Os ensinamentos de Jesus sobre a oração
Enzo Bianchi
Jesus orava. Ele pertencia a um povo que sabia orar, o povo que criou o Livro dos Salmos e encontrou na prática de oração de Israel a norma que enformou a sua própria fé. A sua oração litúrgica era marcada por modos e formas da oração judaica do tempo, como era vivida na liturgia sinagogal e nas festas no Templo de Jerusalém: Salmos, recitação do Shema’Jisra’el [«Escuta, Israel! (O Senhor é nosso Deus; o Senhor é único! Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças)», Deuteronómio 6, 4-5], Tefillah (oração principal recitada em cada ofício litúrgico), leitura da Torah [Pentateuco, cinco primeiros livros da Bíblia] e dos Profetas, etc.
É desta desta fonte que Jesus extraiu inspiração para a sua capacidade criativa. O Pai-nosso, por exemplo, apresenta afinidades evidentes com a Tefilllah e o Qaddish (antiga doxologia [hino de louvor], frequentemente usada no ofício litúrgico sinagogal; em particular, as palavras «seja santificado o teu nome, venha o teu Reino» (Mateus 6, 9-10; Lucas 11, 2) parecem adequar-se a uma normativa assim expressa no Talmude: «Uma bênção em que não vem mencionado o Nome divino não é uma bênção, e uma bênção que não contém a menção da realieza de Deus não é uma bênção» (Berakhot 40b).
Por outro lado, adquire grande relevo a oração pessoal de Jesus. O seu ministério público é, com efeito, intervalado por frequentes “retiros”, sobretudo durante a noite ou de manhã cedo, para orar: em lugares desertos, afastado, sozinho, sobre o monte (cf. Mateus 14, 23; Marcos 1, 35; 6, 46; Lucas 5, 16; 9, 18.28), e em particular, «como de costume, para o Monte das Oliveiras» (Lucas 22, 39).
Lucas é o evangelista que insiste maioritariamente na oração de Jesus, ligando-a aos momentos salientes da sua vida e da sua missão: Jesus ora no momento do Batismo recebido de João (cf. Lucas 3, 21-22); ora antes de escolher os Doze (cf. Lucas 6, 12-13); ora na transfiguração (para Lucas, a transfiguração é um acontecimento estreitamente ligado à oração: cf. 9, 28-29); a oração é o espaço predisposto para a confissão de fé de Pedro (cf. Lucas 9, 18); da sua oração nasce o ensinamento sobre a própria oração dirigida aos discípulos (cf. Lucas 11, 1-4).
Antes da Paixão, Ele declara ter rezado por Pedro, para que a sua fé não desfaleça (cf. Lucas 22, 32); no Getsémani a sua oração é de uma especial intensidade (cf. Lucas 22, 39-46); por fim, Jesus reza sobre a cruz, invocando do Pai o perdão para os seus executores (cf. Lucas 23,34), e depois entregando confiadamente a sua alma nas suas mãos (cf. Lucas 23, 46; cf. Salmo 31, 6).
A oração de Jesus, pessoalíssima, dirige-se a Deus chamando-o «Papá», com o matiz de particular intimidade e familiaridade presente no termo aramaico Abba: esta é porta de acesso ao mistério da sua personalidade, toda sob o sinal da filiação em relação ao amado Pai. E a Jesus, que ora com insistência e perseverança, o Pai responde entrando com ele em diálogo: «Tu és meu Filho, eu hoje te gerei» (Salmo 2, 7; Carta aos Hebreus 1, 5); cf. Marcos 1, 11), palavras que encontram no hoje da ressurreição o seu cumprimento (cf. Atos 13, 32-33).
É a partir da sua experiência de oração que Jesus ensinou os seus discípulos a rezar, e fê-lo através de uma intervenção autorizada do ensinamento relativo à oração contido na Escritura e na tradição por Ele recebida. Por isso, é essencial à oração autêntica acolher os conselhos para a oração dados por Jesus aos discípulos e por eles escutados, conservados, entregues à comunidade cristã, e assim vividos pelos crentes até serem depositados como Escritura dos Evangelhos. Estas indicações continuam a constituir hoje as linhas espirituais e pastorais essenciais para a oração cristã.
Antes de examinarmos estas orientações mais de perto, recordamos que Jesus resumiu o seu ensinamento na oração do Pai-nosso, justamente definida como «compêndio de todo o Evangelho» (Tertuliano, A oração, I, 6). Na verdade, o Pai-nosso – entretecido nas suas versões de Mateus 6, 9-13 e Lucas 11, 2-4 – mais do que uma fórmula rígida, constitui uma síntese das indicações de Jesus espalhadas como sementes nos quatro Evangelhos; é um vestígio, uma matriz, um cânone capaz de recapitular o essencial da oração cristã.
1. Antes de rezar, reconcilia-te com o teu irmão (cf. Mateus 5, 23-24; Marcos 11, 25)
No preciso momento em que o cristão se dirige a Deus chamando-o Pai, deve estar consciente de que ele não profere sozinho esta invocação, mas exprime-a juntamente com os irmãos: diz «Pai», mas logo acrescenta «nosso». Ser guardião dos irmãos na fé e de todos os seres humanos é condição essencial para aceder à comunhão trinitária.
A reconciliação com o irmão e o amor que se estende até ao inimigo, até à vontade de fazer o bem a quem nos faz o mal (cf. Lucas 6, 27): eis a atitude que deve acompanhar o início de cada diálogo com o Senhor. Se se esquece este preliminar, depaupera-se gravemente a oração, até a malograr. O propósito da oração, que é a comunhão, é com efeito contradito pela situação de divisão e de ódio vivida pelo orante: como se pode pretender dialogar com Deus, que nos amou enquanto éramos inimigos, e de falar com Ele que não se vê, se não se sabe perdoar ou não se quer comunicar com o irmão que se vê (cf. 1 João 4, 20)?
Não é por acaso que o único pedido do Pai-nosso que Jesus comenta é: «Perdoai-nos os nossos pecados, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido» (Mateus 6,12), e fá-lo com palavras inequívocas: «Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará a vós. Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai vos não perdoará as vossas» (Mateus 6, 14-15).
2. Quando rezares, retira-te para o teu quarto (cf. Mateus 6, 6)
O crente vive a sua fé na comunidade, exprime-a na liturgia, oração de toda a Igreja, e deve orar juntamente com os outros irmãos e irmãs, fazendo da oração comum a melhor escola de oração pessoal. Não deve empreender um caminho novo e inédito, mas recebe da Igreja o cânone [regra] da oração: os Salmos, a leitura da Escritura, a intercessão, o Pai-nosso e o cume da própria oração, ou seja, a Eucaristia. A liturgia é, portanto, o ambiente vital em que se cresce na fé e na comunhão com o Senhor.
Todavia, a oração comum não é suficiente: ela precisa da interiorização, da gratuidade, quando os outros não estão fisicamente perto. Rezar na solidão, afastado, não é uma forma de individualismo, mas a possibilidade de encontrar Deus como filhos no segredo do coração, aceitando sobre si aquele olhar penetrante de Deus que conhece, vê, fala a cada pessoa de modo irrepetível e único.
O convite de Jesus a rezar «no segredo» não é apenas um antídoto à hipocrisia de quem reza para ser visto e admirado pelos outros (cf. Mateus 6, 5), mas indica um modo de diálogo amoroso e íntimo com Deus, face a face com o Invisível… Sim, a oração pessoal é a ocasião de se dirigir a Deus com liberdade, de acolher na passagem do tempo a sua Presença, se percecionar a sua aproximação, o seu estar à porta e bater (cf. Apocalipse 3, 20), o seu visitar-nos com solicitude. Um orante que se alimenta unicamente da oração comum arrisca-se a fazer dela apenas experiência de pertença ao grupo, se não uma espécie de exibição diante dos outros…
Hoje é precisamente a oração pessoal a ser maioritariamente negligenciada, e esta situação arrisca-se, a longo prazo, a esvaziar também a verdade da própria oração litúrgica. Se na pastoral muitos esforços são dedicados à iniciação litúrgica, infelizmente não são acompanhados por uma adequada transmissão da oração pessoal, que deveria ser ensinada desde a infância. Quem, efetivamente, não recebe desde pequeno uma iniciação à oração pessoal por parte dos pais ou dos educadores, dificilmente poderá alimentar-se dela na idade madura, de modo a fazer crescer a fé no Deus vivo, presente na existência quotidiana.
Surgem como um aviso ainda atual as palavras de Martin Buber: «Se crer em Deus significa poder falar dele na terceira pessoa, não creio em Deus. Se crer nele significa poder-lhe falar, então creio em Deus». Hoje os cristãos sabem falar de Deus; mas saberão também, como nas gerações cristãs passadas, falar com Deus?
3. Tudo o que pedirdes em meu Nome, Eu o farei (cf. João 14, 13)
Orar é também pedir a Deus aquilo de que temos necessidade, mas pedi-lo no Nome de Jesus. Por um lado, isto significa unir a nossa oração à de Jesus, que «intercede por nós à direita de Deus» (Romanos 8, 34; cf. Hebreus 7, 25); mas, sobretudo, harmonizar a nossa oração com a sua, isto é, ter em nós os mesmos sentimentos e os mesmos pensamentos que estiveram nele.
A meta da oração, com efeito, é conseguir que façamos a vontade de Deus, não que Deus faça a nossa: a nossa oração não transforma o desígnio de amor de Deus sobre nós, mas são os dons que Deus concede na oração a transformar-nos e a colocar-nos em sintonia com a sua vontade.
Eis porque, se se ora no Nome de Jesus – desconcertante mas verdadeiro – já se é atendido (cf. João 15, 16; 16, 23-24), tendo colocado acima de tudo a vontade de Deus que se cumpre em nós e em todas as criaturas do Céu e da Terra. Este primado foi a sede de Jesus ao longo de toda a sua vida, foi o seu alimento quotidiano (cf. João 4, 34)… Tudo se torna possível àquele que tem fé (cf. Marcos 9, 23; 11, 24; 1 João 5, 14-15).
Quem ao rezar, pelo contrário, se mostra vacilante entre confiança e ceticismo, não reconhece que Deus, através de Jesus Cristo, possui o poder de cumprir infinitamente mais do que o ser humano possa pedir ou pensar (cf. Efésios 3, 20).
4. Orar com humildade, como o publicano (cf. Lucas 18, 9-14)
O orgulho, o desprezo dos outros e a sobrevalorização de si próprio levantam obstáculos à oração. Pelo contrário, afirmar com convicção, como o publicano da parábola: «Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador» (Lucas 18,13), que é a primeira palavra para se dirigir a Deus.
Nenhuma autoexaltação é possível diante de Deus três vezes Santo, mas apenas a consciência do pecado. Quando ela está presente, eis que se cumpre o grande milagre: «Aquele que conhece o próprio pecado é maior do que quem ressuscita os mortos» (Isaac de Nínive).
No Evangelho segundo Lucas, o modelo desta disposição interior é o cobrador de impostos, o pecador justificado porque se apresentou a Deus naquela humilhação que, só ela, pode anunciar a humildade. Significativamente, na Regra de S. Bento, ao monge é proposto como modelo de humildade o publicano do Evangelho (7, 65), não o fariseu, tão cego na própria arrogância humana e espiritual.
De resto, Pedro surge como o primeiro discípulo perdoado, logo a partir do momento da sua vocação, quando, ao discernir Jesus como Senhor, diz: «Afasta-te de mim, que sou um pecador» (Lucas 5, 8).
A relação entre Deus e o ser humano na oração deve ser situada na íntima verdade dos protagonistas do encontro: o Criador e a criatura, o Pai pródigo de amor e o filho perdoado e reencontrado, o Médico e o doente, o Santo e o pecador.
5. Orar juntos com os irmãos (cf. Mateus 18, 19-20)
Se é verdade que mesmo a oração solitária deve ser feita em comunhão com toda a humanidade, tal comunhão deve ser a nossa preocupação principal no momento da oração comum.
Cristo, com efeito, assegurou a sua presença nessas situações: «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mateus 18, 20). O acento específico da exortação de Jesus recai sobre a palavra symphomeîn (v. 19), fazer convergir as vozes, o que tem como exigência fazer convergir os corações, ou seja, cumprir um caminho em direção a uma comunhão profunda de sentimentos, para se apresentarem em conjunto diante de Deus.
A oração “sinfónica” feita na Terra encontra atendimento favorável no Céu (cf. Mateus 18, 19). É significativo o que se afirma da primeira comunidade cristã, nascida do Pentecostes: vivia da união fraterna, da oração em conjunto (cf. Atos 2, 42), tendendo a ser «um só coração e uma só alma» (Atos 4, 34).
Na oração, portanto, não se trata apenas de unir as vozes em petições e ações de graças, mas de fazê-lo unindo os corações de todos. Arte difícil, mas não se pode rezar juntos sem este caminho trabalhoso de reconhecimento do outro, da sua alteridade, da sua diferença, dos seus dons e do seu serviço na Igreja.
Assim se confere unanimidade à oração: não através do consenso, mas mediante a conversão dos próprios pensamentos nos de Cristo Jesus. Infelizmente, muitas vezes não se tem em conta bastante a importância desta oração concorde, que é a primeira e elementar instância para viver a comunhão na comunidade e na Igreja.
6. Orar com confiança (cf. Mateus 6, 7-8)
É um conselho importante que precede o ensinamento do Pai-nosso; mas também noutro passo Jesus afirma: «Tudo quanto pedirdes com fé, na oração, haveis de recebê-lo» (Mateus 21, 22). A oração cristã não é como a dos pagãos, que cansam os deuses ao multiplicarem as palavras e fiando-se nelas; a nossa confiança é colocada naquele que nos fala e nos chama à oração: Deus, o Pai.
A oração filial não se mede, por isso, pelas repetições ou pelo comprimento (cf. Marcos 12, 40; Lucas 20, 47), mas sobre a fé que a anima. Com efeito, o nosso Pai sabe do que precisamos mesmo ainda que lho peçamos (cf. Mateus 6, 8.32), e nenhum orante deve temer que Ele dê pedras em lugar de pão: nós, nós sim, somos maus, mas Deus é bom (cf. Lucas 11, 9-13; 18, 19).
Nenhum medo para quem sabe que é filho de Deus, para quem está certo de colocar a própria oração nas mãos daquele que é nosso advogado junto do Pai (cf. 1 João 2, 1), para quem recebeu a unção do Espírito (cf. 1 João 2, 20.27). Ainda que a nossa consciência nos culpe, «Deus é maior que o nosso coração» e permite-nos estar diante dele com sinceridade; sem ela, não existe verdadeira oração cristã (cf. 1 João 3, 18-22; 5, 14-15), porque ela está na base da confiança que anima o crente e a comunidade cristã no seu conjunto.
7. Rezar sempre, sem cessar (cf. Lucas 18, 1-8; 21, 34-36)
A oração requer perseverança, continuidade. Várias vezes Jesus – seguido por Paulo (cf. Romanos 12, 12; Efésios 6, 18; 1 Tessalonicenses 5, 17) – pediu a oração sem interrupção. Ora, perguntemo-nos com honestidade: como é possível viver, trabalhar, descansar, dormir, encontrar os outros, e ao mesmo tempo orar continuamente? É preciso entender as palavras.
Orar sempre não significa empenhar-se em repetir continuamente fórmulas ou invocações, mas viver uma existência marcada por aquilo que os Padres da Igreja chamavam memoria Dei, a recordação constante de Deus: «Oração incessante quer dizer ter a mente dirigida a Deus com grande fervor e amor, permanecer sempre suspenso pela esperança que temos nele, confiando nele em qualquer coisa que façamos e em qualquer coisa que nos aconteça» (Máximo o Confessor).
Por outras palavras, trata-se de reconhecer que o Deus vivo opera constantemente na nossa existência e na história; trata-se de lutar para estar sempre consciente da presença de Deus em nós, ou seja, da comunhão que Ele nos dá, para que a acolhamos e a partilhemos com todos os nossos irmãos e irmãs.
Se existe esta consciência da presença de Deus, então o Espírito Santo, que reza continuamente em nós, pode tomar-nos com a sua oração a ponto de escavar a pouco e pouco em nós uma fonte de água viva (cf. João 7, 38).
Assim chegamos a uma oração contínua, que não nasce de nós: é um fluxo subterrâneo, uma constante recordação de Deus que de vez em quando emerge e se tornae oração explícita, mas que nunca nos abandona. Desta maneira podemos mesmo fazer-nos vozes de cada criatura e de toda a criação, porque o universo é um oceano de orações que se elevam a Deus: orações inarticuladas, gemidos dirigidos ao Criador na expetativa da manifestação dos filhos de Deus (cf. Romanos 8, 19).
Enzo Bianchi
In Perché pregare, come pregare, ed. San Paolo Trad.: SNP