O Pão do 
16° Domingo do Tempo Comum (ciclo C)
Lucas 10,38-42


hospitalidade1

Referências bíblicas:
1ª leitura: Génesis 18, 1-10
2ª leitura: Colossenses 1, 24-28
Evangelho: Lucas 10, 38-42


Enquanto caminhavam, Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Marta, o recebeu em sua casa. Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e ficou escutando a sua palavra. Marta estava ocupada com muitos afazeres. Aproximou-se e falou: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço? Manda que ela venha ajudar-me!“. O Senhor, porém, respondeu: “Marta, Marta! Você se preocupa e anda agitada com muitas coisas; porém, uma só coisa é necessária, Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada“.

Acolher a Palavra
Marcel Domergue sj

A palavra criadora

O tema da palavra é inesgotável. Limitemo-nos a algumas poucas observações. Sempre que tomo a palavra é com vistas a estabelecer uma ligação, uma relação com algum outro. Mais: quando, no princípio do quarto evangelho, lemos “No começo era o Verbo”, podemos traduzir: “No começo (quer dizer, na raiz de todas as coisas) era a Relação”. O que me constitui é, portanto, este vínculo que me religa a algum outro, ao Outro. Pela palavra eu me torno eu mesmo, saindo de mim. Mas não sou apenas quem fala, sou também aquele que escuta. Pela escuta, dou licença ao outro para penetrar em mim, para transformar-me, para constituir-me, para me fazer existir. Por aí, dou existência também a este outro, fazendo dele um criador. As Escrituras comparam muitas vezes a palavra com a semente, como em Lucas 8,11, por exemplo. Podemos até ver alguma semelhança com a fecundação sexual. Temos aqui, então, aos pés de Jesus, Maria que escuta a palavra que a faz existir. Está sentada, ou seja, conforme o contexto, em posição de repouso, de inatividade. Inteiramente receptiva. Já Marta é só movimento. É ela quem toma a palavra, enquanto o texto deixa Maria totalmente muda. De um lado, a figura da atividade, de outro, a figura do abandono, ligada ao acolhimento confiante.

O pão e a palavra

Lembremos que Jesus, quando tentado a transformar as pedras em pão, responde ao tentador citando Deuteronômio 8,3: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.” Marta, assumindo todas as providências pela recepção, ocupa-se unicamente dos alimentos sólidos, do “pão”. À primeira vista, conforme citações, aliás, de vários textos dos dois Testamentos, ela tem razão. É muito bonito dedicar-se à contemplação e à leitura assídua de livros espirituais, semear ou escutar a “boa palavra”, mas isto não alimenta quem tem fome. A fé só se verifica nas ações por ela geradas. Lembremos Tiago 2,16-17: “Se o irmão ou irmã estiverem nus e carentes do pão de cada dia e algum de vós lhes disser: “Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos”, sem lhes ter dado com que satisfazer às necessidades do corpo, que adiantaria? Assim também a simples fé, se não produz obras, está morta.” Marta está, pois, com a verdade ao empenhar-se por servir a refeição. Com toda certeza, podemos pensar que Jesus não a criticou por seu trabalho, mas, sim, por sua inquietude e sua agitação (versículo 41). Ela ainda não descobriu que podemos nos entregar à ação, recebendo-a de Deus, de todo modo, em atitude de escuta, de confiança e de paz. Neste ponto, Maria e Marta podem se reconciliar, conciliando as suas maneiras de se por em escuta e a serviço do Cristo. A ação pode tornar-se oração.

O único alimento necessário

O pão é para ser comido; a palavra também. Não se fala em devorar um livro? Em beber as palavras de um notável orador? Em Ezequiel 2,8-3,3 e no Apocalipse 10,10, o profeta recebe a ordem de comer o Livro. Um livro cheio de doçura, mas cheio também de amargura. O gosto horrível do mal sofrido e causado pelo homem e a doçura incrível de se ver tomado sob os cuidados do próprio Deus em tudo o que temos de atravessar. Fazer nossa a Palavra, absorvendo-a em nossa intimidade, coloca-nos em condições de esposar e fazer frutificar tudo o de que de bom e de mal constitui a nossa vida. Maria escolheu a melhor parte porque, fazendo sua a palavra de Jesus, tornou-se capaz de transformar para melhor tudo o que irá acontecer em sua existência, inclusive, no horizonte, a crucifixão do Cristo, onde se amassará o pão para a vida eterna. Devemos notar que os evangelistas situam muitos acontecimentos importantes no contexto de uma refeição. É assim em Mateus 9, em que uma refeição se segue ao chamamento do apóstolo, com a revelação da missão de Jesus; assim também em Lucas 7, quando a prostituta, figura de todos os homens pecadores, é acolhida na amizade de Deus; e também na história de Zaqueu, em Lucas 19. Além disso, é claro, na última Ceia. A história de Marta e Maria é toda ela construída sobre a metáfora da refeição. Marta, inquieta, multiplica os pratos (as “muitas coisas” do versículo 41). Jesus declara que um único alimento é necessário, a melhor “parte” que Maria escolheu.

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Discípulas de Jesus
Ana Maria Casarotti

Alguns domingos atrás lemos o texto do Evangelho de Lucas quando Jesus toma a firme decisão de ir a Jerusalém e continuar ensinando às pessoas que estão junto dele o que significa ser seus discípulos e discípulas.

Junto deles caminhamos com Jesus e recebemos a novidade de sua mensagem. No domingo passado Jesus narra a parábola do samaritano respondendo à pergunta do levita “quem é meu próximo?”.

Hoje acompanhamos Jesus, que está hospedado na casa de duas amigas, Marta e Maria, que o recebem com grande carinho e esmero.

Ao longo da história este texto foi lido como se houvesse uma oposição entre a vida ativa e a vida dedicada à oração. Mas isso hoje não tem fundamentação e podemos ter outra leitura.

Num primeiro momento apreciamos que Lucas continua priorizando a relação de Jesus com as mulheres. Não podemos esquecer que para um judeu a mulher era impura e por isso um homem que deseja ser fiel ao ritual não deve deixar-se tocar por mulher e menos ainda hospedar-se na casa de duas mulheres.

Mas Jesus tem uma relação de amizade com estas duas irmãs e, através das diferentes reações de cada uma delas na sua relação com ele, continua ensinando-nos como crescer como discípulos/as.

hospitalidade é, sem dúvida, uma característica muito desenvolvida na cultura oriental. Já no livro do Gênesis, relata-se a hospitalidade generosa que oferecem Abraão e Sara aos três peregrinos perto do carvalho de Mamré (18,1-10). Hospitalidade que é recompensada com o cumprimento da promessa de um filho na velhice.

Marta e Maria acolhem Jesus na sua casa, abrem as portas de sua vida para que ele entre e fique com elas. Pensamos nos refugiados que saíram de seus países procurando um destino melhor e atravessando situações de morte, mas eles procuram alguém que os receba, que os acolha.

Como disse Claudio Monge numa entrevista: Um Ocidente anestesiado na sua capacidade de hospitalidade. Entrevista especial com Claudio Monge: “Depois de termos experimentado tantos paradigmas de diálogo, parece que a perspectiva da hospitalidade pode nos levar mais longe. Hoje se diz que vivemos uma crise de diálogo porque as identidades são muito fortes e por isso se conflituam; mas para mim é o contrário, as identidades são muito fracas, por isso se combatem ou se fecham em si próprias. Não há acolhimento se não houver identidade, porque a hospitalidade acolhe o estrangeiro, sem fazê-lo entrar em “sua tenda”, como Abraão, sem querer englobá-lo dentro da própria identidade, mas respeitando sua alteridade. É isso que mantém em pé o diálogo.

Podemos refletir sobre nossa capacidade de acolhida e hospitalidade. Como a praticamos? Numa cultura de tanta solidão e isolamento nossas comunidades, casas, nossas pessoas são acolhedoras dos peregrinos, visitantes, estrangeiros?

A hospitalidade: direito de todos e dever para todos, escreve Leonardo Boff: “Se queremos uma paz perene e não apenas uma trégua ou uma pacificação momentânea, devemos viver a hospitalidade universal e respeitar os direitos universais”.

Voltando ao nosso texto, apreciamos o carinho de Jesus por Marta e Maria, gosta de estar com elas, sente-se à vontade na sua companhia. As duas são suas amigas, suas discípulas.

O que é diferente é a atitude que as irmãs têm em referência a Jesus, e ali está talvez a intenção do evangelista de mostrar um itinerário de crescimento para os/as discípulos/as de Jesus.

Maria, transgredindo os prejuízos culturais e religiosos, fica sentada aos pés de Jesus como uma verdadeira discípula na escuta do seu Mestre. Escuta sua Palavra, dialoga com ele.

Mas Marta o recebe tentando preparar tudo para seu convidado; ela o acolhe como mulher de sua época. O diálogo que ele tem com Jesus mostra uma grande confiança, apresenta-lhe sua queixa sobre sua irmã, que está deixando-a sozinha com todas as tarefas.

E Jesus responde-lhe de uma forma inesperada: “Marta, Marta! Você se preocupa e anda agitada com muitas coisas; porém, uma só coisa é necessária, Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada.”

Marta está agitada e preocupada com muitas coisas porque somente uma coisa é importante!

Se olharmos para nossa vida, sem dúvida descobriremos que muitas vezes ficamos preocupados e agitados como Marta por tantas coisas, situações que consideramos importantes e esquecemos aquilo que é importante.

Alguns exegetas relacionam a atitude de Marta “agoniada por tantas coisas” com as exigências que gerava a Lei dos judeus que os fazia esquecer do próximo, como lemos na semana passada, daquele/a que estava ao seu lado.

Alguns exegetas relacionam a atitude de Marta “agoniada por tantas coisas” com as exigências que gerava a Lei dos judeus que os fazia esquecer do próximo, como lemos na semana passada, daquele/a que estava ao seu lado.

Jesus a chama: “Marta, Marta…”. E ao colocar o nome de Marta duas vezes, Jesus está também fazendo alusão ao estilo que no Primeiro Testamento se usava para narrar o chamado de Deus.

Ele está convidando Marta a segui-lo de outra forma, mais livre, sem tanta normativa, e crescer assim como discípula dele.

Mas para isso deve abandonar o antigo cumprimento da Lei e receber a Boa Nova com toda sua novidade e originalidade. No caso de Marta, passar a ser uma mulher livre de prejuízos e preconceitos, assumindo, assim, também ela sua dignidade de discípula de Jesus.

Cabe perguntar-nos de onde tira força Maria para protagonizar esta mudança cultural e religiosa, e assim sem mais se colocar aos pés de Jesus?

Jesus disse a Marta: “Maria escolheu a melhor parte”, escolheu estar com ele, colocar Jesus no centro de sua vida. Mas para poder fazer isso, antes esta mulher conheceu profundamente o amor de Jesus por ela.

Esse amor lhe deu forças para deixar de lado tudo aquilo que não a ajudasse a crescer na amizade com Jesus. Por isso vemo-la aos pés do Mestre, acolhendo ternamente seu olhar, seguindo com seus olhos os gestos de Jesus, escutando e guardando cada uma de suas palavras.

Aí está o segredo do/a discípulo/a de Jesus, cativados/as por Ele. Buscamos acolhê-lo para conhecê-lo e viver como ele viveu!

Qual é nossa resposta, ou atitude diante da presença e convite de Jesus? Peçamos ao Senhor que seu amor nos leve a escolhê-lo como a “melhor parte” de nossa vida.

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Marta e Maria:
Deus não procura servos, mas amigos

Enquanto estavam a caminho… uma mulher de nome Marta hospedou-o na sua casa (Lucas 10, 38-42). Tem a exaustão da viagem nos pés, a fadiga da dor de muitos nos olhos. Por isso, repousar na frescura amiga de uma casa, comer em companhia sorridente é um dom, e Jesus acolhe-o com alegria.

Imagino toda a variada caravana recolhida na mesma sala: Maria, contra as regras tradicionais, senta-se aos pés do amigo, bebendo uma a uma todas as suas palavras; os discípulos, à volta, escutam; Marta, a generosa, está sozinha na sua cozinha, acocorada ao braseiro encostada à parede aberta do pátio interior. Alimenta o fogo, controla o caldeirão, levanta-se, passa e volta a passar diante do grupo, a preparar pão e bebidas e mesa, só ela afadigando-se por todos.

Os hóspedes são como os anjos junto aos carvalhos de Mambré, por isso é preciso oferecer-lhes o melhor. Marta teme não o conseguir, e então adianta-se, com a liberdade que lhe dita a amizade, e interpõe-se entre Jesus e a irmã: «Diz-lhe que me ajude!».

Jesus tinha observado longamente o seu trabalho, seguiu-a com os olhos, viu o reverberar das chamas no seu rosto, ouviu os ruídos do espaço ao lado, sentiu o odor do fogo e da comida quando Marta passava, era como se tivesse estado com ela, na cozinha.

Marta não se detém um minuto, Maria, ao contrário, é seduzida, completamente absorta, olhos líquidos de felicidade; Marta agita-se e não pode escutar, Maria, no seu aparente nada fazer, colocou no centro da casa Jesus, o amigo e o profeta

Naquele lugar que nos recorda o nosso corpo, a necessidade do alimento, a luta pela sobrevivência, o gosto das coisas boas, os nossos pequenos prazeres, e depois a transformação dos dons da terra e do sol, também aí habita o Senhor (J. Tolentino).

E Jesus, afetuosamente, como se faz com os amigos, chama Marta e acalma-a («Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas»); não contradiz o coração generoso, mas a agitação que a “distrai” e a impede de ver de que é Jesus tinha verdadeiramente necessidade.

Jesus não suporta que a amiga esteja confinada num papel subalterno de serviços domésticos, queria partilhar com ela muito mais: pensamentos, sonhos, emoções, sabedoria, beleza, até fragilidade e medos. «Maria escolheu a parte boa»: Marta não se detém um minuto, Maria, ao contrário, é seduzida, completamente absorta, olhos líquidos de felicidade; Marta agita-se e não pode escutar, Maria, no seu aparente nada fazer, colocou no centro da casa Jesus, o amigo e o profeta (R. Virgili).

Teve de queimar-lhe o coração naquele dia. E ela tornou-se, como e antes dos discípulos, verdadeira amiga; e depois ventre onde se guarda e de onde germina a semente da Palavra. Porque Deus não procura servos, mas amigos; não procura pessoas que façam coisas para Ele, mas gente que o deixe fazer coisas, que o deixe ser Deus.

Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
http://www.snpcultura.org