5° Domingo do Tempo Comum (ciclo C)
Lucas 5,1-11


Pesca Milagrosa de Jesus

Referências Bíblicas:

1ª leitura: «Aqui estou! Envia-me» (Isaías 6,1-8)
Salmo: Sl 137(138) –
 R/ Vou cantar-vos ante os anjos, ó Senhor.
2ª leitura: 
«É isso o que temos pregado e é isso o que crestes.» (1 Coríntios 15,1-11 ou 3-8.11)
Evangelho: 
«Deixaram tudo e seguiram a Jesus.» (Lucas 5,1-11)

Quem irá por nós?
José Tolentino Mendonça

Queridos irmãs e irmãos,
(…) Papa Francisco na Evangelii Gaudium diz: “O sonho missionário de chegar a todos.” Deus quer chegar a todos, quer tocar o coração de cada pessoa, quer levar a Sua Palavra, a semente da Sua esperança a cada morada. Quer ser a âncora, quer ser a tenda, quer ser o caminho, quer ser a mesa aberta na vida de cada um.

Mas a palavra que Isaías escutou é a palavra que nós escutamos também, essa pergunta que Deus faz: “Quem enviarei? Quem irá por nós?” Quem cumprirá o sonho missionário de chegar a todos? Quem será a presença de Jesus? Quem levará Deus ao horizonte humano? Quem, no concreto da vida, nos dias minúsculos da história poderá testemunhar a grandeza de Deus? Quem irá por nós? Quem falará em nosso nome?

E aqui, perante a grandeza do testemunho, cada um de nós se sente fraco, se sente pecador, se sente indigno, se sente impuro. A verdade é que este sentimento, muito real em cada um de nós, acaba por nos desmobilizar, acaba por ser um travão. Nesse sentido, é muito interessante o ritmo destas três leituras que nos apresentam situações vocacionais gerais do Povo de Deus.

Comecemos por Isaías. Isaías era um cortesão, era um funcionário real, vivia na corte. Ele não era profeta, nem ninguém nasce profeta como nenhum de nós nasce cristão. Nós não nascemos cristãos, nascemos homens e mulheres, depois tornamo-nos cristãos. Isso é uma grande diferença, porque a descoberta do chamamento de Deus, do apelo missionário para nos tornarmos um povo de testemunhas não nasce connosco, é uma descoberta. Muitas vezes a contra gosto, a contraciclo nas nossas vidas.

Isaías nunca pensou ser profeta, mas naquele dia ele assistiu à manifestação de Deus. Temos aqui uma maravilhosa linguagem poética e bíblica: “Viu os querubins, os serafins.” Viu a glória de Deus, testemunhou a glória de Deus. A verdade é que cada um de nós, na nossa vida, em tantos momentos, testemunha de uma forma vibrante, de uma forma real, de uma forma que mexe connosco. Testemunhamos em sobressalto a glória de Deus. E Isaías pensa: “Eu vou morrer porque eu vi a glória de Deus.” Mas quando ele pensa que vai morrer e que está tudo acabado acontece o contrário: vem um anjo com uma tenaz e purifica os lábios dele. Isto é, cura-o, transforma-o da sua fragilidade, do seu pecado e torna-o capaz de testemunhar.

A mesma coisa nós temos com S. Paulo. Paulo era um perseguidor, era um opositor radical da experiência cristã. Ele tinha ido pedir cartas às autoridades de Jerusalém para perseguir os cristãos até Damasco. Isto é, até ao fim do mundo ele havia de prender os cristãos. E precisamente naquele caminho, este homem que depois diz que é o último dos Apóstolos, que nasce como que de um aborto, este homem é tocado por Cristo, é transformado por Cristo. E aquele que era um perseguidor torna-se um apóstolo, torna-se um anunciador.

A mesma coisa nós temos com Pedro. A relação de Jesus com ele contada no Evangelho de Lucas, neste capítulo 5, é extraordinária porque se percebe como Deus vai entrando progressivamente na vida dele, como quem não quer, de uma forma discreta, com pezinhos de lã, como tantas vezes Deus faz na nossa vida. Primeiro nos pede uma coisa e depois nos pede outra, e depois outra e de repente nós percebemos que estamos dentro do Seu projeto, dentro da Sua palavra.

Primeiro Jesus pede a Pedro um barco, o barco está à mão para fazer dele um palco, um pódio para falar à multidão que está na margem do lago. Depois Jesus faz-lhe uma proposta completamente inesperada: “Faz-te ao largo e lança as redes.” E Pedro que é um pescador experiente e vem de uma faina fracassada diz: “Senhor, já labutamos toda a noite e não conseguimos nada, porque é que eu hei de confiar na tua palavra, tu nem pescador és, não sabes nada disto. Eu já experimentei o mar, já sei o que posso tirar e o que não posso, e hoje já arrumei as redes.” E o Senhor diz: “Confia na palavra.” E quando as redes se enchem de peixe, quando Pedro faz até ao fundo a experiência da confiança na Palavra de Jesus ele vem ter com Ele e diz: “Senhor, afasta-te de mim porque sou um homem pecador.”

Nós somos mulheres e homens pecadores os que estamos aqui. Mas o que é que nos afasta de Deus? Não é o pecado que nos afasta de Deus. Não é a nossa fraqueza que nos afasta de Deus. Não é a nossa fragilidade que nos afasta de Deus. O que nos afasta de Deus é sim a autossuficiência, é sim a crosta que nos impede de ver a nossa fragilidade, é sim aquele obstáculo de soberba, de convencimento que não nos deixa perceber o quão carentes estamos da misericórdia de Deus. Por isso, acontece mais vezes na nossa vida que é a virtude a afastar-nos de Deus do que o pecado a afastar-nos de Deus, por contraditório que isto possa parecer. Às vezes quando tudo corre bem, quando está no nosso controle, e nós somos pessoas tão boas e está tudo a rolar, tudo a acontecer, parece que Deus não é necessário na nossa vida. Não precisamos Dele, nós damos conta do recado, nós valemos por nós, nós resolvemos tudo, sabemos tudo. Por vezes quando estamos mergulhados na dor, no sofrimento, na lama, na miséria, quando sentimos a profunda pobreza interior então percebemos que sozinhos não nos salvamos. Precisamos da mão estendida de Deus que toque, que agarre, que transforme a nossa vida.

Por isso, nos Evangelhos nós temos este paradoxo: são os pecadores que melhor escutam a Palavra de Jesus. São aqueles desclassificados, os que estão distantes, que comem e bebem com Ele, e aceitam a Sua proposta e se mobilizam para a transformação interior que a sua Palavra é capaz de despertar. Os justos do tempo, os fariseus e os escribas andavam sempre com duas pedras na mão, sempre com cálculos, sempre a medir, sempre a julgar. É esta condição de mulher e homem pecador, é o assumir da nossa fragilidade com verdade diante de Deus que nos cura, que nos transforma, que abre na nossa vida uma brecha real para Deus atuar, para Deus transformar.

Quando Pedro se abeira de Jesus e diz “Senhor, afasta-te de mim porque sou um homem pecador”, Jesus diz “Pedro, a partir de hoje serás pescador de homens.” É esta condição, é esta palavra de Pedro que mostra que ele tinha as condições necessárias para ser um verdadeiro discípulo do Senhor, para ser enviado não em nome da sua certeza ou da sua virtude, ou das suas estratégias mas para ir cheio de Deus e ir em nome de Deus.

Queridos irmãs e irmãos, é tão importante não reduzirmos a nossa experiência cristã a uma espécie de moralismo onde nos julgamos uns aos outros, como um clube de bem-comportados. A fé e a Igreja não é isso, é outra coisa. São mulheres e homens com os pés assentes na terra, que não são melhores do que os outros, muitas vezes são até piores do que outros que não têm fé. E contudo, atiram a sua pobreza, a sua miséria para os pés do Senhor. E contudo, sabem que o Senhor é capaz de transformar até o nosso lixo em coisas preciosas, que o Senhor é capaz de tornar cada um de nós vaso da sua eleição, instrumento do Seu Evangelho, do Seu Reino, e por isso nos colocamos com confiança.

(…) Se calhar nós já somos cristãos há décadas mas nunca fizemos uma ação de evangelização, nunca falamos do Evangelho, nunca anunciamos o Evangelho. Achamos que anunciar o Evangelho é para os outros, para os outros evangélicos ou para as testemunhas de Jeová, e muitas vezes o nosso grande pecado é o pecado da omissão, é o pecado da abstenção. Nós vemos mas não dizemos, não falamos, não fazemos a proposta. Não é impor, é não fazemos a proposta. E muitas vezes o coração do outro é uma terra boa, é uma terra que está à espera daquela semente, mas ele não a recebe de nós. Por omissão, por vergonha, por respeito humano, porque também nós nos sentimos pecadores e dizemos: “Então sou eu que vou anunciar? Eu que ainda não vivo completamente, eu que, eu que, eu que…” E perdemo-nos, e o Evangelho não é o que podia ser, e não se multiplica. A vida não se multiplica porque nós ficamos presos a uma consciência de culpa, em vez de ficar presos ao dinamismo da confiança.

Queridos irmãs e irmãos, este sonho missionário de chegar a todos tem verdadeiramente de tocar-nos e de fazer-nos experimentar radicalmente a força da Palavra. É tão maravilhoso isto que acontece com Pedro. Imaginemos que ele estava ali, Jesus estava no barco dele mas estava a falar a outros, para outros e estava simplesmente a falar. Mas uma coisa é falar outra é experimentar, é sentir na sua própria história, na sua própria carne a transformação. Mas quando Jesus acaba de falar aos outros também fala com ele e diz: “Faz-te ao largo, lança as tuas redes.” E é preso a esta Palavra que a vida de Pedro se torna outra coisa. Para nós não é diferente, para nós não é de outra maneira, é quando nos amarramos com confiança à Palavra do Senhor que a vida se transforma, não é de outra maneira. É quando nos amarramos com confiança à Palavra que a nossa vida se transforma. É quando confiamos no risco da sua Palavra, quando depois de termos limpo as redes o Senhor ainda nos manda atirar outra vez, quando depois de noites fracassadas o Senhor ainda nos manda arriscar, quando nós não vemos como e o Senhor diz-nos uma palavra no sentido que a gente não quer ou não espera, mas avança, mas acredita, mas faz-se ao largo que a vida verdadeiramente se transforma.

Vamos rezar por cada um de nós, para que este sonho missionário de Deus possa contagiar o nosso coração, e sentirmos verdadeiramente que a religião não é uma medalha de bom comportamento, a religião é, com todas as ganas, com todas as vísceras, com todas as nossas entranhas nós confiarmos, nós acreditarmos, em todas as situações da nossa vida. É essa confiança, esse atirar-se na sua pobreza para os pés de Jesus.

José Tolentino Mendonça, Domingo V do Tempo Comum
http://www.capeladorato.org

Deixaram tudo e seguiram a Jesus
P. Marcel Domergue

Rumo às águas profundas

No evangelho, Jesus está cercado por uma multidão entusiasmada. Mais afastados, pescadores lavam suas redes, indiferentes, ao que parece, à presença e às palavras de Jesus. Estes são, no entanto, os homens que Jesus chama e escolhe. Começa pedindo-lhes um pequeno favor: apertado no meio da multidão, estará mais a vontade a bordo de seu barco, para falar a todas as pessoas. Nas Escrituras, temos vários exemplos desta espécie de preferência divina pelos que estão mais afastados. Lembremos a viúva e o leproso do evangelho do domingo passado; da escolha de Davi, o caçula esquecido, retirado de trás da fila de ovelhas, para tornar-se o pastor de Israel, o povo de Deus (ver Salmo 78,70-72). Lembremos também da centésima ovelha que, por estar perdida, ganha maior importância do que as outras 99… Os que irão se tornar as colunas da Igreja não foram escolhidos entre os notáveis de Israel, mas entre os pescadores da Galiléia. Assim como o pastor das ovelhas foi feito pastor do povo, os pescadores de peixes também se tornarão pescadores de homens. Enquanto esperam, serão atores de um sinal espetacular, verdadeira proeza no ofício que estão para deixar. Primeiro, são convidados a seguirem rumo às “águas mais profundas”, a deixarem a multidão para buscar horizontes novos. Temos, assim, a pesca milagrosa. Chegam ao cume da sua profissão. Impossível ir mais longe: as redes se rompiam e os barcos ameaçavam afundar-se. Pois, terão de realizar uma pesca em águas profundas, para além da sua pesca habitual. Mais que mudar de profissão será entrar numa nova humanidade.

“Pescadores de homens”?

À primeira vista, a ideia de pescar homens como se pegam peixes pode chocar. Mas não esqueçamos que a Bíblia opera por imagens, provenientes de uma cultura que em boa parte nos é estranha. E que estas imagens sempre precisam ser interpretadas e superadas. Outros textos nos farão compreender que não se trata de lançar alguma isca nem de capturar. Em 1 Pedro 3,15, por exemplo, lemos: «Estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pede; fazei-o, porém, com mansidão e respeito.» Antes de qualquer coisa, o nosso comportamento, pessoal e coletivo, é que pode propor a estes que dele são testemunhas as questões da nossa fé. Em outras palavras, a caridade, o amor e o cuidado para com os outros, sem nenhuma intenção de conquista ou de lucro dissimulada, é o que lhes pode abrir os olhos. Só num segundo momento, já dentro da barca de Pedro e a título de consequência, é que poderão receber os preceitos morais da Igreja e as exigências do culto. Notemos que a primeira atitude de Pedro e de seus companheiros foi a de deixar tudo, tudo o que estavam fazendo e em que consistia a sua vida até ali, para seguirem a Jesus. Uma ligação pessoal, uma relação de amor nasceu ali: o resto virá mais tarde e será apenas a expressão deste amor. Para dizer a verdade, este «deixaram tudo e seguiram a Jesus» pode ser vivido de muitas maneiras. Para a maior parte de nós, trata-se de viver de outro modo tudo o que a vida nos deu para viver. Notemos que a primeira reação de Pedro diante da «pesca milagrosa» foi de espanto, de medo. Para deixar tudo e seguir a Cristo será preciso passar do medo ao seu contrário, à fé.

Do medo à fé

Passar do medo à fé, da tristeza das pescas inúteis à alegria da esperança, diz respeito a nós todos, mas isto nunca é feito de uma vez por todas. É algo a se refazer todos os dias. Para isso, basta nos abrirmos para acolher o pão cotidiano que nos é dado. Só que abrir-se ao dom de Deus não é assim tão fácil! E esta, sem dúvida, é uma das razões pelas quais muitos dos nossos contemporâneos abandonam a fé: vivemos de fato uma época em que não se tem segurança de nada. E isto não facilita em nada passar do medo à fé. Fundar a própria vida numa mensagem que nos foi dada há dois mil anos atrás, ligar-nos a um Cristo que nunca vimos exige atravessar muitas aparências. Estes que deixam a Igreja, em sua maior parte, pertencem a um cristianismo sociológico que foi herdado das suas famílias, do seu meio, das suas tradições. Mas a fé supõe o encontro espiritual do Cristo, numa evidência da sua presença atual. O único milagre permanente que pode nos convidar à fé é a fé de todos os que ainda hoje aderem ao Cristo, há tanto tempo já fora das nossas vistas. A fé é inexplicável. O Livro que as primeiras testemunhas nos legaram não é suficiente. Mas, visível a todos, temos o seu corpo que é a Igreja, nós todos reunidos. Como escreve Pedro em sua primeira carta (1,8), amamos o Cristo apesar de não tê-lo visto, cremos nele, embora sem vê-lo. Fala assim aquele que foi o primeiro pescador de homens.

http://www.ihu.unisinos.br