15° Domingo do Tempo Comum (ciclo C)
Lucas 10, 25-37


Refugiados

Referências bíblicas:

  • 1ª leitura: “Esta palavra está bem ao teu alcance… para que as possas cumprir” (Deuteronômio 30,10-14).
  • Salmo: Sl. 18(19) – R/ Humildes, buscai a Deus e alegrai-vos: o vosso coração reviverá!
  • 2ª leitura: “Tudo foi criado por meio dele e para ele” (Colossenses 1,15-20).
  • Evangelho: “Quem é o meu próximo?” (Lucas 10,25-37).

Ampliar a nossa sede
José Tolentino Mendonça

Queridos irmãs e irmãos,
Como nos lembra o livro do Deuteronómio, a Palavra de Deus não está longe de nós para que possamos dizer: “Mas como é que eu a posso alcançar? Como é que eu a posso escutar?” Não está inacessível, Deus não está inacessível, Deus está perto de nós, atravessa a nossa história, cruza-Se com os nossos caminhos. Deus é tangível, Deus é visível. E é isso que nós proclamávamos nesse hino extraordinário da Carta aos Colossenses quando nos diz: “Cristo é imagem de Deus invisível.”

Então, para nós cristãos, Deus não é um enigma, Deus não é inescrutável, Deus não é alguém que nunca vimos, que nunca tocamos, cuja proximidade nunca influenciou, nunca entrou pela nossa vida dentro. Pelo contrário, em Cristo nós temos a imagem do Deus invisível. Sentimos a vizinhança de Deus, sentimos a fronteira de Deus completamente próxima dos nossos dias, das nossas horas, dos nossos passos, dos nossos projetos. É uma fronteira próxima porque Deus está, Deus está aqui. No aqui e no agora da nossa vida, Ele está.

A parábola que Jesus conta no diálogo com aquele doutor da Lei, que queria saber como é que havia de ganhar a vida eterna, é uma parábola que vai precisamente nesse sentido a dizer que Deus não é um culto que nós celebramos em Jerusalém, e fica aí tudo. Deus não é um serviço cultual e litúrgico que nós celebramos no Templo e depois deixamos Deus no mistério do Templo, no santo dos santos do Templo. Não, nós encontramos Deus andando em viagem como aquele Samaritano anda em viagem. Ele próprio não ia a Jerusalém, não ia ao Templo, mas Deus ia ao encontro dele.

É muito bela uma frase do profeta Isaías que S. Paulo recupera e cita na Carta aos Romanos que é Deus a dizer: “Eu fiz-me encontrar por aqueles que não me procuravam.“ Quer dizer, Deus não se deixa encontrar só por aqueles que O procuram, mesmo aqueles que não O procuram Deus faz-se encontrar, Deus dá-se a ver. E Deus dá-se a ver onde? Antes de tudo, no encontro com o nosso irmão. Antes de tudo, no encontro com a vida nua, com a vida frágil, com a vida carente, com a vida necessitada. Antes de tudo é aí que Deus Se dá a ver, Se dá a tocar, é aí que Deus Se revela.

Pode acontecer que nós tenhamos o coração fechado, isto é, que estejamos saciados de Deus. A pior coisa para um crente é estar saciado de Deus. Por exemplo, nós vimos à missa e de Deus já temos a nossa dose e não precisamos mais Dele, nem estamos disponíveis para outros encontros com Deus no dizer da vida, na surpresa, no inesperado. Porquê? Porque já fomos ao Templo, já subimos a Jerusalém, já rezámos, já oferecemos o sacrifício e então já estamos desobrigados do encontro com Deus.

Ora, um crente não é aquele que está saciado de Deus, o crente é aquele que tem sede e fome de Deus. Nós estamos aqui não para nos saciarmos mas para ampliarmos a nossa sede, para ampliarmos o nosso desejo de Deus, para fazermos crescer a vontade de O encontrar, a vontade de O ver, para intensificar a nossa busca, a nossa exploração. E por isso, não estamos desobrigados. Pelo contrário, a fé é como um radar, a fé é uma antena, a fé é uma sonda, a fé é um sismógrafo, a fé está sempre numa atenção, numa atitude de atenção. Onde é que Deus está neste momento da minha vida? Onde é que Deus está? Por onde é que Ele está a passar? De que forma surpreendente, de que forma inesperada neste momento Deus está a falar-me? Porque é assim que Deus fala.

Aquele homem andava em viagem, ele era um samaritano. Isto é, era alguém que nunca iria a Jerusalém, fazia a busca de Deus a partir de outra tradição que os Judeus consideravam uma tradição espúria, menor, sem sentido. Ele andava em viagem. E o andar em viagem não o isolava, não insonorizava a sua vida, não o colocava numa cápsula, como tantas vezes a nossa vida está colocada. Mas ele estava atento, o seu coração funcionava, as entranhas de misericórdia funcionavam e quando ele viu aquele homem caído na estrada ele encheu-se de compaixão.

A religião é misericórdia e neste Ano Santo da Misericórdia é preciso nós dizermos isso e nós nos convertermos a isso. Religião é misericórdia. Religião sem misericórdia não é religião, é uma coisa demasiado estreita, é um funil de Deus, é um funil que diminui a força de Deus em vez de intensificar a chegada de Deus ao mundo, reduz Deus, torna Deus mais pobre. Religião é misericórdia, misericórdia. Porque Deus é amor, Deus é entranhas de misericórdia, vísceras de misericórdia.

É interessante que na tradição profética fala-se do útero de Deus. Isto é, Deus tem umas entranhas que geram vida, Deus não é estéril no amor, Ele é um gerador de vida. Deus vive numa gestação de vida permanente. Ele não apenas criou, Ele cria, Ele é essa criação de vida. Neste ano da Misericórdia é muito importante que nos perguntemos por isso: o que é que fazemos nós da misericórdia? Onde é que a colocamos na nossa relação com Deus, na construção de nós mesmos, na forma como habitamos o mundo? O que fazemos da misericórdia?

Aquele homem passou pelo caído na estrada, por aquele homem ferido, e encheu-se de compaixão. E isto é o que transforma a vida: é a compaixão, é colocar-se no lugar do outro, é sentir a dor do outro, sentir a dificuldade do outro. Ele tinha tudo para se afastar mas a misericórdia torna-nos reféns do outro, torna-nos incapazes de nos afastarmos – é um vínculo de solidariedade, é uma empatia espiritual pela situação do outro. Entranhas de misericórdia. Aquele homem encheu-se de compaixão. E com a compaixão ele entra numa espécie de itinerário, é quase como se fosse uma oração. Porque ele aproximou-se, ligou-lhe as feridas deitando azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. A sequência dos verbos é como se fosse uma oração. É a grande oração do amor, do cuidado pelo outro, do ligar o coração do outro, do tratar das suas feridas. Essa é que é a grande oração.

Uma vez encontrei uma pintora que estava a trabalhar as parábolas de Jesus, e uma parábola que ela tratou no seu trabalho artístico foi esta parábola. Ela depois designou a exposição “A noite do samaritano.” Porque ela disse: “Eu li muitas vezes a parábola do Bom Samaritano mas só ao fim de muito tempo é que eu descobri isto: o samaritano passou uma noite inteira junto daquele ferido, passou uma noite inteira a cuidar dele. Então, o que me interessa é tratar a noite do samaritano.” Isto é, aquela noite, aquele tempo longo, aquele gesto talvez desmesurado de amor, de compaixão pelo outro que ocupa a noite inteira. E ele, possivelmente, ficou em vigília toda aquela noite, cuidando do outro. Essa noite, a noite do samaritano é a noite de Deus na nossa vida.

Queridos irmãs e irmãos, nós somos chamados neste Ano Santo a redescobrir a misericórdia. E a misericórdia não é uma coisa teórica é, antes de tudo, a capacidade de sentir compaixão, sentir compaixão. Nós, por muitas razões, tornamo-nos duros de coração, desconfiamos do outro, achamos que o outro não merece, que não vale a pena, desistimos, descartamos. E a misericórdia é alguma coisa que aos poucos vai sendo declarada impossível na nossa vida. Porque nós vemos uma situação e levantamos logo isto, mais aquilo, mais aquele outro e a verdade é que passamos ao lado das situações em vez de nos envolvermos com elas.

É claro que pegar neste homem caído trocou as voltas à vida do samaritano, completamente, deu-lhe cabo da viagem possivelmente, ou transformou-o completamente, ou essas coisas todas. Porque dá trabalho, dá que fazer. Mas naquela sua noite, naquele seu gesto aquele samaritano tocou o mistério de Deus.

Às vezes Deus parece que está ausente, Deus está calado, Deus está silenciado na nossa vida porque simplesmente nós estamos a passar ao lado de Deus. E estamos à espera que Deus nos apareça limpinho, sublime, sobre as nuvens a cair e Deus está caído na rua, Deus tem piolhos, Deus cheira mal, Deus tem a vida desordenada, Deus merecia estar preso, Deus merecia estar excluído. Deus é assim, Deus não toma banho, Deus cheira mal, não cheira bem. Isto é, o encontro com Deus é o encontro com os últimos, é o encontro que só a misericórdia sustenta. Há um encontro com Deus que só a misericórdia sustenta e por isso nós temos de abrir o coração. É um desafio muito grande, este desafio ao cuidado da vida frágil, ao cuidado da vida pobre.

Vamos rezar ao Senhor por cada um de nós. No fundo, o grande desafio é tornarmos a nossa vida uma parábola de misericórdia, que a nossa vida seja uma parábola. Não tem de ser esta do Bom Samaritano, mas a nossa vida tem de ser uma história de misericórdia e tem que ter histórias de misericórdia. Este Ano Santo da Misericórdia ficaria incompleto se nós não protagonizarmos uma história de misericórdia que é chamada a acontecer nas nossas vidas.

Vamos por isso rezar para que o Espírito Santo nos inspire e que este tempo de férias, este tempo diferente do resto do ano seja também uma oportunidade dada à misericórdia nas nossas vidas.

José Tolentino Mendonça, Domingo XV do Tempo Comum

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Deus sempre tão próximo e tão cheio de amor
Marcel Domergue sj

Quem é o meu próximo?

Em princípio, «próximo» refere-se ao espaço: está próximo quem se encontra na proximidade. Afinando mais, está próximo quem não se acha distante, também os de quem não nos mantemos distantes. Não se trata, pois, somente de espaço físico, mas de uma atitude mental. Nem mesmo as relações de parentesco são quanto a isto suficientes: numa família, podemos ter uns que são mais próximos e, outros, mais afastados, afetiva ou geograficamente. Quando o doutor da Lei pergunta a Jesus « quem é o meu próximo?», está falando como se “o próximo” fosse algo previamente dado, como se fosse possível identificá-lo a partir de certos princípios como a origem, a nacionalidade, a religião, a etnia, o nível cultural… A parábola do Samaritano obriga-nos a mudar de perspectiva. «Certo homem descia de Jerusalém para Jericó…» “Certo homem”, não importa quem. Seria judeu? O texto não diz. Mas, supondo que sim em virtude da geografia (pois descia de Jerusalém para Jericó), o sacerdote e o levita que passam por este caminho são seus compatriotas, seus «próximos». Notemos que estes dois personagens são especialistas da Lei e que a questão posta logo no início do relato refere-se precisamente à Lei. Lei que permanece aberta para além dela mesma, pois que não diz quem é este próximo a quem é preciso amar como a si mesmo.

Aquele que se aproxima

O próximo não é, portanto, algo que seja dado por antecipação. Quem foi o próximo do homem ferido? Aquele que se aproximou dele. Até aquele momento, nenhum dos dois era próximo um do outro. Mas, daí em diante, o ferido poderá amar o Samaritano como a si mesmo, pois que este se fez próximo dele. Vemos, então, que se tornar próximo é uma tarefa a ser cumprida, é resultado de um deslocamento. Estes dois homens, que nem sequer se conheciam, transformaram-se em próximos. O que está em jogo nesta parábola é considerável. Com efeito, quando se põe em cena um doutor da Lei que busca determinar a condição requerida para obter-se a vida eterna colocando a frente os dois mandamentos que se fazem um só e recapitulam o Decálogo sem que dele façam parte (o primeiro, tirado do Deuteronômio 6,5 e o segundo do Levítico 19,18), tal relato situa-nos em pleno judaísmo, a religião do reino do Sul (tribo de Judá). Universo este que em grande parte é estranho à Samaria, o reino do Norte. Ao escolher um Samaritano como exemplo de quem cumpre o que deve ser feito para «receber em herança a vida eterna» (v. 25), Jesus nos faz compreender que o acesso a Deus não é uma questão de etiqueta religiosa nem de pertencimento a algum grupo determinado, mesmo sendo este detentor de uma verdade incontestável. O amor, que é presença de Deus, pode nascer não importa onde, não importa de quem. Sob a condição de não se lhe opor obstáculo. Admiremos a audácia de Jesus que ousa prescrever a um doutor da Lei imitar um Samaritano.

Para além da parábola

Podemos, é claro, nos demorar um pouco mais na solicitude do Samaritano, em como ele assume o cuidado do ferido, na recomendação e na remuneração adiantada que faz ao dono da pensão etc. Um detalhe, contudo, nos deve alertar: o Samaritano voltará. Ora, quem é que nos tomou aos seus cuidados e que voltará para completar a sua obra senão o próprio Cristo? Mas este tipo de reflexão ultrapassa com certeza a lição mais direta da parábola. Não tem importância, deixemo-nos segui-la! Somos nós, este homem ferido pelos assaltantes e jogado meio que morto no fosso da estrada… Somos nós que estamos destroçados, sem forças, incapazes de nos levantarmos. Mas eis que o Cristo, que, para nós, é de certo modo o estrangeiro por excelência, está aí. Veio para assumir em si mesmo todas as nossas aflições e desgraças, tornando-as suas; veio para nos curar. Indo bem mais longe ainda do que o Samaritano, pois assumiu o nosso mal em seu próprio corpo. Invertamos, pois, os papéis: eis aí Jesus, despojado, prisioneiro, faminto, ferido e derrubado no fosso da estrada. Está aí discretamente, à margem do caminho que pode ser percorrido sem que se atente para a sua presença, sem que se o veja. E nós, vamos nos tornar seus próximos? Lembremos Mateus 25,34-45: «Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era um sem teto e me acolhestes». Assim como a lei da caridade (1ª leitura) que, sendo tão próxima, é inútil buscá-la mais longe, pois que reside em nosso coração, também o Cristo não está longe de nós: está aqui sob os nossos olhos, nos fossos que cavamos e nas cruzes que erguemos.

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