Casa de Maria (Éfeso)

Casa da Virgem Maria (Éfeso, Turquia)

Referências bíblicas – Missa do Dia

1ª leitura: «Uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés» (Apocalipse 11,19;12,1-3-6,10)
Salmo: 44(45) – R/ À vossa direita se encontra a rainha, com veste esplendente de ouro de Ofir.
2ª leitura: «Em primeiro lugar, Cristo; depois, os que pertencem a Cristo» (1 Coríntios 15,20-27)
Evangelho: «O Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor… Ele elevou os humildes» (Lucas 1,39-56)

Uma mulher de exceção
Marcel Domergue

Jesus não era imortal. Maria tampouco. Por isso as segundas leituras (Missas da Vigília e do Dia) falam da ressurreição, que não é a mesma coisa que a imortalidade. Assim, portanto, da mesma forma que seu filho, Maria também passou pela morte. Mas, então, o que significa a Assunção? Para compreender, é preciso colocar este “mistério” no conjunto das figuras e imagens produzidas pelos cristãos para afirmar a sua fé. Partiu-se de uma experiência universal: todo mundo, homens e mulheres, cada um de nós, somos afrontados com muita frequência pelas “potestades e dominações” de que nos fala São Paulo. Traduzindo: a vontade de dominar, o desejo de possuir tudo o que se pode possuir, mesmo se em detrimento dos outros. Em resumo, tomando-nos por deuses, buscamos receber honra e louvor. E como isto de certa forma nos afeta a todos, Santo Agostinho formulou uma teologia do “pecado original” que hoje está a merecer um debate maior. Este é um mal que atinge todos os homens? Não a Jesus. E este, exatamente, é um dos sentidos da cena das tentações que, nos sinóticos, abre o relato da sua “vida pública”. Nem Maria é atingida, uma vez que não está mentindo quando se declara “serva” (Lucas 1,38 e 48). O evangelho de hoje é para ser lido todo ele sob este prisma. “Servo” é o contrário de senhor, de dominador. E, por aí, Maria se acha excluída de toda vontade de poder “original”. Para os antigos teólogos, não poderia ser de outro modo, pois a sua humanidade é feita do mesmo tecido que a humanidade de Jesus.

Uma exceção redobrada

Alguns leitores irão dizer: “já está prestes a falar da Imaculada Conceição, ao invés da Assunção”. Pois chegamos lá. Mas notemos que ambas estão intimamente ligadas. Se a Imaculada Conceição atém-se de alguma forma ao início da vida de Maria, a Assunção, que caracteriza o seu término, é somente uma consequência dela. Os homens pactuaram com o mal que respiram junto com os ares do tempo, por isso são submetidos ao julgamento. A teologia endureceu e esquematizou um pouco este tema do julgamento nas Escrituras, negligenciando todos os textos que falam em escapar dele: particularmente as palavras de Jesus que dizem ter ele vindo não para julgar o mundo, mas para salvá-lo. Já se falou em “juízo particular”, referente a cada pessoa na hora da sua morte, e em “juízo final”, no fim dos tempos. Tudo isto pertence a uma teologia, dita “dos fins últimos”, que mereceria reflexões mais aprofundadas. Neste contexto, é preciso dizer que, não tendo pactuado com o pecado do mundo, Maria não é passível de julgamento. Com a Assunção, está fora da lógica destes “fins últimos”. E nos é apresentada como sendo assumida diretamente por Deus, pois soube assumir o Filho, fazendo-se permeável à Palavra. O que reter de tudo isto? Compreendamos primeiro que todas as crenças cristãs, expressas e solidificadas pelos dogmas, querem dizer alguma coisa, inclusive as teologias do juízo. Maria já ressuscitou, na ressurreição do seu filho.

Maria e nós

Maria foi de fato cabalmente julgada, no sentido bíblico de pôr-se à prova, de ser “testada”, no julgamento que se realiza, para ela como para nós, ao longo dos acontecimentos da existência. E que, de certo modo, está fora do tempo, do outro lado da fronteira que separa o nosso tempo da eternidade. Nos caminhos que percorremos, e que podem se figurar por uma linha horizontal, temos de fazer escolhas. E, a cada vez, as nossas decisões têm como que um eco na verticalidade que nos ultrapassa e que chamamos de eternidade. Para Maria, houve um primeiro julgamento logo no começo, em sua escolha inicial. Na Anunciação, coube primeiro a ela julgar se a Palavra que lhe foi dirigida era acreditável ou não. Ao decidir pelo “acreditável”, manifestou-se crente e, por aí, encontrou-se julgada, revelando-se aberta a esta Palavra fecundante. No outro extremo da sua vida e dos evangelhos, temos o juízo-prova final: a mãe está ao pé da cruz do filho. Ela não desertou. Em Lucas 2,34-35, Simeão bem lhe havia dito que a espada dos dois gumes da Palavra traspassaria a sua alma e que se revelariam os seus pensamentos mais íntimos (Hebreus 4,12-13). Estando junto a Jesus crucificado, estava com ele já também na Vida. Maria projeta diante de nós o percurso do nosso próprio itinerário. A Assunção é tudo isto. Conservemos a imagem de Maria arrebatada ao céu pelos anjos, mas sabendo que isto é apenas uma imagem: cabe a nós descobrir todos os seus significados.

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«Pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a Imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial»: foi com estas palavras que, a 1 de novembro de 1950, Pio XII proclamou o dogma da Assunção através da constituição apostólica “Munificentissimus Deus”. Um acontecimento que tem a fonte na tradição da Igreja, longamente amadurecida ao longo de um século de teologia mariana.

No entanto, nada se sabe do fim da vida terrestre de Maria. Só um escrito apócrifo do século V, “A Dormição de Maria”, evoca os seus últimos instantes. Rodeada pelos apóstolos em oração, é conduzida ao Paraíso por Cristo. Mas as palavras, estas sim, bíblicas, da anunciação do anjo a Maria, «cheia de graça, o Senhor está contigo», dizem já a comunhão total com Deus que significa a Assunção.

Muito cedo, com efeito, os cristãos tiveram o pressentimento que a Mãe de Deus, preservada de todo o pecado, não poderia ter conhecido a corrupção da morte. Uma intuição que vai ser aprofundada pelos Padres da Igreja, em particular S. João Damasceno, que assim escreveu:

«Convinha que aquela que guardara ilesa a virgindade no parto, conservasse o seu corpo, mesmo depois da morte, imune de toda corrupção. Convinha que aquela que trouxera no seio o Criador como criancinha fosse morar nos tabernáculos divinos. Convinha que a esposa, desposada pelo Pai, habitasse na câmara nupcial dos céus. Convinha que, tendo demorado o olhar no seu Filho na cruz e recebido no peito a espada da dor, ausente no parto, o contemplasse assentado junto do Pai. Convinha que a Mãe de Deus possuísse tudo o que pertence ao Filho e fosse venerada por toda a criatura como mãe e serva de Deus».

Através da encíclica “Deiparae Virginis”, publicada em maio de 1946, Pio XII pede a todos os bispos do mundo para se pronunciarem sobre o dogma da Assunção. A resposta é quase unânime

No século VI, a festa da Dormição já é celebrada no Oriente, pelos meados de janeiro. Mais tarde, o imperador Maurício (582-602) vai fixá-la, definitivamente, a 15 de agosto.

A festa chega a Roma graças ao papa Teodoro (642-649), originário de Constantinopla. Aos poucos, difunde-se no Ocidente: em 813, o concílio de Mayence impõe-na ao conjunto do Império Franco. Progressivamente, a festa vai tomar o nome de Assunção, ainda que haja diferença entre Assunção e Dormição, e a Igreja não sente a necessidade de tornar esta crença em dogma.

É após a proclamação, por Pio IX, do dogma da Imaculada Conceição, na grande corrente de devoção mariana do século XIX, que começam a afluir a Roma petições para que seja oficialmente definido o dogma da Assunção. Entre 1854 e 1945, oito milhões escrevem à Santa Sé neste sentido. Números aos quais se acrescentam as petições de 1322 bispos (representando 80% das sedes episcopais) e 83 mil padres, religiosos e religiosas.

Perante estes repetidos pedidos, Pio XII, através da encíclica “Deiparae Virginis”, publicada em maio de 1946, pede a todos os bispos do mundo para se pronunciarem. A resposta é quase unânime: 90% são favoráveis. A maior parte dos 10% restantes interrogam-se sobre a oportunidade dessa declaração, e só seis bispos emitem dúvidas sobre o carácter “revelado” da Assunção de Maria.

Maria prefigura o que espera o final dos tempos para as pessoas salvas. Esse mistério, que poderíamos denominar da nossa transfiguração, já está presente em nós. Como Maria, ele conduzir-nos-á aos pés da cruz, e será aí que a nossa fé será verdadeiramente colocada à prova

A proclamação do dogma é acompanhada de celebrações grandiosas. Trata-se, até hoje, do único caso em que a infalibilidade pontifícia, tal como foi definida no concílio Vaticano I, foi concretizada.

A Assunção (do latim “ad-sumere”, tomar para si, assumir, distinguindo-se de ascensão (subir, elevar-se), referida a Jesus) sublinha a iniciativa divina – Maria não se eleva por si, mas é assumida por Deus.

Primeira criatura humana a entrar com o seu corpo e alma na glória de Deus, Maria prefigura o que espera o final dos tempos para as pessoas salvas. Esse mistério, que poderíamos denominar da nossa transfiguração, já está presente em nós. Como Maria, ele conduzir-nos-á aos pés da cruz, e será aí que a nossa fé será verdadeiramente colocada à prova, mas também será junto dela que escutaremos: «Eis a tua mãe» (João 19,27).

A solenidade da Assunção constitui também um contraponto ao «risco de considerar que se encontra aqui, neste mundo onde só estamos de passagem, a derradeira finalidade da existência humana. Ao contrário, o Paraíso é a verdadeira meta da nossa peregrinação terrena.

Como seriam diferentes os nossos dias, se fossem animados por esta perspetiva! Assim foi para os santos. As suas existências testemunham que quando se vive com o coração constantemente orientado para o céu, as realidades terrenas são vividas no seu justo valor porque são iluminadas pela verdade eterna do amor divino» (Bento XVI).

Edição: Rui Jorge Martins
Fontes: Croire (1) (2)
Publicado em 13.08.2020
http://www.snpcultura.org