas descortinarmos algo do enigma das nossas próprias vidas e do mistério de um Deus, da descoberta de um Amor que anda perdidamente à nossa procura para dar sentido e beleza aos caminhos que percorremos.
Para reflectir sobre a vocação na Bíblia, o autor explorou a aventura de fé de pessoas concretas, personagens do Antigo e do Novo Testamento, homens e mulheres tocados pela experiência do diálogo de amor com Deus, que sai à procura das suas criaturas e as convida a uma caminhada de fé e de transformação pessoal e social. Algumas destas personagens dão nome e sentido aos alvores e às incertezas da caminhada da fé, das respostas aos apelos de Deus: Adão, Eva, Noé, Abrão. Outros nomes são-nos conhecidos da história hebraica ou da corrente de profetismo que acompanhou a caminhada do povo da aliança: Abraão, Moisés, Elias, Jonas, João Baptista. Outros são-nos ainda mais familiares, ligados intensamente à pessoa e à missão de Jesus: Maria e José, sua família de Nazaré; Pedro, pescador de Cafarnaum; Tomé, o misterioso gémeo; Mateus, comerciante pouco recomendável; Lucas, médico que acabou evangelizador; Matias, o apóstolo de reserva; Marta e Maria, de Betânia, as discípulas na quotidianidade; Maria Madalena, a missionária da ressurreição; Paulo, de Tarso, o apóstolo que fez a diferença ao levar o Evangelho de Cristo para além das fronteiras de Israel, aos povos.
O autor termina a sua recolha de testemunhos de pessoas que passaram pela aventura do diálogo com Deus e responderam aos seus desafios nas situações concretas das suas vidas, com duas reflexões, em jeito de conclusão: «A Última Vocação», oferecendo ao leitor um olhar sobre a vida para além das estrelas, um olhar de esperança que transforma a dor e a morte; «A Vocação das Vocações», o Amor, cantado no Livro do Cântico dos Cânticos e que está na origem e no fim de tudo o que possamos dizer e escrever sobre Deus, a vida e a nossa vocação à felicidade.
O Cardeal Carlos Maria Martini, numa lição sobre a Lectio Divina que deu em Jerusalém, no último ano em que lá esteve, pouco antes de falecer, simplificou em três passos a tarefa quotidiana de nos aproximarmos das Escrituras. No primeiro passo interpelamos o texto, no seu tempo e nas suas circunstâncias, nas personagens da sua cena: que diz, que conta o texto em si? No segundo, interpelamos o texto em relação a nós próprios e à Igreja hoje, aos contextos da nossa procura e das nossas interpelações: que diz o texto à Igreja hoje, a mim que o leio na situação em que me encontro? No terceiro passo, deixamo-nos interpelar pelo texto e pela passagem que lemos: que digo eu a este texto, que respondo eu, em oração, a Deus que me fala nesta Palavra?
Pelo conhecimento que o autor tem das Escrituras, os textos do Pe Manuel João aqui recolhidos ajudam-nos solidamente a dar o primeiro passo na nossa aproximação às Escrituras, a interpelar os textos, criando contemporaneidade com as suas situações e devolvendo-nos a capacidade de entrarmos no texto sagrado. No segundo passo, o autor mostra a sua originalidade, ajudando-nos a personalizar a mensagem para as nossas vidas, a nossa igreja e o nosso tempo; ele consegue ligar o nosso espaço e o nosso tempo ao espaço e ao tempo dos relatos da Escritura, mostrando como eles são paradigmas da nossa própria situação, numa leitura em vários registos e níveis onde as histórias das vocações contadas se unem e confundem com a nossa própria. Mas é sobretudo no terceiro passo – «que respondo eu a este texto, a Deus que me fala nesta Palavra?» – que o autor nos sugere uma aventura inaudita e nos abre a um desafio maior: o de uma resposta pessoal a Deus, em oração feita de silêncios e palavras que só o Espírito pode compreender.
Os textos deste livro têm uma história e encerram um testemunho do autor que, para terminar, gostaria de evocar e deixar como ultima confidência aos leitores e leitoras. No ano de 2010, quando ainda estava como missionário no Togo, em África, o Pe Manuel João Pereira Correia descobriu sofrer de uma doença neurovegetativa que lhe começava a afectar os movimentos dos membros inferiores. De regresso a Portugal foi-lhe diagnosticada a esclerose lateral amiotrófica (ELA), doença, ao momento, incurável que paulatinamente retira à pessoa os movimentos musculares, reduzindo o corpo a uma prisão do espírito. No Verão de 2011, durante alguns dias de férias passado juntos, fiz o convite ao Pe Manuel João para escrever para Além-Mar, libertando o seu espírito das amarras com que a doença iria paulatinamente amarrar o seu corpo à cadeira de rodas. Os textos que o leitor, a leitora, têm aqui entre mãos são fruto desses voos, testemunhos da beleza dessa vocação cheia de surpresas, expressões desse diálogo imprevisível com um Deus-Amor perdido à nossa procura pelos mais impensáveis dos caminhos – desde os da missão intensa em África aos da cadeira de rodas em Roma – sempre com uma oferta de amor gratuito, uma vocação à Vida em plenitude.
Lisboa, 20 de Abril de 2014, Páscoa da Ressurreição de Jesus
Pe Manuel Augusto Lopes Ferreira, mccj
Director da revista Além-Mar