3° Domingo do Advento (ciclo A)
Mateus 11,2-11


Avent-3A

Referências bíblicas

  • 1ª leitura: “Criai ânimo, não tenhais medo! É Deus que vem para vos salvar.” (Isaías 35,1-6.10)
  • Salmo: Sl. 145(146) – R/ Vinde, Senhor, para salvar o vosso povo!
  • 2ª leitura: “Ficai firmes e fortalecei vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima.” (Tiago 5,7-10)
  • Evangelho: “És tu aquele que deve vir ou devemos esperar outro?” (Mateus 11,2-11)

A alegria é um estremecimento

Queridos irmãos e irmãs,

Celebramos hoje o Domingo Gaudete, o domingo da alegria, o terceiro domingo do Advento. Os que caminham experimentam a alegria contemplando, mesmo que ao longe, o lugar para onde se dirigem.

No caminho para Santiago de Compostela há um momento, uma parada, uns 20 Km antes, onde os peregrinos lavavam as suas roupas, robusteciam-se para entrar na cidade de Santiago e dar o abraço a Santiago não como uns mendigos cheios da poeira e do cansaço das estradas, mas renovados e em festa. É essa alegria de uma meta próxima, de um porto, de um abrigo que o nosso coração adivinha que nos faz estar em sobressalto.

E o que é a alegria? (…) A alegria não é uma coisa vaga. A alegria é, e os Evangelhos contam isso de forma concreta, um estremecimento. A alegria é uma emoção que nos percorre, a alegria é alguma coisa que nos toca, que nos transforma.

A alegria neste Domingo Gaudete também não é uma alegria vaga, uma alegria abstrata. Nós sabemos porque é que experimentamos uma alegria. E esse saber vem da pergunta que João Batista manda fazer a Jesus. A situação é impressionante, João Batista está preso e sabe que a sua morte está próxima, mas manda perguntar a Jesus: “És Tu Aquele que há de vir? Ou devemos esperar outro?” É interessante a palavra em grego porque é um particípio presente: o erchómenos, “tu és Aquele que vem?” E este “o erchómenos”, “Aquele que vem”, é uma espécie de senha para falar do Messias escatológico, do profeta do fim dos tempos, Daquele que havia de vir consumar, dar um sentido pleno à história e à vida. Por isso João Batista manda perguntar: “Tu és Aquele que vem ou devemos esperar outro?” A resposta de Jesus é espantosa, porque não é um “sim” ou um “não”, é uma resposta narrativa: “Ide contar o que vedes e ouvis.” E então o que é que se vê? Vê-se o impacto messiânico na vida concreta daquelas pessoas, vê-se o impacto da chegada de Jesus naqueles corações, e de repente esta liberdade, esta libertação: os cegos veem, os coxos andam, os mortos ressuscitam, a Boa Nova é partilhada com os pobres. Isto é, a história está a ser transformada e isso é uma fonte de alegria, e isso confirma que o erchómenos, aquele que está para vir verdadeiramente chegou.

A razão da nossa alegria não é uma ideia vaga, não é uma expectativa sem rosto, sem nome que cada um de nós alimenta um bocadinho às cegas dentro de si. Não, a nossa alegria brota daquilo que somos capazes de contar uns aos outros, das histórias que somos capazes de narrar. Isto é, da vida multiplicada, da vida acontecida, daquilo que em nome de Jesus continua a acontecer nas nossas histórias, daquilo que a fé em Jesus é capaz de despertar, é capaz de fazer irromper como sobressalto, como emoção, como irradiação de vida em cada um de nós. É isto que contamos uns aos outros, e é isto que dizemos àqueles que estão presos, é isto que dizemos àqueles que aguardam com expectativa a vinda de um sentido, a chegada de uma luz, é isso que nós temos a missão de contar. Isto que vemos e ouvimos.

Queridos irmãs e irmãos, o tempo do Advento é um tempo muito comprometedor, porque é o tempo do Messias. Nós vivemos a nossa vida muitas vezes como se não esperássemos nada, como se tudo estivesse realizado, como se tudo estivesse consumado, como se só contássemos apenas com as nossas forças, com aquilo que trazemos para explicar o enigma da história. Muitas vezes nós fechamos a nossa porta e fechamos mesmo, fechamos o nosso coração e trancamo-lo mesmo, e não contamos com mais nada. Acreditamos em Deus mas isso é uma crença, é uma convicção, não é um poder transformador das nossas vidas. Ora, o tempo messiânico é habitar a tensão do Messias que vem, é não contar só com as pedras que temos na mão, não contar só com as nossas forças, mas contar com aquilo que Ele nos traz. Não apenas contar connosco mesmos, com a nossa fragilidade ou o nosso voluntarismo, mas contarmos com a energia salvadora, transformadora do próprio Jesus. É esse rasgão, essa abertura, essa hospitalidade que fazemos ao Deus que vem que nos sobressalta, que nos enche de alegria, que nos dá razões para acreditar, para festejar.

Queridos irmãos, o Natal não está arrumado numa caixa que nós abrimos anualmente e tiramos de lá os ornamentos, as musiquinhas e as luzinhas, e pomos tudo a piscar e a construir como um teatrinho anual que fazemos uns aos outros para nos consolarmos daquilo que não somos. Não, o Natal é um berço, o Natal é uma manjedoura, o Natal é a possibilidade da mulher e do homem que somos nascer verdadeiramente. E nascer porque Deus vem, Ele é o erchómenos, nascer porque Ele nos levanta. Nascer porque Ele nos faz ser, nos faz ser, nos faz ser!

O Natal não é um símbolo, o Natal é alguma coisa que está a acontecer. É como uma gargalhada que nós damos, como um sorriso que nós damos, forte e que altera o nosso corpo. O Natal também nos altera. E altera-nos não na epiderme, não na superfície, altera-nos profundamente porque Ele está connosco, Ele é o Emanuel, Ele passa a ser o companheiro das nossas vidas. Não contamos apenas com aquilo que trazemos, com aquilo que conseguimos, colocamo-nos por inteiro nas mãos Dele. E isto faz toda a diferença.

Queridos irmãs e irmãos, vivamos o Advento nesta profundidade que Ele nos pede. É tão fácil distrairmo-nos nestes dias que são muito curtos para tudo aquilo que são as obrigações sociais, familiares, culturais, profissionais – temos de estar com isto e com aquilo e mais a pensar no outro. É muito fácil pensar em tudo e deixar de lado o essencial. Por isso, há aqui uma sabedoria, há aqui um alerta, há aqui uma chamada profética a dizer: “ Concentra-te, abre os olhos, abre o coração, compromete-te.”

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo III do Advento

José Tolentino Mendonça
http://www.capeladorato.org


As duas faces de Deus
Marcel Domergue

Na mesma linha dos balbucios das antigas figuras bíblicas, João Batista via a intervenção de Deus como uma manifestação de poder, uma reposição da ordem obtida através da violência. Isto transparece em Mateus 3,10 e em Lucas 3,7-9.

Participamos desta mesma ilusão quando contamos apenas com “nossos cavalos e carros de combate”, ou com nossos helicópteros, para estabelecer um Reino de justiça. Sabemos que os discípulos imaginaram até o fim uma tomada de poder por um Cristo que restabeleceria o trono de Davi.

João Batista proclamou a iminência da intervenção divina, reveladora da soberania de Deus e, mais ainda, do que Deus é em Si mesmo. Sem qualquer ponta de inveja, viu Jesus tomar a sua vez. Mas eis que foi feito prisioneiro, em detrimento do poder de Deus que proclamara.

E Jesus, em vez de mobilizar as multidões para tomar o poder, ocupava-se somente dos pobres, dos cegos, dos leprosos… João, portanto, estava confuso: “És tu aquele que deve vir ou devemos esperar por outro?” Faria parte também ele destes “bem-aventurados” os quais a nova face de Deus revelada por Cristo não deixará cair?

Porque é exatamente disto que se trata: com Jesus, somos convidados a mudar radicalmente nossa maneira de ver Deus. Este a quem chamamos de “divina majestade” revela-se como um excluído, um crucificado nu entre os malfeitores.

Diante da escolha fundamental

A “vida pública” de Jesus teve seu início marcado por dois textos importantes e que estão em perfeita coerência com o que acaba de ser dito. Primeiro, o relato do batismo, que nos informa ser Jesus o “filho muito amado”, ou seja, a perfeita imagem e semelhança do Pai: basta olhar Jesus, escutar o que ele diz e observar o que ele faz, para ficar sabendo como Deus é. “Quem me viu, viu o Pai.”

O segundo texto é o das tentações, que mostra a recusa de Jesus ao messianismo de glória e poder proposto pelo tentador. “Se és o filho de Deus”, diz o diabo. Traduzindo: se és a imagem perfeita daquele que é o “Altíssimo”…

Pois, justamente por ser a imagem perfeita de Deus é que Jesus escolheu a humildade divina, a renúncia à onipotência, a fraqueza da Cruz, o amor que o faz dar a própria vida para nos dar a vida. Eis-nos aqui, pois, diante de uma subversão radical da imagem divina.

E como também temos de ser imagem e semelhança, isto para nós implica em maneiras de ser e comportar-se que estão em contradição total com as nossas tentações de dominar, aparecer e possuir.

É uma outra Sabedoria, uma outra maneira de conceber e de viver a vida. É uma outra concepção da verdade do homem. E que exige de nós uma reviravolta, uma “conversão”.

É reconfortante constatar que João Batista, que é como que a dobradiça entre estas duas maneiras de ver Deus e o homem, tenha experimentado as suas dúvidas e aflições. E nós, também, não estamos sempre nesta encruzilhada dos caminhos?

Rumo à alegria

Que a verdade de Deus, e, portanto, também do homem, seja a difusão de si, a superação do próprio “eu” para ir existir no outro, fazendo-o existir, isto exatamente foi o que fez João Batista: diminuir e desaparecer, para que o Cristo viesse à luz e crescesse (João 3,30).

Contudo, se traduzimos isto enquanto renúncia, sacrifício, etc., arriscamo-nos a descambar para uma religião masoquista, num culto à fraqueza. No entanto, a primeira leitura faz o anúncio da alegria como a “revanche” de Deus, ou seja, do amor.

Não do amor abstrato de tantos dos nossos discursos, mas de alguém que se define tão somente pelo amor. Por isso é que os grandes beneficiários da vinda de Deus são os que se encontram em estado de privação: os cegos, os coxos, os surdos, etc.

E os outros? Também estes devem fazer para si mesmos uma alma de pobre, uma “mentalidade” de pobre; fazerem-se e reconhecerem-se pequenos, tomarem consciência, com lucidez, de estarem privados do essencial, privados de Deus, privados do amor.

E esta não é uma lucidez desencorajadora, porque vem conjugada com a esperança de que Deus não nos faltará. Pois Ele, com efeito, é “Aquele que vem” a nós, incansavelmente. E é somente em nossa aliança com Ele que podemos “ganhar peso”. O peso da JUSTIÇA que devemos alcançar, pois que nos é dado gratuitamente.

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