gabriele-kuby

Relatório publicado por duas fundações progressistas mira contra adversários da ideologia de gênero e traz lista negra de 23 intelectuais considerados “de direita” (Por Elisabetta Pittino, Roma, 07 de Agosto de 2015, ZENIT.org)

Um estudo de viés esquerdista sobre a ideologia de gênero foi publicado em maio deste ano pela Fundação Friedrich-Ebert-Stiftung (FES) e pela Foundation for European Progressive Studies (FEPS), “com o apoio financeiro do Parlamento Europeu” e da sede da FES em Budapeste. O título do estudo é “Gender as Symbolic Glue: The position and role of conservative and far-right parties in the anti-gender mobilizations in Europe” (Gênero como agregador simbólico: a posição e o papel dos partidos conservadores e de extrema-direita na mobilização ‘anti-gender’ na Europa).

A FES é o centro cultural do Partido Social-Democrata alemão, que atualmente governa a Alemanha em coligação com o Partido Democrata Cristão, sob a chanceler Angela Merkel. A FES apoia o casamento entre pessoas do mesmo sexo, os chamados “direitos reprodutivos”, a igualdade de gêneros e a educação sexual liberal.

O dossiê de 148 páginas pretende “analisar criticamente a emergência da mobilização ‘anti-gender’ nos programas da extrema-direita e dos partidos conservadores na Europa e o papel dos respectivos partidos na construção do debate e da mobilização”. Para demonstrar o “perigo anti-gender”, são analisados cinco países: França, Alemanha, Polônia, Eslováquia e Hungria.

Na introdução, os autores procuram afirmar que, na realidade, não existe nenhuma ideologia de gênero, a não ser nas ruminações de grupos fundamentalistas. A ideologia de gênero seria, portanto, um bicho-papão inventado por esses grupos para “distorcer as conquistas de igualdade de gêneros”. Os tais grupos “fundamentalistas” seriam pessoas e associações que se declaram defensoras da família natural e que o dossiê define como “conservadoras” e “de extrema direita”, em tentativa primária de rotulá-las.

É interessante ler a cronologia proposta pelo dossiê antes de expor sua análise propriamente dita, listando “eventos” anti-gender. São calendarizadas posturas anti-gender de algumas conferências episcopais, cartas pastorais, marchas pela família, mobilizações da Manif pour Tous, referendos em apoio à família, ações para limitar a educação sexual de gênero nas escolas etc.

A socióloga e crítica literária alemã Gabriele Kuby, autora do livro “A Revolução Sexual Global”, está entre os personagens listados como “conservadores” e “de extrema direita”, atacados no dossiê. Ela mesma escreveu um comentário sobre o dossiê afirmando que a FES publica relatórios com a intenção de “citar e desonrar” indivíduos, associações, redes e partidos que estão do lado da vida e da família.

De acordo com Kuby, os ativistas de gênero estão alarmados com “a crescente resistência popular às políticas de gênero”; um exemplo dessa resistência seria a Manif pour Tous, na França, e, na Alemanha, a Demo für Alle, movimento iniciado em 2014 contra a sexualização precoce de crianças, bem como os resultados de referendos em favor da família em vários países europeus. “O que é visto como um fenômeno perigoso pela esquerda sexualista é, na verdade, um testemunho do sucesso dos movimentos pró-vida e pró-família na Europa”, diz Gabriele Kuby.

No epílogo do dossiê, Andrea Pető, professor do Departamento de Estudos de Gênero na Universidade Europeia Central, de Budapeste, escreve: “Os cinco capítulos deste volume analisam um novo fenômeno político: dezenas de milhares de pessoas estão se manifestando nas ruas, recolhendo assinaturas para referendos, pedindo mudanças no currículo do ensino superior. Por outro lado, o apelo popular das políticas democráticas está diminuindo: cada vez menos eleitores participam das eleições e os partidos tradicionais sofrem para recrutar membros jovens. Este novo movimento pareceria resolver esses problemas de participação”.

Esta reflexão deveria levar à escuta da vontade popular claramente expressa. No entanto, parece que a democracia só interessa de modo relativo à “ala esquerda” pró-gender. Seu objetivo, afinal, é impor suas próprias ideias sobre gênero.

Os autores, continua Kuby, “parecem preocupados com o fato de ativistas conservadores estarem ganhando predominância no debate público e influenciando partidos políticos e legislação ao cunharem termos como ‘ideologia de gênero’ e ‘genderismo’, além de apresentarem provas científicas contra a ideologia de gênero”. Kuby também destaca a preocupação desses progressistas com a crescente “autoridade parental” e o “envolvimento dos pais” mediante “a promoção dos pais como agentes da restauração da autoridade e dos valores tradicionais na escola, com a subordinação gradual das instituições de ensino à visão cristã conservadora, utilizando o discurso de ódio em direção a estudos de gênero e contando com a liberdade de lutar, o que leva ao sucesso de referendos constitucionais voltados a definir o casamento como a união entre um homem e uma mulher”.

Cada capítulo do dossiê, segundo Gabriele Kuby, sugere uma contraofensiva, partindo das deficiências da “esquerda sexualista”. Os progressistas, explica ela, pretendem afastar-se do “quadro das políticas de igualdade” e reivindicar “os reais valores da esquerda, usando a linguagem da solidariedade e criando uma ‘antilíngua’ que rejeite os temores emotivos da linguagem de direita”. Os autores do dossiê, de fato, recomendam fortemente que os partidos de esquerda “entrem em contato com organizações populares, locais e iniciativas individuais” para reafirmar a “esquerda sexualista”.

O apelo também é voltado a organizar “conferências acadêmicas, artigos e declarações de especialistas” sobre os estudos de gênero. De 15 a 17 outubro, por exemplo, haverá uma conferência na Universidade Europeia Viadrina, em Frankfurt, Alemanha, e em Słubice, Polônia, intitulada “Liberal Rights for Illiberal Purposes? Comparing Discursive Strategies of Conservative Religious and Right-wing Actors in the Public Spheres” (Direitos liberais para fins não-liberais? Comparando as estratégias discursivas dos religiosos conservadores e dos atores de direita nos âmbitos públicos).

Em sua conclusão, Gabriele Kuby considera pertinente salientar que os autores do dossiê, com exceção de Andrea Petö, “são todas mulheres jovens que pertencem à geração nascida em torno dos anos 1980. Algumas se formaram nos últimos 10 anos. Este é precisamente o período em que os estudos de gênero se tornaram assunto acadêmico nas universidades. Os estudos de gênero foram e são uma porta aberta para as mulheres na carreira e um mercado de trabalho em expansão contínua”. O problema desta formação, lembra Kuby, é que o estudo acadêmico é visto como uma ferramenta a serviço da causa do feminismo e dos interesses LGBT.

O dossiê termina com um “índex” em ordem alfabética de 23 pessoas consideradas “inimigas” pela “esquerda sexualista”. Kuby se pergunta: por que as jovens autoras estão preocupadas com a oposição de 23 pessoas e de alguns pequenos grupos, com finanças limitadas, que se opõem à teoria de gênero, enquanto os poderes constituídos e muitas empresas grandes e ricas lhe dão apoio?”.