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Audiência na Sala Paulo VI: o papa adverte sobre os perigos da rigidez, do narcisismo e da “cultura do provisório” (por Salvatore Cernuzio, Cidade do Vaticano, 17 de Setembro de 2015, ZENIT)

Cinco mil jovens consagradas e consagrados encheram nesta manhã a Sala Paulo VI para uma audiência com o papa Francisco, no ponto culminante do encontro mundial iniciado ontem com a vigília na Praça de São Pedro. Recebido com estrondoso calor humano e interrompido por aplausos contínuos, Francisco deixou de lado o discurso preparado e falou espontaneamente durante 40 minutos, respondendo a três perguntas de jovens consagrados: Pierre, Sara e Maria Iacinta.

O papa repropôs o convite à festa, à oração e à proximidade do povo, sem poupar alguns puxões de orelha contra o “narcisismo”, uma das “piores atitudes de um religioso”, e a tentação de “olhar para si mesmo”, “espelhar-se em si mesmo”. “Temos que nos precaver contra isso”, porque “vivemos numa cultura narcisista”. Antídoto para essa tendência é a adoração silenciosa, o “oposto do narcisismo” porque “nos esvazia de nós mesmos”. Sem rodeios, o papa indagou: “Nós adoramos o Senhor? Você, religioso, religiosa, tem a capacidade de adorar o Senhor?”. Só sendo “mulheres e homens de adoração” é que podemos estabelecer uma relação sólida e direta com Deus e “aprender a contar a própria vida” diante dele. Após a adoração, festa! Um instinto natural, porque “quando você se lembra das maravilhas que o Senhor fez na sua vida, você festeja, você é sorriso de orelha a orelha, e isto é belo, porque o Senhor é fiel”. Em seguida, o papa adverte contra o risco da “comodidade” e da falta de caridade que leva à “incapacidade de perdoar”.

“Falo sinceramente: um dos pecados que encontramos com frequência na vida comunitária é a incapacidade de perdoar”. Dela partem os cochichos, que, numa comunidade, têm o efeito de um ataque terrorista. “Quem fofoca lança uma bomba na reputação do outro e destrói o outro, que não pode se defender. Assim, o religioso que consagrou a vida a Deus se torna terrorista, porque joga na sua comunidade uma bomba que destrói”.

A harmonia também dispensa uma “conformidade rígida e estruturada, que tira a liberdade”. Santa Teresa de Lisieux criticava fortemente essa rigidez: ela “era uma mulher livre”, disse o papa, deixando claro que “há uma liberdade que vem do Espírito e outra que vem do mundanismo”. É preciso distinguir uma da outra, porque há um “modo profético da liberdade” que se une “ao testemunho e à fidelidade”, e um tipo de liberdade que causa danos. “A mãe que educa na rigidez não deixa os filhos sonharem”, destacou.

Francisco brincou com as religiosas observando: “Gostaria de agradecer o testemunho das mulheres consagradas. Mas nem todas, sabem? Há também algumas um pouco histéricas, mas eu quero agradecer o testemunho, porque vocês tem essa vontade de estar na linha de frente, porque vocês são mães, vocês têm essa ‘maternalidade’ que torna a Igreja próxima das pessoas”.

O papa também falou de “profecia” como “capacidade de sonhar”; portanto, “o oposto da rigidez”. “Os rígidos não podem sonhar”, disse ele. A atitude profética deve se refletir no “testemunho” e no “zelo apostólico que arde no coração”. As pessoas precisam ver tudo isso no consagrado, saboreando ainda a proximidade, da parte deles, “na sua vida e nos seus problemas”. O discurso teve espaço para algumas lembranças pessoais.

Diante da pergunta de uma religiosa sobre a sua vocação, o papa voltou ao dia 21 de setembro de 1953, quando sentiu o “primeiro chamado”: “Eu não sei como foi; eu sei que, por acaso, entrei numa igreja, vi um confessionário e saí diferente: a minha vida mudou”. Naquele dia, “eu senti o chamado a ser sacerdote e religioso. Aquele sacerdote estava lá por acaso, tinha leucemia e morreu um ano depois. Quem me guiou foi um salesiano que tinha me batizado. Ele me levou aos jesuítas: ecumenismo religioso!

O que me fascinou mais do Evangelho? Provavelmente, a sua proximidade de mim, porque o Senhor nunca me deixou sozinho, nem nos momentos mais escuros, nem nos momentos de pecados”. Esta é a chave: descobrir o amor de Deus também na miséria mais profunda. “Devemos dizer que somos todos pecadores”, não apenas “na teoria”, mas “na prática”, insiste o papa. “Eu me lembro dos meus pecados e me envergonho, mas mesmo nesses momentos o Senhor nunca me deixou sozinho, e não só a mim, mas a todos: o Senhor nunca deixa ninguém. Nos piores momentos, me ajudou a lembrança daquele primeiro encontro, porque o Senhor sempre nos encontra definitivamente”.

É essencial, portanto, proteger a “memória da própria vocação”, que é um pouco como a do primeiro amor: “Nos momentos de tentação, de dificuldades na vida consagrada, devemos voltar às fontes, recordar o maravilhamento que sentimos quando o Senhor olhou para nós. O Senhor nos olhou, o Senhor olhou para mim, o Senhor me ama”. Sim, então, à “profecia, à memória, à proximidade, ao coração que arde em zelo apostólico”, termina o Santo Padre. E não à “cultura do descartável”, porque “o Senhor não tem nada a ver com a cultura do provisório: Ele nos ama sempre”.