VI Domingo de PÁSCOA (ciclo C)
João 14,23-29


cenacolo

Referências bíblicas

1ª leitura: «Decidimos, o Espírito Santo e nós, não vos impor nenhum fardo, além destas coisas indispensáveis.» (Atos 15,1-2.22-29)
Salmo: 66(67) – R/ Que as nações vos glorifiquem, ó Senhor, que todas as nações vos glorifiquem!
2ª leitura: «Mostrou-me a Cidade santa, Jerusalém, descendo do céu.» (Apocalipse 21,10-14.22-23)
Evangelho: «O Espírito Santo vos recordará tudo o que eu vos tenho dito» (João 14,23-29)

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou”
Marcel Domergue s

Jesus que parte e que vem!

Vive Jesus os últimos momentos entre os seus amigos, segundo, ao menos, o modo de presença habitual que conhecemos em nossas relações mútuas. Daí para frente, nada será mais como antes. Jesus parte e, no entanto, não se ausenta: um paradoxo!

“Vou, mas voltarei a vós.” Virá com o Pai, fazer sua morada nos que o amam. Mas o que é amar a Cristo? É permanecer fiel à sua palavra. Jesus habita, portanto, todos os que guardam a sua palavra. Que palavra? O “novo mandamento” que ele nos deixou. Aquele mandamento que substitui todos os outros, porque contém todos eles: amar-nos uns aos outros.

O nosso amor a Cristo se materializa, se podemos dizer assim, em nosso amor ao “próximo”. E ficamos sabendo que fazemos alguém ser um próximo nosso na medida em que nos aproximamos dele (Lucas 10,29 e 36-37). Transformar o outro em nosso próximo é a mesma conduta assumida pelo Verbo quando se fez carne, só que num grau e num sentido inimagináveis.

Desde então, a humanidade toda é presença do Cristo. Fazer-nos próximos uns dos outros é tornar-nos próximos de Cristo, para uma habitação mútua. Deste modo é que Deus, os outros e cada um de nós entramos na mais estreita união de um corpo único.

O Deus Uno realiza a unidade. Ele une porque é n’Ele mesmo União, como diz Santo Inácio de Antioquia em sua carta aos Tralianos. Está bem, mas de nós se requer a nossa liberdade, para que esta união se faça.

“O Pai é maior do que eu.”

“Maior do que eu”, diz Jesus. Uma fórmula que não é muito considerada pelos teólogos. Parece dizer que o Filho é inferior ao Pai, o que vai contra o que a Igreja sempre disse a respeito da Trindade.

Às vezes se quer escapar, dizendo que Cristo fala aqui “enquanto homem” e não enquanto Deus. Ambos “enquanto” nada satisfatórios: deixam crer que o Verbo teria assumido a natureza humana mais do que a natureza divina, num tipo de justaposição que faria de Jesus uma espécie de híbrido.

João 1 diz que “o Verbo se fez carne”: toda a divindade se passou a esta humanidade aí, à humanidade de Jesus. Como diz Santo Irineu, “o que era invisível no Filho era o Pai e o que no Pai era visível, era o Filho” (Cristo).

João 1 diz que “o Verbo se fez carne”: toda a divindade se passou a esta humanidade aí, à humanidade de Jesus. Como diz Santo Irineu, “o que era invisível no Filho era o Pai e o que no Pai era visível, era o Filho” (Cristo).

Jesus, agora, vai deixar este visível, para reunir-se ao “invisível”. E encontrará aí toda a sua grandiosidade, exatamente Ele, que “não usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas se despojou, tomando a forma de escravo” (Filipenses 2,5…). “Nascido de mulher, nascido sob a Lei” (Gálatas 4,4).

Ora, precisamente este homem, que vai se reunir à incomensurável grandiosidade do Pai, é portador da nossa humanidade: estaremos assim, todos, destinados a esta grandiosidade do “maior do que eu”.

“E quando for e vos tiver preparado o lugar, virei novamente e vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais vós também” (João 14,3). É preciso ousar crer nisto para “permanecer na palavra” do Cristo.

O dom do Espírito

O texto não fala somente do Pai e do Cristo, mas também do Espírito, que será enviado como o Filho foi enviado. Para o evangelho de João, o dom do Espírito é o fruto da Paixão do Filho. Em 7,39, está escrito: “não havia ainda Espírito porque Jesus não fora ainda glorificado”. É uma frase surpreendente, posto que a ação do Espírito é mencionada em toda a Bíblia.

Digamos que o Espírito visitava, inspirava, mas não habitava ainda de modo permanente a humanidade: ainda não éramos “templo do Espírito”. À frase de 7,39, é preciso juntar a fórmula polivalente que João usa para expressar a morte de Jesus: “entregou o Espírito”. O seu Espírito, que é também o do Pai e que pode ser chamado de “Amor”. Perfeitamente normal que o seu Espírito tivesse sido entregue, transmitido, na hora em que Cristo havia completado o ato insuperável de amor que pôs Deus no mundo.

O Espírito nos recorda e nos faz compreender o Cristo e tudo o que ele fez e disse. Ele nos concede também ter para com o Pai atitudes filiais: os “modos” do Filho. Conforma-nos, por aí, à Sua imagem… Desde que O deixemos fazer, que Lhe abramos as nossas portas. Nada há no Espírito que não esteja no Filho, nada há no Filho que não esteja no Pai. E tudo isto nos é comunicado.

Nada há, então, em Deus que não acabe por estar também no homem. Temos aí uma fórmula que também convém à Encarnação. O fato de que tenhamos de viver toda esta plenitude em meio a turbulências e tragédias não deve nos transtornar nem atemorizar: a cruz está sempre aí, mas tornou-se fonte de vida.

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”O Espírito Santo, o Consolador, vos ensinará tudo”
Enzo Bianchi

Neste Tempo Pascal, a Igreja continua nos oferecendo os “discursos de despedida” de Jesus (cf. Jo 13,31-16,33), colocados na última ceia, mas que devem ser entendidos como palavras de Jesus glorificado, do Senhor ressuscitado e vivo que se dirige à sua comunidade abrindo-lhe os olhos para o seu presente na história, uma vez ocorrido o seu êxodo deste mundo ao Pai (cf. Jo 13, 1).

Nesse contexto de último encontro entre Jesus e os seus, alguns discípulos lhe fazem perguntas: primeiro Pedro (cf. Jo 13, 36-37), depois Tomé (cf. Jo 14, 5), por fim Judas, não o Iscariotes. Este lhe pergunta: “Senhor, por que vais te manifestar a nós e não ao mundo?” (Jo 14, 22). É uma pergunta que deve ter causado também sofrimento nos discípulos: depois daquela aventura vivida junto com Jesus por anos, ele vai embora e parece que nada realmente mudou na vida do mundo… Uma pequena e diminuta comunidade compreendeu algo porque Jesus se manifestou a ela, mas os outros não viram e não veem nada. Então, a que se reduz a vinda do Filho do homem sobre a terra, a sua vida à espera do reino de Deus iminente que ele proclamava?

Jesus, então, responde: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada”. É por isso que Jesus não se manifesta ao mundo que não crê nele, que lhe é hostil porque não consegue amá-lo: para ter a manifestação de Jesus é preciso amá-lo! Toda vez que se leem essas palavras, ficamos profundamente perturbados: Jesus, filho de Maria e de José, homem como nós, não nos pede apenas para sermos seus discípulos, para observar o seu ensinamento, mas também para amá-lo, porque, amando-o, cumpre-se aquilo que ele quer e, fazendo aquilo que ele quer, amamo-lo.

Em todo caso, aqui o amor é definido como necessário para a relação com Jesus. Amar é uma palavra desafiadora, mas Jesus a utiliza, lendo a relação com o discípulo não só na fé, na obediência ao ensinamento, no seguimento, mas também no amor.

Mais profundamente, Jesus especifica que quem o ama, no amor por ele permanecerá fiel à sua palavra – resumida para o quarto Evangelho no “mandamento novo”, “amem uns aos outros como eu os amei” (Jo 13, 34; 15, 12) –, será amado pelo Pai, de modo que o Pai e o Filho virão fazer sua morada junto dele: habitação de Deus em quem ama Jesus! Se faltar o amor, em vez disso, não haverá reconhecimento dessa presença quando Jesus estiver “ausente”; depois da sua vida terrena, de fato, depois de subir para junto do Pai (cf. Jo 20, 17), Jesus estará ausente, mas, se o amor permanecer, ele estará presente no seu discípulo.

Diante dessas palavras, a nossa compreensão vacila, mas a experiência vivida em uma relação de amor pode vir em nosso socorro, quando o/a amado/a está ausente, mas temos uma certa experiência da sua presença em nós, na expectativa de que retorne e, com a sua presença face a face, renove a relação de amor e a preencha.

Essa é uma experiência do ausente que só os amantes podem conhecer, e Jesus a promete, porém, indicando-a no espaço da fidelidade à sua palavra, da realização dos seus mandamentos. Por isso, ele especifica que a sua palavra, aquela dada aos discípulos e às multidões em toda a sua vida, não era palavra sua, mas sim palavra de Deus, do Pai que o havia enviado ao mundo. Essa palavra, agora dada aos fiéis, que permanece para sempre, é capaz de fazer sentir a presença de Jesus quando a própria palavra for lida, meditada, escutada e realizada pelo cristão; será um sinal, um sacramento eficaz, que gera a Presença do Senhor.

Jesus não está mais entre nós com a sua presença física, como glorificado, ressuscitado pelo Espírito e vivento junto do Pai; mas a sua palavra, conservada na Igreja, torna-o vivo na assembleia que o escuta, Presença divina que faz de cada ouvinte a morada de Deus.

Aquela “Palavra” (Lógos) que “se fez carne (sárx)” (Jo 1, 14) em Jesus de Nazaré fez-se voz (phoné) e, portanto, lógos, palavra dos humanos, e em cada fiel se faz Presença de Deus (Shekinah), faz-se carne (sárx) humana do fiel, continuando a habitar no mundo (cf. Jo 17, 18).

E o Espírito de Deus, que também é o Espírito de Cristo, é absolutamente o artífice de toda essa dinâmica de presença.

  • É o outro Enviado pelo Pai,
  • é o outro Mestre enviado pelo Pai,
  • é o outro Consolador enviado pelo Pai.

Jesus sobe ao Pai, e o Espírito Santo, que era o seu “companheiro inseparável” (Basílio de Cesareia), a partir de Cristo desce sobre todos os fiéis como um Paráclito, chamado ao seu lado como defensor e consolador; será justamente ele quem ensinará todas as coisas, fazendo recordar todas as palavras de Jesus e, ao mesmo tempo, renovando-as no hoje da Igreja. Há uma única diferença entre Jesus e o Consolador: Jesus falava diante dos discípulos que o escutavam, enquanto o Consolador, que, com o Filho e o Pai vem habitar no fiel, fala como um “mestre interior”, com mais força, poderíamos dizer… Nós não somos órfãos, não fomos deixados sozinhos por Jesus, e aquele Deus a quem tínhamos que descobrir fora de nós, diante de nós, agora devemos descobrir em nós como presença que colocou em nós a sua tenda, a sua morada.

Certamente, ao ir embora, Jesus vê a sua obra, aquela que humanamente realizou em obediência ao Pai, “incompleta”, porque os discípulos ainda não entendem, porque a verdade na sua plenitude ainda não é revelável, e ele mesmo ainda teria muitos ensinamentos para dar, muitas coisas para revelar… No entanto, eis que Jesus nos ensina a arte de “deixar ir”: ele vai embora sem ansiedade pela sua comunidade e pelo seu destino, mas, em vez disso, com a confiança de que existe o Espírito, o Consolador e Defensor,

  • que agirá na comunidade que ele deixou;
  • ensinará muitas coisas necessárias e que ele mesmo, Jesus, havia se inibido de ensinar
  • porque a comunidade não estava pronta para recebê-las e compreendê-las;
  • e, sobretudo, dará aos discípulos grande força e muitos dons que eles não possuíam.

“O Espírito Santo vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito”: promessa que vemos realizada na vida da Igreja e na nossa vida, nas nossas histórias. Hoje, compreendemos o Evangelho mais do que ontem, mais do que mil anos atrás. Para a salvação dos homens e das mulheres de ontem, essa compreensão era suficiente, mas, para nós, hoje, é necessária outra compreensão, que se deveu à “corrida” do Evangelho na história (cf. 2Ts 3, 1), porque nela o Evangelho se dilata, e a Igreja o aprofunda, o compreende melhor e mais.

A fé dos grandes Padres da Igreja ainda é a fé da Igreja de hoje, mas muito mais aprofundada. O Evangelho lido no Concílio de Trento é o mesmo Evangelho lido por nós hoje, mas hoje o compreendemos melhor, como afirmava o Papa João XXIII. Estamos no tempo em que o Espírito Santo, que é sempre Espírito do Pai, procedendo dele, mas também Espírito do Filho, por ser seu “companheiro inseparável”, está presente nos caminhos da Igreja e age quando ela o invoca e lhe obedece.

Assim, na Igreja, há paz, o shalom, a vida plena deixada por Jesus, não a paz mundana, mas a paz sustentada pela esperança, porque Jesus disse ainda: “Vou, mas voltarei a vós”. “Ausentou-se o nosso pastor” [recessit Pastor noster], cantamos no responsório do Sábado Santo; mas, neste Tempo Pascal que dura até o dia do Senhor, podemos cantar: “Eis, o nosso Pastor retorna”, porque vem a nós todos os dias nesta descida do Pai e do Filho na força syn-kata-batica, con-descendente do Espírito Santo. Ele vem com a Palavra, fielmente; vem com os eventos da história, nos quais, para além das evidências, está sempre operante; vem na nossa carne que se esforça e luta, mas para ser transfigurada pela sua vinda gloriosa.

Mas nós amamos Jesus? De acordo com as suas afirmações escutadas e interpretadas, de fato, se não o amamos, não somos capazes de permanecer fiéis à sua palavra. Se, ao contrário, vivemos tal amor e tal obediência ao Senhor, a sua vida se torna a nossa vida.

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