De todos os títulos que há no mundo, o que mais me agrada é o de Pontífice, que quer dizer literalmente construtor de pontes. Um título do qual, não sei porquê, se apoderaram o Papa e os Bispos, mas que na antiguidade cristã se referia a todos os sacerdotes e que, em boa lógica, ficaria muito bem a todas as pessoas que vivem de coração aberto.
É um título que me entusiasma, porque não há tarefa mais formosa do que dedicar-se a estender pontes entre os homens e as coisas. Sobretudo num tempo em que são tão abundantes os construtores de barreiras. Num mundo de tantas valas, que coisa melhor do que dedicar-se a superá-las?
Mas fazer pontes – e sobretudo fazer de ponte – é uma tarefa muito dura. Não se faz sem muito sacrifício. Uma ponte é alguém que é fiel às duas margens, mas que não pertence a nenhuma delas. Quando se pede a um padre que seja ponte entre Deus e os homens, quase se está a obrigá-lo a ser um pouco menos homem, a renunciar provisoriamente à sua condição humana para intentar esse duro ofício de mediador e de transportador de margem a margem.
Se a ponte não pertence por inteiro a nenhuma das margens, tem de estar firmemente assente em ambas elas. Não “é” margem, mas apoia-se nelas, é súbdita de ambas, depende de uma e de outra. Ser ponte é renunciar a toda a liberdade pessoal. Só se serve quando se renunciou.
É lógico que sai muito caro servir de ponte. É um ofício pelo qual se paga muito mais do que se recebe. Uma ponte é fundamentalmente alguém que suporta o peso de todos os que passam por ela. A resistência, a solidez, são as suas virtudes. Numa ponte, conta menos a beleza e a simpatia – embora seja muito bela uma ponte formosa -; conta sobretudo a capacidade de serviço, a utilidade.
Uma ponte vive no desagradecimento: ninguém fica a viver em cima da ponte. Usa-se para passar, e pára-se na outra margem. Quem quiser carinhos escolha outra profissão. O mediador acaba a sua tarefa quando mediou. A sua tarefa posterior é o esquecimento.
Uma ponte é até a primeira coisa a ser bombardeada durante uma guerra. Por isso está o mundo cheio de pontes destruídas. Apesar disso, meus amigos, que grande ofício é ser ponte entre as pessoas, entre as coisas, entre as ideias, entre as gerações! O mundo deixaria de ser habitável no dia em que houvesse nele mais construtores de valas do que de pontes.
Há que estender pontes em primeiro lugar para nós mesmos, para a nossa própria alma, que está tantas vezes incomunicável dentro de nós. Uma ponte de respeito e de aceitação de nós mesmos, uma ponte que impeça esse estar interiormente divididos, que nos converte em neuróticos.
Uma ponte em direcção aos outros. Nunca esquecerei a melhor lição de oratória que me deram quando era estudante. Foi um professor que me disse: “Nunca fales ‘às’ pessoas; fala ‘com’ as pessoas”. Então me dei conta de que todo o orador que não estende uma ponte “de ida e volta” para o seu público nunca conseguirá ser ouvido com atenção. Se, em troca, estabelece um diálogo entre a sua voz e esse fluido eléctrico que sai dos ouvintes e se transmite pelos olhos ao orador, então conseguirá esse milagre de comunicação que tão poucas vezes se realiza.
Também entendi então que não se pode amar sem se converter em ponte; isto é, sem sair um pouco de si mesmo. Gosto da definição que Buscaglia dá de amor: “Os que amam são os que esquecem as suas próprias necessidades”. Está certo: não se ama sem “pôr o pé” na outra pessoa, sem “perder um pouco o pé” na própria margem.
Bendito o ofício de ser ponte entre pessoas de diversas ideias, de diversos critérios, de distintas idades e crenças! Feliz a casa que consegue ter um dos seus membros com essa vocação pontifícia!
E a grande ponte entre a vida e a morte? Thorton Wilder diz, numa das suas comédias, que neste mundo há duas grandes cidades, a da vida e a da morte, e que ambas estão separadas – e unidas – pela ponte do amor. A maioria das pessoas, embora se julguem vivas, moram na cidade da morte; têm a muito curta distância a cidade da vida, mas não se decidem a cruzar a ponte que as separa. Quando se ama começa-se a viver, sem mais, na cidade da vida.
O mal é que a maioria só gosta das pontes laborais!
José Luis Martin Descalzo
Do livro “Razões para a alegria”

Coisa mais bela de se ler e descobri que, sendo ponte, sou presente para o outro.
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