O Pão do 6° Domingo do Tempo Comum (ciclo C)
Lucas 6,17.20-26


Felicidade

Referências Bíblicas:

  • 1ª leitura: «Bendito o homem que confia no Senhor» (Jeremias 17,5-8).
  • Salmo: Sl. 1 – R/ É feliz quem a Deus se confia!
  • 2ªleitura: «Se Cristo não ressuscitou, a vossa fé não tem nenhum valor» (1 Coríntios 15,12.16-20)
  • Evangelho: Discurso inaugural de Jesus: as Bem-aventuranças (Lucas 6,17.20-26)

Que felicidade? Para quando?
Marcel Domergue

A montanha

Seja em Lucas seja em Mateus, as Bem-aventuranças estão sempre ligadas à montanha. Por quê? Porque, segundo o Êxodo, Moisés recebeu a Lei na solidão da montanha. Só depois desceu à planície, para comunicá-la ao povo. Em Mateus, Jesus, vendo as multidões, subiu a montanha somente com os discípulos. Já em Lucas, pelo contrário, Jesus desceu à planície para aí encontrar a multidão. Na Bíblia, a montanha é o lugar das manifestações divinas, com certeza por causa da solidão e da proximidade do céu, símbolo da transcendência divina. Nuvens e tempestades… Lucas faz-nos compreender que, agora, esta transcendência faz-se imanência, proximidade. Em Mateus, os discípulos receberam a missão de transmitir a mensagem para o povo. Já em Lucas, mesmo que esta tenha sido endereçada diretamente aos discípulos, a mensagem foi-lhes entregue na presença da multidão. Nos dois casos, é Deus quem fala: até mesmo a palavra de Cristo só chega a nós através dos intermediários. Uma observação, contudo, se impõe: Moisés desceu da montanha empunhando uma Lei, enquanto que, com os evangelistas, esta Lei torna-se uma Boa Nova. Não se trata mais de um conjunto de exigências, mas de um dom. A recompensa que estava prometida à perfeição moral, cede lugar agora à compensação dos males todos que atingem os homens. Teria Deus mudado de ideia? Não, é claro. Mas, primeiro, era preciso que aprendêssemos que somos pecadores e que, por consequência, o amor com o qual Deus nos ama é totalmente gratuito. O «odiaram-me sem motivo» de João 15,25 provoca uma consequência: Deus que nos ama, sem ter motivo nenhum para isso.

A felicidade “agora”

Lucas insiste no «agora». Trata-se do agora, momento de provação; o fim de todos os males é para o futuro. Significa que a alegria anunciada só pode chegar a nós, «agora», através da fé e da esperança. E isto nos permite usar tudo o que temos de suportar como meio para atingir o amor, que é a única Lei que permanece. Assim podemos ser felizes mesmo quando somos atormentados pela fome e pelas lágrimas. A nossa compensação está no futuro, mas a felicidade é imediata. Só que isto não nos parece evidente. Exatamente por isso Jesus faz questão de revelá-lo, repetindo “felizes” ou “bem-aventurados” quatro vezes em Lucas e oito vezes em Mateus. Uma insistência significativa, pois é difícil fazer passar esta Boa Nova. A fé sempre exige que se vá além das aparências. Depositemos nossa fé neste que nos fala, sabendo que ela começa por reconhecer nele a Palavra de Deus. Resulta daí que nada verdadeiramente pode nos fazer mal. Paulo diz que nem a vida nem a morte podem nos separar de Cristo. Ora, fazermo-nos um só com Cristo é fazermo-nos um só com o Ressuscitado. Devemos compreender que podemos sofrer o que há de pior neste mundo sem que sejamos infelizes por causa disso. A verdadeira felicidade se confunde com a certeza de sermos amados, desejados e esperados. Ela deve se conjugar com a paciência. Nossa fé, que obviamente pode muito bem estar presente quando tudo vai bem, estará sendo verificada quando tudo vai mal. Por ela, já estamos na posse do Reino de Deus. Isto não significa que devamos nos entristecer se, no momento, nada temos de sofrer. As nossas alegrias também são imagem e antecipação do Reino, desde que não caiamos na idolatria do que elas nos proporcionam.

A Boa Nova

Jesus nos vem revelar que nem a riqueza nem o sucesso nem o poder nem a celebridade e nem mesmo a saúde podem fazer-nos entrar na Vida. Todos estes bens podem até mesmo provocar em nós comportamentos idolátricos, e devotar-lhes um culto equivale a adorar-nos a nós mesmos. Uma adoração sutil e secreta. Ela se manifesta quando frustramos outro ser humano para obter alguma vantagem, quando alteramos a qualidade da nossa relação com quem quer que seja, para dela tirarmos proveito. Esta qualidade tem o nome de amor. Ela manifesta a presença e o Reino de Deus que é Ele mesmo, amor. O que chega até ao dom da própria vida, para que o outro viva. Jesus viveu este dom, por isso pode nos falar dele. Isto explica a menção em nosso texto da perseguição aos crentes «por causa do Filho do homem». Mesmo se não fazem barulho nas mídias, estas perseguições acontecem em nossos dias. Em geral, as pessoas contentam-se com dar de ombros ao ouvirem a mensagem de Cristo. Eis que chegou o tempo do desprezo, tal como assinala a nossa leitura. Será que temos fé bastante para ficarmos felizes com isso e exultarmos de alegria (versículo 23)? Mas não devemos esquecer que estas palavras de Jesus são uma revelação: ensinam-nos algo que à primeira vista não aparece. Os que sofrem com a pobreza, que têm fome e que choram têm necessidade de alguém que lhes diga não perderem por isso as razões de ser feliz. Mas podemos acaso dizer-lhes isto sem que venhamos em sua ajuda? Jesus mesmo dirigiu-lhes estas palavras somente após ter curado as doenças daquela multidão de toda proveniência, judeus e não judeus. Sua mensagem diz respeito a todos, homens e mulheres: não se trata de nenhuma religião, qualquer que seja ela, mas da nossa adesão ao Filho do homem.
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A felicidade escondida nas bem-aventuranças

“E, levantando os olhos para os seus discípulos, disse: ‘bem-aventurados vós…” (Lc 6,20)
A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, sacerdote jesuíta, comentando o evangelho do 6° Domingo do Tempo Comum – Ciclo C, que corresponde ao texto bíblico de Lucas 6,17.20-26.

“Ser feliz”: não há outra meta mais importante na vida de todos nós. De fato, é tão importante que se converteu em um desejo que repetimos de maneira muito frequente e, de forma especial, para as pessoas que mais amamos. Proferimos os votos de felicidade em qualquer evento, em todos os aniversários, no início de cada ano… Não podemos desprezar o excesso de nossas felicitações, por mais rotineiras que nos pareçam. Elas expressam um desejo profundo, talvez o desejo mais íntimo de nós mesmos.
“Que sejas feliz!” Que melhor sentimento que isso podemos desejar a alguém, seja ele(ela) quem for?

A proposta evangélica de felicidade tem algo a nos dizer em nosso momento atual?
A impressão que temos é que a vivência de muitos cristãos está longe de apresentar a Deus como amigo da felicidade humana, fonte de vida, alegria, saúde; na experiência de fé de muitas pessoas, o seguimento de Jesus, muitas vezes, não se associa com a ideia de “felicidade”.
Predomina, em certos ambientes ou grupos cristãos, uma doutrina dolorida e uma catequese afastada da busca humana da felicidade. O cristianismo se apresentou, durante muito tempo, como a religião da cruz, da dor, do sofrimento, da renúncia, da repressão ao prazer e à felicidade neste mundo.

Diante de tal situação, Jesus, no Evangelho de hoje, afirma categoricamente: “Felizes sois vós!”
Jesus, ao “descer à planície”, promulga seu programa “com” vida, fundado não numa ética de “deveres e obrigações”, mas numa ética de “felicidade e ventura”.
Aqui está a surpreendente novidade do projeto oferecido por Jesus. Sem sombra de dúvida, o significado das bem-aventuranças e, portanto, do programa de Jesus, é algo mais humano, mais próximo e mais ao alcance de ser entendido e vivido por qualquer pessoa de boa vontade.

O Evangelho, a “boa notícia”, é o tesouro que enche o ser humano de uma felicidade indescritível. Com efeito, a primeira característica que aparece nas bem-aventuranças é que o programa de Jesus para os seus é um “programa de felicidade”. Cada afirmação de Jesus começa com a palavra “makárioi”, “ditosos”. Essa palavra, significa, em grego, a condição de quem está livre de preocupações e atribulações cotidianas.
As bem-aventuranças substituem os mandamentos que proíbem por um anúncio que atrai para a felicidade. E a promessa de felicidade não é para depois da morte. Jesus fala da felicidade nesta vida.

Conhecemos duas listas de Bem-aventuranças: a de Lucas e a de Mateus. São bastante distintas, porque uma fala dos pobres e a outra fala dos pobres “em espírito”; uma fala de fome e outra de fome de “justiça”… Costuma-se dizer que as Bem-aventuranças de Lucas são bem-aventuranças “de situação”, e as de Mateus são “de atitude”. Ou seja, enquanto Lucas diz: os que se encontram assim, os que estão nesta situação, são bem-aventurados (os que estão chorando, os que tem fome, os que são pobres…), Mateus diz: os que reagem desta maneira diante dos que choram, dos que são pobres, dos que tem fome… são bem-aventurados. É como a atitude que se toma frente aqueles que Lucas descreveu.

Antes de proclamá-las, Jesus vive intensamente as bem-aventuranças; elas são a expressão daquilo que é mais humano no seu interior; elas são seu auto-retrato. Jesus é o bem-aventurado. Ele personaliza tais atitudes: é o pobre, aquele que se comoveu diante da dor e misérias humanas, que expressa uma fome e sede de plenitude e humanização, que é incompreendido e perseguido por causa dos seus sonhos.

O Jesus que os Evangelhos nos apresentam deixa transparecer, permanentemente, um sentimento sereno e agradecido diante da vida. Ele vive apaixonado pelo Reino do Pai; Ele é um homem aberto e próximo das pessoas, com uma enorme capacidade de relação, de maneira especial diante dos mais pobres e excluídos. Mostra uma infinita confiança nas pessoas que encontra, seja qual for sua situação existencial. Ele é o portador definitivo de boas notícias. O evangelho da salvação chega até às barreiras e fronteiras humanas. Seu tempo é tempo de alegria; é a festa das bodas. Jesus nos convida a entrar na nova vida de felicidade e fraternidade. As bem-aventuranças são o caminho da felicidade.

Jesus, ao proclamar “bem-aventurados” os pobres, os famintos, os que choram, os que são perseguidos… jamais quis sacralizar a dor humana. Ao contrário, são bem-aventurados, sim, os pobres, porque, vazios de apegos e cheios de esperança, anunciam o sonho de Deus para a humanidade, uma nova sociedade baseada na solidariedade e na partilha; são bem-aventurados, sim, os famintos, porque trazem nas entranhas a fome de liberdade e sabem que o ser humano e o mundo carregam infinitas possibilidades de crescimento; são bem-aventurados, sim, os que choram porque suas lágrimas demonstram que eles ainda não perderam a sensibilidade, que eles sentem o mundo como injusto e que, por isso, são verdadeiramente os únicos a sonharem, a buscarem e a lutarem por um mundo novo; são bem-aventurados, sim, os que são perseguidos porque seguem corajosamente a estrela do Reino e são sinal de grande transformação realizada por Deus.

As bem-aventuranças nos revelam que somos habitados por um impulso que nos torna “buscadores de felicidade”. A sociedade de consumo que invadiu tudo, realça a felicidade como a meta imediata de nossas buscas, algo ao qual temos direito e que depende de fatores externos. Esta felicidade é passageira, pois quando a alcançamos, invade de novo a insatisfação, a inquietude, o ressentimento, a inveja… e de novo empreendemos nossa busca. Assim, pois, a felicidade nos escapa quando a buscamos “fora”, como fim em si mesma, para saciar nosso ego insaciável.

A felicidade nasce dentro de nós: daquilo que sentimos, que valorizamos, que vivemos…
Por isso, as bem-aventuranças não são algo externo, mas atitudes que plenificam nossos corações.
A chave da felicidade está em permitir que se revele o sentido da luminosidade que se encontra no fundo de nosso ser. O que nos tira a energia e nos torna impotentes é afastar-nos desse princípio vital que é o Divino em cada ser.
Ser o que somos, em serenidade e profundo sentido. A felicidade, tal como a verdade e a beleza, ao se revelar a nós, desata a potencialidade daquilo que somos e de tudo o que é.

Nesse sentido, felicidade pode ser entendida como um “estado de espírito”; felicidade é viver sem chegada, sem partida; é experimentar uma sensação de renascimento de satisfação interior… ou sentir des-pertar em si um potencial de bondade, de compaixão, de solidariedade…muitas vezes  desconhecida.
A verdadeira felicidade coincide com a paz interior; é o prazer de descobrir, cada dia, que a vida se inicia novamente em cada amanhecer; é fazer da  mesma vida uma grande aventura… Por isso, a felicidade está relacionada com a gratuidade e com a gratidão.

Para meditar na oração
– “empalavrar” (pôr em palavras) as bem-aventuranças que brotam do seu coração, aquelas que lhe inspiram e dão sentido à sua existência, como seguidor(a) de Jesus.

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