Papa dedica mensagem ao campeonato do mundo de futebol:
Que a Copa seja a “festa da solidariedade entre os povos”
O papa Francisco dirigiu uma mensagem em vídeo aos atletas e espetadores envolvidos, ao vivo ou através dos médias, no campeonato mundial de futebol, que começa hoje no Brasil. Falando em português, Francisco deseja que a “Copa” se torne a «festa da solidariedade entre os povos», e que o futebol seja uma «ocasião de diálogo, compreensão e enriquecimento humano recíproco».
«O desporto não é somente uma forma de entretenimento», mas «sobretudo um instrumento para comunicar valores que promovem o bem da pessoa humana e ajudam à construção de uma sociedade mais pacífica e fraterna», assinala. A «lealdade», «perseverança», «amizade» e a «partilha» são alguns dos «valores e atitudes» associados ao futebol que são importantes «não só no campo, mas em todos os aspetos da existência, concretamente na construção da paz».
Francisco realça também a importância do treino e do «sacrifício» que ele exige com vista à formação do caráter, do fair play, enquanto superação do «individualismo», «racismo», «intolerância» e «instrumentalização da pessoa humana». Outra «lição» proporcionada pelo futebol é a «honra entre os competidores», pela qual se respeita tanto o «companheiro» como o «adversário»: «Ninguém vence sozinho, nem no campo, nem na vida».
Ainda que só uma seleção nacional possa vencer o campeonato, «todos serão vencedores» se assumirem as lições do futebol, vinca o papa, que termina a mensagem (ver final do artigo) com a promessa de orações pelo evento.
De seguida, apresentamos algumas das intervenções dirigidas a jogadores, treinadores e dirigentes do futebol que os papas S. João Paulo II, Bento XVI e Francisco proferiram ao longo dos seus pontificados.
S. João Paulo II
Discurso à equipa de futebol do Bolonha 9.12.1978
Estou-vos grato por esta vossa presença, que desperta no meu espírito recordações indeléveis dos anos passados junto da juventude desportiva, com quem vivi momentos intensos de júbilo humano e espiritual.
Vós sabeis como os jovens são objeto da predileção da Igreja e do Papa, a quem apraz encontrar-se com eles para dar e receber entusiasmo e força. Mas vós, jovens desportistas, ocupais um lugar particular, porque ofereceis, de modo eminente, um espetáculo de força, de lealdade e de autodomínio e ainda porque tendes, de modo pronunciado, o sentido da honra, da amizade e da solidariedade fraterna: virtudes estas que a Igreja promove e exalta.
Continuai, queridos jovens, a dar o melhor de vós mesmos nas competições desportivas, recordando-vos sempre que a luta desportiva, embora tão nobre em si, não deve ser fim a si mesma, mas subordinada às exigências, muito mais nobres, do espírito. Por conseguinte, ao repetir-vos “sede bons desportistas”, digo-vos também “sede bons cidadãos na vida familiar e social, e, mais ainda, sede bons cristãos”, que sabem dar um sentido superior a vida, de modo que ponham em prática o que o Apóstolo Paulo dizia dos atletas aos cristãos do seu tempo: Não sabeis vós que os que correm no estádio correm todos, mas só uni ganha o prémio? Correi, pois, desse modo para o conseguirdes alcançar. Aquele que se prepara para a luta abstém-se de tudo, a fim de alcançar uma coisa corruptível; nós, porém, para alcançar uma coroa incorruptível (1 Cor. 9, 24-25).
Discurso à equipa nacional italiana de futebol, campeã do mundo 25.10.1982
A vossa presença dá-me ainda a oportunidade de manifestar-vos o apreço pelos aspetos sociais e morais que as vossas competições desportivas promoveram, favorecendo relações interpessoais e encontros internacionais destinados a desenvolver conhecimentos mútuos, vínculos de amizade e coesão pacífica entre os povos de diversas origens, língua, cultura e religião. De facto, como bem diz a este respeito o Concilio Vaticano II: os exercícios físicos e as manifestações desportivas ajudam a manter o equilíbrio psíquico, tanto do indivíduo como da comunidade; a estabelecer relações fraternas entre os homens de todas as condições, nacionalidades e raças” (Gaudium et spes, 61).
Este vosso empenho tão nobre e dignificante, não deve porém limitar-se ao sucesso desportivo, mas deve também comportar o esforço de incluir as vossas virtudes viris e a vossa classe de Campeões na escala dos valores superiores da vossa vida familiar, civil e social. As disputas desportivas individuais podem e devem ser como os degraus para o treinamento ao exercício das virtudes humanas e cristãs da solidariedade, da lealdade, da seriedade e do respeito às outras pessoas, vistas como um concorrente, não como um adversário ou um rival.
Ao despedir-me de vós, caríssimos jovens, quero confiar à vossa atenção uma significativa exortação de São Paulo aos primeiros cristãos de Corinto, na Grécia, pátria do desporto: “Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo” (1 Cor 6, 20). Sede sempre sabedores e dignos das qualidades individuais, das quais o Senhor dotou as vossas pessoas, e não as desperdiceis inutilmente com uma conceção errada do sucesso, mas utilizai-as de modo sábio para a vossa plena maturação de homens e de crentes.
23.4.1995
Num recente encontro com os jovens de Roma ofereceram-me dois cachecóis com as cores das equipas de futebol da Roma e da Lazio. Aceitei com agrado estes presentes, especialmente pela mensagem de fraternidade e de paz que eles manifestam.
Exprimo o desejo de que a partida de hoje entre as duas equipas seja ocasião de divertimento saudável e constitua um confronto leal e pacífico. Espero também que todos os interessados a vários títulos no mundo do futebol e do desporto em geral – organizadores, atletas, jornalistas, adeptos – trabalhem conjuntamente para que as manifestações desportivas sejam sempre portadoras dos autênticos valores de humanidade e fraternidade.
Discurso à Associação Desportiva Roma (AS Roma) 30.11.2000
[O futebol] é uma atividade apreciada por todos, desde crianças a adultos, o que cria, devido à sua capacidade de agregar, um entretenimento popular numa atmosfera geral de celebração. Por sua natureza popular, o futebol é capaz de interpretar muitas expectativas e proporcionar lazer para os adeptos para as famílias.
Às vezes, porém, torna-se uma ocasião para confrontos com episódios preocupantes de intolerância e agressividade, levando a surtos graves de violência. Por isso é importante, lembrar o devido respeito pela ética do desporto! Quão urgente é a responsabilidade dos dirigentes, atletas, jornalistas e adeptos! Penso sobretudo nos atletas que jogam diante de um público, especialmente de jovens, que olham para eles como modelos a imitar. Com o seu exemplo podem transmitir uma mensagem de valor humano e espiritual elevado. Comportamentos incorretos, por seu lado, causam efeitos adversos que, infelizmente, são amplificados com ressonância negativa imprevisível. É preciso estarmos sempre conscientes destes efeitos.
Amigos da Roma! O vosso Jubileu vos ajude a compreender, através da metáfora do desporto, as exigências da vida do espírito. A existência, lembra São Paulo, é como uma corrida ao estádio, onde todos participam. Mas, enquanto na corrida apenas há um vencedor, na competição da vida todos podem e devem ser vitorioso. E para isso temos de ser moderados em todas as coisas, manter os nossos olhos na meta, valorizar o sacrifício e treinar continuamente para evitar o mal e fazer o bem. Assim, com a ajuda de Deus, chega-se vitorioso à meta celeste.
Maria, na capela do seu vosso dentro desportivo invocada como Salus Populi Romani , vos ajude neste jogo que dura a vida inteira; proteja-vos, às vossas famílias e todo o povo dos romano.
Bento XVI
Mensagem ao presidente da Conferência Episcopal Polaca, a propósito do início do Campeonato Europeu de Futebol de 2012 na Polónia e Ucrânia
O desporto de equipa, como o futebol, é uma escola importante para educar o sentido do respeito pelo outro, incluindo o adversário desportivo, o sacrifício pessoal pelo bem de todo o grupo, a valorização das qualidades de cada elemento que compõe a equipa; numa palavra, a superar a lógica do individualismo e do egoísmo que muitas vezes caracteriza as relações humanas, para deixar espaço à lógica de fraternidade e do amor, a única que pode permitir – a todos os níveis – promover o verdadeiro bem comum.
Francisco
Discurso às seleções nacionais de futebol da Itália e Argentina 13.8.2013
Queridos jogadores, vós sois muito populares: as pessoas seguem-vos muito, não só quando estais em campo, mas também fora. Esta é uma responsabilidade social! Explico-me: no jogo, quando estais em campo, encontram-se a beleza, a gratuidade e a camaradagem. Se faltar isto, o jogo perderá a sua força, mesmo que a selecção vença. Não há lugar para o individualismo, mas tudo é coordenação para o grupo. Talvez estes três aspetos, beleza, gratuidade e camaradagem estejam resumidos num termo desportivo que nunca se deve abandonar: «diletante», amador.
É verdade que a organização nacional e internacional profissionaliza o desporto, e deve ser assim, mas esta dimensão profissional jamais deve deixar de lado a vocação inicial de um desportista ou de uma selecção: ser amador, «diletante». Um desportista, mesmo sendo profissional, quando cultiva esta dimensão de «diletante», beneficia a sociedade, constrói o bem comum a partir dos valores da gratuidade, da camaradagem e da beleza.
E isto leva-vos a pensar que, antes de ser campeões, sois homens, pessoas humanas, com as vossas qualidades e os vossos defeitos, com o vosso coração e as vossas ideias, as vossas aspirações e os vossos problemas. E então, embora sejais personagens, permanecei sempre homens, no desporto e na vida. Homens, portadores de humanidade.
A vós, dirigentes, gostaria de dar um encorajamento para o vosso trabalho. O desporto é importante, mas deve ser desporto autêntico! O futebol, como determinadas disciplinas, tornou-se um grande business! Trabalhai a fim de que não perca a sua índole desportiva. Também vós promoveis esta atitude de «diletantes» que, de resto, elimina definitivamente o perigo da discriminação. Quando as selecções caminham por esta estrada, o estádio enriquece-se humanamente, desaparece a violência voltam-se a ver famílias nas arquibancadas. (…)
Peço-vos que vivais o desporto como uma dádiva de Deus, como uma oportunidade para fazer frutificar os vossos talentos, mas também uma responsabilidade.
Queridos jogadores, gostaria de vos recordar especialmente que com o vosso comportamento, tanto no campo como fora, na vida, sois um ponto de referência. No domingo passado falei ao telefone com um grupo de jovens que me queriam saudar; falei cerca de meia hora com eles e, naturalmente, o seu interesse principal era o jogo de amanhã. Enumeravam vários de vós, dizendo: «Não, gosto deste por este motivo, daquele por esta razão, deste por isso». Vós sois um exemplo, um ponto de referência.
O bem que vós realizais é impressionante. Com a vossa conduta, com o vosso jogo, com os vossos valores, realizais o bem, as pessoas olham para vós; então, aproveiteis para semear o bem. Embora não vos deis conta, para muitas pessoas que olham para vós com admiração sois um modelo, no bem e no mal. Sede conscientes disto e dai exemplos de lealdade, respeito e altruísmo. Vós também sois artífices do entendimento e da paz social, artífices do entendimento e da paz social, da qual temos grande necessidade. Vós sois um ponto de referência para muitos jovens e modelo de valores encarnados na vida. Tenho confiança em todo o bem que vós podereis fazer entre os jovens.
Estimados amigos, rezo por vós a fim de que possais fazer progredir esta vocação tão nobre do desporto.
Discurso às equipas italianas da Fiorentina e Nápoles 2.5.2014
O futebol é um facto social e exige uma responsabilidade social, por parte dos futebolistas, no campo e fora do campo, e por parte dos dirigentes nacionais e locais.
Quando eu era jovem fui várias vezes ao estádio, e tenho boas recordações. Fui sozinho e com a minha família. Momentos alegres, ao domingo, juntamente com os meus familiares. Gostaria de desejar que o futebol e qualquer outro desporto muito popular recupere a dimensão da festa.
Hoje também o futebol se move numa grande rede de negócios, para a publicidade, as televisões, etc. Mas o factor económico não deve prevalecer sobre o desportivo, porque arrisca de estragar tudo, quer a nível internacional quer nacional e local. E por conseguinte, é preciso reagir positivamente do alto, restituindo dignidade desportiva aos acontecimentos. E nisto vós, futebolistas, tendes uma grande responsabilidade. Estais no centro da atenção, e muitos dos vossos admiradores são jovens e muito jovens; tendo isto em consideração, pensai que o vosso modo de vos comportar tem uma ressonância, em positivo e em negativo. Sede sempre verdadeiros desportistas!
O desporto contém em si um forte valor educativo, para o crescimento da pessoa: crescimento pessoal, na harmonia de corpo e espírito, e crescimento social, na solidariedade, na lealdade, no respeito. Que o futebol possa desenvolver sempre esta potencialidade!