O Pão da Palavra
23° Domingo do Tempo Comum (ciclo C)
Lucas 14,25-33


Lucas 14,25-33

Referências bíblicas

  • Primeira leitura: Sb 9,13-18
  • Segunda leitura: Fm 9b-10.12-17
  • Evangelho: Lc 14,25-33

Seguir Jesus… Assumir riscos calculados
Raymond Gravel

Há muitas semanas nós nos encontramos a caminho para Jerusalém, e, há três semanas, no caminho, o Jesus do Evangelho de Lucas dá conselhos sobre a maneira de viver na Igreja: estar aberto a todos, acolher os pobres e os necessitados e estar pronto para rupturas, para escolhas dolorosas, para carregar a sua cruz! No fundo, o Evangelho nos coloca a seguinte questão: como fazer caminho com Jesus? Como querer ser seu discípulo sem preferi-lo a tudo, inclusive mais que à sua própria vida? É uma escolha cheia de consequências e de compromissos; é uma escolha crucial e, antes de escolher, precisamos sentar e calcular… De acordo com Lucas, quais são as condições para seguir o Jesus do Evangelho? Há três:

1. Um amor total

Para seguir Jesus, é preciso estar animado por um amor superior a todas as afeições familiares ou quaisquer outras: “Se alguém vem a mim e não dá preferência mais a mim que ao seu pai, à sua mãe, à mulher, aos filhos, aos irmãos, às irmãs, e até mesmo à sua própria vida, esse não pode ser meu discípulo” (Lc 14,26). Enquanto Mateus se contenta em escrever: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a mim não é digno de mim” (Mt 10,37), Lucas utiliza o verbo grego misein, que é traduzido por odiar. O que isto quer dizer? Isto quer dizer que para seguir Jesus é preciso amar verdadeiramente, e isso de uma maneira livre e total. O amor que sentimos pelos parentes, pelos outros e por nós mesmos nunca deve nos impedir de nos conduzir ao Cristo, porque os nossos próximos, os outros e nós mesmos somos imagens do Cristo e mesmo o próprio Cristo.

Mas, nesse caso, por que Lucas utiliza o verbo odiar, traduzido em nossas Bíblias por preferir? Simplesmente para nos recordar a radicalidade e a urgência do nosso compromisso de amar totalmente, livremente e gratuitamente. Recordemos os três graus do Amor, segundo Santo Agostinho: 1) Amar ser amado: isso diz respeito a todos… Quem não gosta de ser amado? 2) Amar amar: é generoso e virtuoso, mas isso também é ser egoísta; ao querer amar os outros isso nos faz bem, é gratificante e podemos fazer isso exclusivamente por nós mesmos. 3) Amar (simplesmente): gratuitamente, não para se comprazer, mas amar sem esperar nada em troca. É o Amor total, o Amor do Cristo da Páscoa.

2. Carregar sua cruz

Para seguir Jesus é preciso carregar a sua cruz, isto é, renunciar à sua própria vida esperando, às vezes, o pior. Novamente, é um compromisso radical que pode nos levar à rejeição, à condenação e à exclusão, como Jesus em sua ação e sua revolução (sua luta por justiça e liberdade). Ser discípulo de Jesus, comprometer-se a segui-lo, não é agir de maneira politicaly correct, para não desagradar as autoridades e determinadas pessoas. Comprometer-se a seguir Jesus é trabalhar pela justiça e pela liberdade, é partilhar com os mais necessitados, é recuperar a dignidade daquelas e daqueles que a perderam, por causa da sociedade ou da Igreja. Isso requer muita coragem, renúncia e determinação… E é por isso que, antes de fazer essa escolha, antes de assumir tal compromisso, é preciso sentar para calcular se somos capazes de construir uma torre ou apenas assentar os fundamentos (Lc 14,28-30) ou, saindo para guerrear, se temos condições de vencer o adversário (Lc 14,31-32). Uma coisa é certa: não devemos nos esconder atrás dos medos ou das incapacidades; devemos assumir riscos calculados…

3. Renunciar a todos os bens

Para seguir Jesus é preciso ser livre em relação a tudo o que possuímos. Renunciar a todos os bens não quer dizer não ter nada, mas que aquilo que possuímos não nos deve impedir de nos comprometer livremente com o seguimento de Jesus. O teólogo francês Marcel Metzger escreveu em 1992: “No Evangelho deste domingo, não se trata propriamente de renúncias e de medos, porque Jesus se dirige a nós de maneira categórica e radical: ele nos pede para preferi-lo a qualquer outra pessoa e ainda de renunciar a todos os nossos bens, caso quisermos ser seus discípulos. Tais renúncias podem nos parecer muito grandes, até mesmo impossíveis. E, no entanto, se nós não tomarmos a iniciativa espontaneamente e de bom grado, a existência se encarregará disso, no nosso lugar, porque à medida que avançamos na idade, nós nos tornamos progressivamente despojados, senão de riquezas, mas ao menos de saúde, dos parentes, e um dia, da vida. Podemos protestar, nos revoltar, mas nada podemos fazer. Podemos também, ao contrário, fazer desse despojamento irreversível uma caminhada para o Reino, colocar a nossa mão na mão de Jesus, esse companheiro fiel e seguro do qual nada pode nos privar, nem separar (Rm 8,35)”.

Podemos pensar que é impossível nos tornar discípulos de Jesus, podemos pensar que as condições para segui-lo são irrealistas e mesmo utópicas; e, no entanto, já no livro da Sabedoria, que temos na primeira leitura, esse livro escrito 50 anos antes da era cristã, cujo autor, um judeu de Alexandria, influenciado pelo pensamento grego, onde há dualidade entre corpo e alma, nos diz que o homem em sua materialidade é reduzido à impotência; seus sentidos limitam sua percepção ao horizonte terrestre e a Sabedoria que se encontra em Deus está fora do seu alcance: “porque o corpo corruptível torna pesada a alma e a morada terrena oprime a mente que pensa em tantas coisas. Mal podemos conhecer o que há na terra, e a muito custo compreendemos o que está ao alcance de nossas mãos; quem, portanto, rastreará o que há nos céus?” (Sb 9,15-16). Por outro lado, o Sábio reconhece que Deus mesmo nos deu sua Sabedoria, que é o Espírito Santo, e que nós somos mais que materiais, somos também espirituais; assim, somos salvos e capazes de alcançar a Deus: “Só assim se tornaram retos os caminhos dos que estão sobre a terra, os homens aprenderam o que te agrada e, pela Sabedoria, foram salvos” (Sb 9,18).

Nosso compromisso cristão, hoje, se ele é verdadeiro e autêntico, poderia transformar o nosso mundo, como foi capaz de transformar o mundo ou a sociedade no começo do cristianismo. Na segunda leitura de hoje, temos um dos escritos mais curtos do Novo Testamento, onde Paulo, na sua prisão, acolheu um escravo, Onésimo, que fugiu da casa de seu senhor, Filemon. No contato com Paulo, esse escravo pagão se converteu; ele foi batizado por Paulo e eis que Paulo o reenvia a Filemon, seu senhor, dizendo-lhe para acolhê-lo não mais como escravo, mas como um irmão querido. Imaginem a situação real da época em que o escravo era totalmente desprezado. No tempo de Aristóteles, colocava-se a seguinte questão: “Qual é a diferença entre um escravo e um utensílio? A única diferença é que o escravo se move. O escravo é um instrumento vivo”. Além disso, quando um escravo fugia ou roubava seu senhor, o senhor tinha o direito de vida ou de morte sobre ele. É, pois, uma revolução que o pensamento cristão impõe à sociedade da época: “Se ele te foi retirado por algum tempo, talvez seja para que o tenhas de volta para sempre, já não como escravo, mas, muito mais do que isso, como um irmão querido, muitíssimo querido para mim quanto mais ele o for para ti, tanto como pessoa humana quanto como irmão no Senhor” (Fm 15-16).

Imaginem a grande revolução trazida por Jesus: sempre no sentido da justiça, da igualdade, da dignidade e da liberdade! Hoje, 2013, o que Paulo pediria ao seu amigo Filemon para melhor seguir o Jesus do Evangelho? Ele lhe pediria, sem dúvida, para acolher o drogado, a prostituta, o homossexual, a divorciada, como um irmão, uma irmã, porque em Cristo temos todos e todas a mesma dignidade e somos todas e todos irmãos e irmãs.

Eu termino com esta bela oração do francês Michel Hubaut, que se intitula “Sentar para ousar arriscar”: “Senhor Jesus, para revelar o mistério do Reino de Deus, tu assumiste muitos riscos! Tu arriscaste a eternidade no tempo, tu arriscaste o invisível num rosto de homem, tu arriscaste o divino num corpo humano. Tu arriscaste a Palavra na fragilidade das nossas palavras, tu arriscaste a Bondade de Deus na banalidade dos gestos cotidianos. Tu inclusive te arriscaste a ser mal interpretado e desfigurado. Senhor, desde a tua Encarnação, como te seguir sem assumir riscos? Dá-me o gosto pelo risco e a coragem de tomá-lo com toda a lucidez. Dá-me a coragem de arriscar o meu coração, minha inteligência e minha razão, arriscar meus bens, meu futuro e minha reputação, arriscar a hostilidade, a indiferença e inclusive a cruz. Mas, tantos riscos, tu o compreendes bem, pedem reflexão, tantos riscos merecem que eu tome o tempo para me sentar para acolher, no silêncio da oração, teu Espírito, fonte e força das minhas escolhas, para verificar os fundamentos! Concede-me a graça de construir a minha vida sobre a Rocha da tua Palavra, de permanecer na tua Presença, de começar e terminar a obra da minha vida Contigo”.

http://www.ihu.unisinos.br

A indispensável sabedoria
Marcel Domergue

Escolher o Cristo é escolher amar

Viver é abrir-se ao novo, apoiando-se no passado; um novo que pode ser desconcertante e também exigente. Quando, no evangelho de hoje, ouvimos Jesus nos convidar a preferi-lo a todos os membros de nossa família, lembramos Gênesis 2,24: «Deixará o homem seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne.» Fazendo a transposição, veremos que esta fórmula descreve a mesma realidade deste evangelho: «O ser humano, homem ou mulher, deixará seu pai e sua mãe e se unirá ao Cristo, e os dois se tornarão uma só carne.» Em Efésios 5,21-33, Paulo põe o amor entre o homem e a mulher em paralelo com a união de Cristo com o seu corpo que é a Igreja (todos nós reunidos). Deixar tudo para tornar-se um só com Cristo (o evangelho diz «segui-lo») é apresentado no Novo Testamento como análogo ao encontro nupcial. Não se trata de simples metáfora: a união dos esposos é a imagem, o «sacramento», da nossa união com Deus. Mas o que significa preferir Cristo a tudo mais que não seja ele, mesmo em se tratando de nossos entes mais próximos? Creio que Jesus nos quer dizer que temos de preferir o amor à posse. O amor apenas sabe dar, enquanto outras formas de união sabem somente tomar. Se bem que seguir o Cristo é a melhor maneira de amarmos pai, mãe, mulher, filhos etc.…

No caminho para Jerusalém

O que acabamos de dizer exige uma explicação suplementar. Lucas situa estas palavras de Jesus no contexto da sua caminhada para Jerusalém, para a cruz. Ora, todo o relato que segue o versículo 51 do capítulo 9, onde vemos Jesus pôr-se a caminho para «a cidade que mata os profetas», está imerso numa atmosfera de aproximação da morte. Por isso Jesus fala em não preferirmos nem mesmo à nossa própria vida, mas a ele. Pois, segui-lo de fato significa comportar-se como ele se comportou, justamente ele que, em Jerusalém, deu preferência a todos nós, em detrimento de sua própria vida. A reciprocidade, portanto, se impõe. Daí resulta que, só podendo nos tornar imagem e semelhança de Deus fazendo-nos imagem e semelhança de Cristo, é a nossa própria criação que está em jogo. Só podemos existir no amor que nos faz ser e que deve se tornar a nossa própria substância. Estamos, então, nós também, no caminho para Jerusalém. Nem todos, com certeza, destinados a uma morte violenta, mas, todos, sofremos doenças, acidentes, envelhecimento… Cabe a nós acolher tudo isso como um dom da nossa vida e, por aí, unirmo-nos ao Cristo. Devemos compreender, contudo, que o sofrimento em si mesmo não tem valor nenhum, e temos razão de combatê-lo, tanto em nós como nos outros. O que tem valor é o dom, e este dom passa por tudo o que a vida nos traz, quer se trate de alegrias ou de penas. Encontrar e tornar a encontrar Deus em todas as coisas.

Escolher viver

Jesus nunca se impõe. Os «se queres» ou «quem quer», por exemplo, «ser meu discípulo», são marcas do relato evangélico. Em Deuteronômio 30,15 e 19 já líamos: «Eis que hoje estou colocando diante de ti a vida e a felicidade, a morte e a infelicidade (…) Escolhe, pois, a vida para que vivas…» Ora, em que consiste escolher a vida? O mesmo texto responde: amando a Deus, ou seja, amando e escolhendo o Amor. Ficamos sabendo mais tarde que amar a Deus só pode ser vivido de fato se amamos os outros (ver entre tantos outros lugares 1 João 4,20). Amar é, portanto, responder a um convite de Deus, não sob qualquer forma de coação.

Uma escolha

Devemos desconfiar disto que chamamos de amor. Uma ditadura exercida por sentimentos muito violentos significa muitas vezes somente um desejo de possuir, e não uma decisão de se entregar totalmente, para o melhor, mas também, eventualmente, para o pior. Este caráter de uma decisão livre é muito bem ilustrado pelas duas parábolas que enquadram este enunciado das condições necessárias ao seguimento de Jesus. Neste mesmo capítulo, no texto que precede este evangelho, a parábola dos convidados para as núpcias também sublinha o caráter nupcial da união com Deus (ver também em Mateus 22,1-14). Os convidados se esquivaram, porque escolheram outra prioridade em suas vidas. Logo após o convite para seguir Jesus, «carregando (cada um) a sua cruz», temos as parábolas do homem que quer construir uma torre e do rei que quer partir para a guerra. São parábolas que nos convidam a refletir bastante antes de nos decidirmos. Mas não devemos nos preocupar demais, se não temos toda a força que este empreendimento exige: Jesus, na cruz, veio nos buscar donde quer que estejamos, do mais baixo que possamos ter descido.

http://www.ihu.unisisinos.br