1° Domingo da Quaresma (ciclo A)
Mateus 4,1-11

Referências bíblicas
- 1ª leitura: A criação e o pecado dos nossos primeiros pais (Gênesis 2,7-9;3,1-7)
- Salmo: Sl.50(51) – R/ Piedade, ó Senhor, tende piedade, pois pecamos contra vós.
- 2ª leitura: Ali onde o pecado se multiplicou, a graça se fez superabundante (Romanos 5,12-19 ou 12.17-19)
- Evangelho : Jesus jejua quarenta dias e é tentado pelo demônio (Mateus 4,1-11)
A construção de Si
José Tolentino Mendonça
Queridos irmãs e irmãos,
No início do tempo da Quaresma temos como Evangelho as tentações de Jesus. Sabemos que uma vida no tempo, uma vida em liberdade, é uma vida tentada. Todos temos essa experiência de vozes contraditórias que nos habitam. Ou vamos para aqui, ou vamos para ali, sentimo-nos chamados para direções diferentes, sentimos em nós inclinações. Nós somos um emaranhado de palavras, de tendências, de possibilidades, de desejos. Precisamos esclarecer isso que somos, esse emaranhado de linguagem e de vida por organizar que cada um de nós é.
O modelo de Jesus é também um modelo de organização de si, de organização daquilo que somos. No meio de tudo aquilo que eu sinto, puxado para um lado e para o outro, por onde é que eu quero caminhar? Qual há de ser a minha estrada? Qual há de ser o meu ethos, o meu caminho ético que vou construindo no meu quotidiano?
Jesus não foi apenas tentado uma vez nem recebeu apenas três tentações. Mas este texto é também um texto simbólico e é um resumo de uma vida que, como a nossa, é uma vida exposta à dificuldade, é uma vida exposta à própria contradição. Mas nestas três tentações nós temos, de certa forma, a síntese de tudo aquilo que nos tenta, de tudo aquilo que para nós nos faz cair, nos faz tombar.
E há a figura de um Tentador que a tradição bíblica chama o demónio, o daemon, essa voz interna. As principais tentações não são aquelas que chegam de fora, são aquelas que se insinuam dentro de nós. E chama também diabolos, que é no fundo aquele que divide. Porque nós fazemos esta experiência interna de uma divisão, estamos divididos entre o bem e o mal, entre o erro e a verdade, entre o amor e a violência. Nós sentimo-nos divididos, sentimos que há uma certa diabolização. A figura do tentador serve para, de uma forma dramática, dar-nos a ver alguma coisa que acontece no silêncio da nossa vida. Porque normalmente nós não vemos um diabo vir ter connosco a fazer-nos propostas, não é preciso isso porque dentro de nós está isso tudo. Este teatro externo que nós vemos neste texto de S. Mateus é o nosso teatro internalizado, é o drama que nós vivemos ao nível da nossa consciência.
O demónio faz três propostas a Jesus. A primeira proposta é que Ele transforme as pedras em pão, que Ele coma as próprias pedras transformadas em alimento para Ele. E Jesus recusa. Diz: “Nem só de pão vive o homem.” Isto é muito importante e corresponde a uma tentação da nossa vida, que é tudo existir em função de nós e nos tornarmos devoristas, vivendo numa espécie de rapacidade em relação à realidade. Seja a realidade dos outros, dos nossos irmãos, seja a realidade do mundo, tudo serve para nos enchermos, tudo serve para nos alimentarmos, tudo existe em função de nós.
Há um comentário muito belo de Simone Weil que diz que a história seria muito diferente se Eva, quando olhou para a maçã, a tivesse admirado e não a tivesse comido, não a tivesse arrancado e não a tivesse comido. De facto, é uma atitude diferente: podermos olhar, reconhecer, admirar mas não estender a mão para possuir, para fazer nossa, para marcarmos o nosso território. Quer dizer, há um mundo para lá de nós, há um mundo que tem uma existência que nos ultrapassa, há um mundo que eu tenho de reconhecer como outro. E não numa ilusão enlouquecida da mesmidade, ou do alargamento do eu – tudo é eu, tudo é eu. Não, o eu é uma pequena parte da realidade, e a realidade é outro e eu tenho de respeitar a distância, tenho de respeitar a fronteira que vai de mim ao outro. E o olhar que eu dedico ao outro não é em função de mim, se é bom ou não para eu comer, para eu usar. Não, há uma bondade que não depende de mim, há uma bondade que eu descubro no outro, nas outras coisas do mundo que não depende do bem ou da utilidade ou do uso que eu possa fazer. Nesse sentido, há uma pobreza do nosso eu que é necessário adquirir, que é necessário fortalecer, colocar-se limites, dizer: não posso ir além disto, tenho de parar. As coisas são belas, não têm de ser belas na minha jarra, eu posso ver uma flor belíssima que continuará belíssima se eu não a colher. Mas, se eu olhar uma flor bela, e quiser meter na jarra de minha casa todas as flores belas, eu torno o mundo mais pobre, torno o mundo mais pobre. A questão é essa, quando nós dizemos às pedras para se transformarem em pães nós tornamos o mundo mais pobre e entramos num delírio de nós próprios a achar que tudo existe em função de nós. Dizer “Calma”, colocar-se limites, dizer “Eu sou apenas uma parte, eu não sou o todo”, isso é o ensinamento da primeira tentação.
A segunda tentação é quando o demónio leva Jesus ao pináculo do templo e diz: “Olha, deita-Te daqui a abaixo que Deus vai mandar os seus anjos para te aguentarem.” E Jesus diz: “Não, não tentarás o Senhor teu Deus.” Às vezes nós vivemos com um sentimento exacerbado de omnipotência. Queremos ser Deus, queremos correr todos os riscos, queremos atirar-nos de cabeça para as coisas porque alguma coisa há de acontecer, porque algum milagre, alguma solução há de se encontrar. Temos que dizer: calma, não colocarás Deus à prova, não podes transcender a tua medida. Muitas vezes nós vivemos como se não tivéssemos o corpo que temos, a vida que temos, a realidade que temos, as imperfeições que temos, os limites, vivemos num delírio de superação que não corresponde à nossa realidade.
“Não tentarás o Senhor teu Deus.” Isto é, não adotarás um providencialismo. E o providencialismo não é apenas Deus há de me socorrer, não é apenas de caráter divino, nós podemos usar de um providencialismo secularizado. Quer dizer, alguém há de me aguentar, a minha família, os meus amigos ou o Estado, ou isto ou aquilo, alguém há de pagar a fatura. Não, olha para ti, olha para a tua responsabilidade, sente a responsabilidade pela tua vida, por aquilo que tu és, organiza-te a ti mesmo. Isso é também um trabalho interior de conversão, de correção, de transformação que nós precisamos.
A terceira tentação é quando o demónio oferece a Jesus todos os reinos da terra desde que Ele o adore. Nós sabemos como quase sempre, para não dizer sempre, o poder e um certo tipo de poder implica vender a alma. Implica fazer de conta que certos valores não são valores, implica passar por cima de outras pessoas, implica usar métodos muitas vezes que são já subtraídos àquilo que nós sabemos que é a ética da verdade para podermos dominar, podermos chegar. E isso também é um delírio porque, no fundo, para chegar ao poder os fins tornam-se meios, e nós estamos disponíveis a abdicar, a vender, a comprar aquilo que não tem preço. Estamos disponíveis para nos trairmos a nós mesmos para chegarmos a determinado lugar, a determinado objetivo, a determinada situação. Recusar isso e adotar a clareza do próprio Jesus: “Não, não adorarás senão o Senhor teu Deus.” Isto é, guardarás intacto no teu coração o lugar para a verdade, o lugar para a pureza, o lugar para a integridade, guardarás isso intacto no teu coração e não te venderás, não trocarás a tua alma por outra coisa qualquer, por qualquer bem deste mundo.
O que é que nós assistimos nas tentações de Jesus? Assistimos à construção de Si. Nós esquecemos muito isso no sentido de que parece que temos uns anos de formação, quando somos crianças até à adolescência, os nossos pais têm um poder de correção, de acompanhamento da nossa vida e depois estamos por nossa conta e risco. Depois é como se já soubéssemos tudo, vivêssemos tudo, fossemos pessoas perfeitas, acabadas, concluídas. É como se não houvesse mais caminho interior para fazer. E não, nós precisamos de viver numa formação permanente, numa formação espiritual permanente. Há um processo de caminho que é também um processo ascético de correção, de melhoria, de esforço, de morte para si mesmo, de renascimento que nós temos de ensaiar em nós.
A Quaresma o que é? A Quaresma é um tempo de exercícios espirituais mas com esta forte componente ascética porque é um tempo de conversão. Nós precisamos mudar. É uma ilusão acharmos que não precisamos mudar nada, só precisamos manter aquilo que somos. Não, precisamos mudar, precisamos melhorar, precisamos sentir a tensão de ir mais longe, a tensão de transformar, de corrigir. Isso é uma libertação para a nossa vida, é uma libertação interior que é necessária para nós próprios. Porque o pior da nossa vida são as zonas cinzentas, é aquele claro-escuro, não é que seja mau mas também não é bom. E depois acabamos por viver numa lógica de compensações e não haver um tónus cristão, uma marca cristã, uma evidência cristã, um eu posso dizer que sou cristão. E andamos ali a marcar passo. O tempo da quaresma é um tempo para sacudir, para dizer: não, vou fazer alguma coisa.
É muito bom que façamos juntos, é muito bom que estejamos todos a ouvir esta Palavra, sentindo que a Igreja nos convoca a todos: não é uma coisa de mim, não é uma coisa de ti. E, se calhar, sozinho eu não consigo, mas se eu tiver a força da comunidade eu se calhar consigo.
Agora alguns conselhos práticos. Quando iniciamos um caminho de transformação ascética é preciso uma certa objetividade, no sentido de dizer: eu não me vou conseguir mudar de um dia para o outro e se calhar isso não é bom, se calhar não é isso que Deus quer. Porque eu serei sempre eu, e isso também é bom. Amar-se a sim mesmo, abraçar-se a si mesmo, sentir o amor de Deus na sua vida, isso é a coisa espantosa. Não vou mudar de um dia para o outro e tenho de ter uma objetividade. Tem de ser pequeno, pessoal e possível.
Tem de ser uma pequena mudança, não pode ser uma grande mudança. Tem de ser pequena, tenho de ter a humildade de identificar uma coisa pequena. E é uma coisa pessoal, não posso estar a contar que seja o outro a mudar. “Agora na minha família vamos mudar!” – isso não é propósito de Quaresma. O propósito de Quaresma não é a tua família, és tu, és tu! E que seja uma coisa possível, porque às vezes colocamos metas tão altas que é já o demónio a tentar-nos, porque nunca vamos conseguir, não estamos preparados para chegar lá. Um atleta não começa por saltar o seu record, ele chega ao record depois de muito trabalho, muita tentativa, muito esforço. Por isso, uma objetividade, olhar para a nossa vida, fazer o diagnóstico da nossa vida e selecionar uma ou duas coisas, não mais. Com objetividade, pequeno, pessoal e possível. E depois, rezar essa coisa, colocar essa coisa no centro da nossa oração. Porque, o importante na Quaresma não é uma coisa que eu vou fazendo sozinho, um exercício ascético em que eu me vou penitenciando e castigando e esforçando. Não é isso o sentido da Quaresma. O sentido da Quaresma é eu abrir-me na minha pobreza, na minha fragilidade, na minha humilhação diante de Deus. Contar com Deus, rezar esse meu problema, isso que eu quero transformar, que eu quero corrigir em mim, rezar isso, rezar…
O tempo da Quaresma é um tempo para aumentarmos o nosso tempo de oração, para rezarmos mais. Eu não digo rezar melhor porque nós não sabemos o que é rezar melhor. Rezem mais, se rezarmos mais vamos rezar melhor. Aqui é um daqueles casos em que a quantidade gera também a qualidade. Porque é quando nos expomos a Deus que alguma coisa acontece. Então, vamos rezar, vamos rezar essa questão.
Depois, vamos fazer o tal exercício ascético que nós chamamos de jejum. O jejum é físico, nós começamos a Quarta-feira de Cinzas e temos a Sexta-feira Santa como dias de jejum, mas o tempo da Quaresma é um tempo para praticar um jejum. Jejum de algumas coisas, de alguns confortos, de alguns gostos que nós temos e que muitas vezes deixamo-nos embalar por eles e a nossa vida é só um reforço de si, é só uma satisfação de apetites, de vontades, de paixões. Temos de desenvolver também o sentido crítico em relação a isso. Porque, no fundo, nós não somos livres. Nós somos livres face a todos menos a nós mesmos e nós soçobramos com a maior das facilidades. Por isso precisamos ganhar liberdade e o jejum é isso, é dizermos “Não” a nós mesmos, dizermos “Não” a nós mesmos. E é dizendo “Não” que podemos dizer “Sim”.
Então, vamos identificar essa coisa ou essas duas coisas e vamos trabalhá-las, vamos trabalhá-las dizendo “Não” e com a força da oração. E depois, esta transformação não é uma coisa apenas nossa, porque a Quaresma, estes exercícios ascéticos que fazemos durante 40 dias, não são apenas para nos tornarmos super-homens e supermulheres, muito virtuosos, espetaculares, mas é para sermos mediadores da Graça, mediadores da alegria na vida uns dos outros, para darmos esmola, para socorrermos, para irmos ao encontro da vulnerabilidade dos nossos irmãos. E esse é o terceiro eixo muito concreto que nós temos de adotar.
Queridos irmãs e irmãos, coloquemo-nos a caminho. Que cada um de nós este primeiro domingo faça de facto o seu propósito. No diagnóstico da nossa vida identifiquemos aquilo que somos chamados a mudar, aquilo que é possível mudar, aquilo que eu posso mudar. E coloquemo-nos a caminho, rezando, procurando ajuda. Se calhar este é o tempo em que poderíamos ir por semana uma vez à missa, cada um sozinho, num horário que desse jeito, rezando, expondo, ouvindo a Palavra de Deus. E ser um tempo em que eu também combato as minhas facilidades. Gosto muito de chocolates ou gosto muito de uma cerveja ou gosto muito não sei de quê, é bom privar-se, é bom privar-se. Até para sentir o gosto das coisas, para não se tornar tudo mecânico, é bom privar-se. Que este seja, com realismo, também um tempo de privação, também um tempo de frugalidade porque a Quaresma é um tempo de frugalidade. E depois, seja também um tempo de caridade. Tornemos este tempo rico por exercícios de caridade, de encontro, de serviço aos nossos irmãos.
Nós empobrecemos tudo, não temos flores, o padre veste-se de roxo, não cantamos o “Aleluia”, não cantamos o “Glória”, quer dizer, adotamos um tom penitencial. Mas não pode ser só o rito, tem de ser dentro de nós que esse despojamento também aconteça. Porque, a liberdade pascal, o Aleluia pascal, a ressurreição pascal, nós só vamos viver se aceitarmos morrer um bocadinho para nós próprios.
José Tolentino Mendonça
http://www.capeladorato.org
A vida e a graça
Marcel Domergue
Uma chave para abrir o Evangelho
Digamos imediatamente que nem a primeira leitura nem a segunda nos devem fazer tomar Adão por um personagem histórico. Paulo diz com clareza ser ele uma «figura» (versículo 14): uma figura antitética, em negativo, daquele que devia vir: Cristo. Adão representa tudo que no homem é a recusa da confiança e finalmente, portanto, do amor. Em resumo, Adão existe em cada um de nós. Mas olhemos pelo lado do Cristo.
No evangelho, Jesus acaba justamente de receber o Espírito, tendo em vista a sua missão. Mesmo assim, o Espírito não o poupa: conduziu-o imediatamente para o deserto. Só que não se trata mais do Éden, como em Gênesis 3, mas do deserto provocado pela recusa do homem (Gênesis 3,18).
Jesus vai então retomar a história desde o seu começo, para, desta vez, ter sucesso no que o homem anterior havia falhado. Também ele, o Cristo, vai ser por sua vez submetido à tentação fundamental: de recusar o Outro, recusando a sua Palavra e buscando valor e verdade somente em si mesmo.
Israel também conheceu esta mesma tentação no deserto, e, sem dúvida, é a experiência do Êxodo que se encontra simbolizada em Gênesis 3. O «relato» das tentações de Jesus é, pois, um texto chave que nos dá o sentido de tudo o que vai ser relatado nos Evangelhos: a recusa até à morte da tomada do poder, a fim de abrir para os homens um caminho de liberdade. Em Cristo, Deus vai fazer-se o último e, finalmente, dar a sua própria vida pela multidão.
O convite a pôr Deus à prova
Lembremos o Salmo 95: «Não fecheis os vossos corações como no deserto, quando vossos pais me provocaram e tentaram (…) Quarenta anos (aqui, quarenta dias) esta geração me desgostou» A desconfiança? «Poderá Deus nos preparar uma mesa no deserto?» Deus respondeu com o Maná, o «pão do céu». Aqui, lemos: «Manda que estas pedras se transformem em pães».
A fome dos Hebreus, a fome de Jesus e a atração do fruto «saboroso ao paladar»; os textos se superpõem. Mas, a cada vez, o que se trata exatamente é de pôr Deus à prova: estará Ele conosco verdadeiramente? Será que Ele, de fato, é amor? Façamos um teste para saber se Deus é bom ou mau… Ora, querer o conhecimento do bem e do mal é pretender julgar a Deus.
No evangelho, tudo se passa como se uma voz interior dissesse para Jesus: Ouviste a voz que te disse: «Tu és o meu Filho amado e tens todo o meu amor.» Então, vamos ver, vamos verificar: «Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães (…) lança-te daqui do alto do templo (…) adore o poder, tornando-se assim senhor de todos os reinos do mundo».
E esta voz interior, de onde vem? O texto fala que do demônio; mas não é o demônio, o semeador da divisão, o adversário, como que uma parte de nós mesmos? Não será o demônio esta resistência que oferecemos à revelação do amor que nos funda? Cristo fez seu tudo (em) que (se) constitui a condição humana, exceto o pecado; sequer fez economia da tentação.
Sob a aparência do bem
Sempre a antiga questão do conhecimento do bem e do mal. O fruto mortal de Gênesis 3 parecia belo de se ver, bom de se comer e «desejável para se alcançar conhecimento». Então, o que haveria de melhor do que transformar as pedras em pães? Assim se poderia dar de comer a todos os famintos do mundo. Colocar nas mãos de um só os povos todos do mundo, não seria este o caminho da paz? É exatamente o que algumas grandes potências parecem pensar.
O tentador utiliza até mesmo as Escrituras: não são «Palavra de Deus»? Cita, portanto, o Salmo 91,11-12. Nos Exercícios Espirituais, Santo Inácio fala da tentação sob a aparência do bem. Creio que toda tentação, ou quase, assim se apresenta: como um bem a se buscar, a se promover, a se favorecer. Defender a fé? Excelente! Mas temos a Inquisição.
Em nome de Deus pode-se fazer o contrário de Deus, que é amor. Então, sob o pretexto de defendê-lo, crucifica-se quem nos disse para colocar a espada na bainha, porque a violência só pode gerar mais violência (Mateus 26,52). Foi por «boas razões» que Jesus foi morto, cf. João 18,14.
Jesus responde às tentações – e é fundamental – por citações da Lei, tiradas todas do Deuteronômio. É no Livro que ele descobre o que deve fazer (Hebreus 10,7). Não veio para cumpri-lo? A respeito do Cristo, a fim de pôr em evidência a sua humanidade, Paulo diz: «nascido de uma mulher, nascido sob a Lei» (Gálatas 4,4)
“Se és Filho de Deus”
No Batismo, prefiguração de sua passagem pela morte, Jesus acaba de ouvir a «voz vinda dos céus» dizer a seu respeito: «Este é o meu Filho amado que tem todo o meu amor.» E, em seguida, irá reviver por quarenta dias a provação atravessada por seu povo durante quarenta anos, número simbólico, representando a totalidade de uma existência. Provação da fome, da impotência diante dos povos encontrados, e de uma caminhada que não terminava mais.
O Filho de Deus – e em seguimento a Ele os filhos todos de Deus que somos nós – será tentado a escolher, em vez da segurança apenas do «pão de cada dia», a acumulação de riquezas, a ocupação dos primeiros lugares, a ilusão do poder e de ser plenipotenciário na família, na cidade e no mundo. Lembremos: pediram a Jesus «um sinal no céu», queriam fazê-lo rei, esperavam que expulsasse os Romanos e restabelecesse a soberania de Israel.
Jesus, no entanto, utilizou o seu poder somente para curar e para alimentar. Pediu a todos os que curou não fazerem publicidade disto. E quando a sua vida foi ameaçada, não pediu que as legiões de anjos viessem em sua defesa. Devemos crer que Jesus foi tentado na verdade pelas mesmas nossas ambições clássicas, e outras mais. E que, da mesma forma, conheceu nossas tristezas, como na morte de Lázaro, por exemplo; as nossas decepções, como diante da incredulidade de seus concidadãos. Mas também a fome, a sede, a fadiga, etc.
Deus fez-se homem e, com exceção do pecado, viveu tudo o que temos de viver, conforme nos diz as Escrituras. E no modo pelo qual viveu a sua humanidade foi que ele se revelou Deus. Resistiu à tentação de ser um “super-homem”. Por isso, certamente, pela decepção que provocou, é que foi crucificado, como um “sub-homem”.
A última tentação
«Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.» No outro extremo de sua vida, Jesus ouvirá: “Se és o Filho de Deus, desce agora da Cruz.” Já durante o processo, o sumo sacerdote havia-lhe dito: «Diz, se és o Cristo, o Filho de Deus.» Como vemos, a questão da identidade se põe ao longo de todos os Evangelhos. E se põe hoje, para cada um de nós: quem é este homem? Os discípulos deverão esperar a Ressurreição para que a resposta se imponha.
Durante o processo, Pedro, que em Mateus 16,16 havia dito: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo», responde aos que lhe pedem contas de sua relação com Jesus: «Não conheço este homem». Descer da Cruz e levar a vida de todo mundo será sem dúvida a última tentação de Cristo, e a que resume todas as outras. Mas ele sabe que deve cumprir as Escrituras.
Por isso responde ao tentador, a esta voz interior que lhe diz para evitar o pior, citando as Escrituras. E não é com quaisquer citações: é com o Deuteronômio, com a Lei. Ei-lo, pois, na situação de cada um de nós. Ou não é Ele mesmo o Verbo que sai da boca de Deus para nos dizer, em primeiro lugar, a Lei? Devemos notar que o tentador havia citado, ele mesmo, o Salmo 91.
O que indica, portanto, que podemos fazer um mau uso das Escrituras, desviando-a de seu sentido. Não esqueçamos que é em nome da Lei que Jesus será condenado (João 19,7). Esta Lei vai ser ultrapassada e será substituída por uma nova Lei, a do próprio Cristo, que dá a sua vida por amor. Assim se revelará enfim a verdadeira face de Deus.