4° Domingo do Tempo Comum (ciclo C)
Lucas 4,21-30


Lucas 4,21-30

Referências Bíblicas:

  • 1ª leitura: «Eu te consagrei e te fiz profeta das nações» (Jeremias 1,4-5.17-19)
  • Salmo: Sl. 70(71) – R/ Minha boca anunciará, todos os dias, vossas graças incontáveis, ó Senhor.
  • 2ª leitura: «Atualmente, permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior delas é a caridade» (1 Coríntios 12,31-13,13 ou 13,4-13)
  • Evangelho: Assim como Elias e Eliseu, Jesus não foi enviado somente aos Judeus (Lucas 4,21-30)

    Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 4º Domingo do Tempo Comum (Lucas 4, 21-30). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

    O trecho do Evangelho de hoje é a continuação da passagem do domingo passado (cf. Lc 4, 14-21). Estamos ainda na sinagoga de Nazaré, o vilarejo onde Jesus foi criado e para onde havia voltado no início da sua pregação na Galileia. Participando do culto da sinagoga no dia de sábado, Jesus escutou a leitura da Toráe, convidado a ler a segunda leitura tirada do profeta Isaías (cf. Is 61, 1-2), fez um comentário, uma homilia sintetizada por Lucas. nas palavras: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura (escutada) que acabastes de ouvir”.

    E eis a reação da audiência: “Todos aprovavam Jesus, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca”. Com a sua homilia, Jesus chamou a atenção da audiência, soube despertar o interesse e a admiração, porque as suas palavras também eram “palavras de graça” (lógoi tês cháritos). Assim como o Messias do Salmo 45, Jesus é louvado porque “a graça está espalhada em seus lábios” (v. 3). Portanto, poderíamos dizer que a primeira pregação de Jesus no retorno ao seu vilarejo de origem pareceu inicialmente um sucesso, provocou estupor, mas logo pareceu um “sinal de contradição” (Lc 2, 34).

    De fato, o relato sofre uma virada repentina. Aqueles que acabaram de aprovar e “aplaudiram” Jesus dizem: “Este é o filho de José, o carpinteiro que bem conhecemos como nosso concidadão. É um homem, nada mais do que um simples homem comum, nada de mais!”. As palavras de Jesus admiraram aquelas pessoas: a mensagem que ele deu é boa – pensam os habitantes de Nazaré – mas é a mensagem de um homem comum, como se podia ver e se podia descrever conhecendo bem o seu pai, José. O entusiasmo e a admiração não levam à fé em Jesus, porque os presentes, para reconhecer a sua autoridade, não se contentam com palavras: querem sinais, milagres que garantam a sua missão!

    Jesus, conhecendo os pensamentos do seu coração (cf. Jo 2, 24-25), passa para o ataque duro, frontal. Não evita conflitos, não o silencia, mas, ao contrário, o faz explodir. “Sem dúvida – diz ele – vós me repetireis o provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Faze também aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum!”.

    É uma tentação que Jesus ouvirá ser repetidamente dirigida a si mesmo: aqui entre os seus, mais tarde em Jerusalém (cf. Lc 11, 16) e, finalmente, até na cruz (cf. Lc 23, 35-39). É a demanda de sinais, das ações extraordinárias, de milagres: mas toda a Escritura adverte que precisamente essa atitude é a primeira atitude dos homens religiosos que, tentando a Deus, na realidade, rejeitam-no. Sempre, como escreve Paulo, “os homens religiosos pedem sinais” (cf. 1Cor 1, 22)…

    Na verdade, em Cafarnaum, Jesus havia realizado ações de libertação da doença e do pecado, mas estas eram, justamente, apenas “sinais” para manifestar a sua vontade: a libertação de todos os males, a libertação para todos, assim como Jesus acabara de ler no profeta Isaías.

    Diante dessa súbita mudança de humor da audiência em relação a ele, do estupor à indignação, Jesus pronuncia algumas palavras cheias de mansidão e, ao mesmo tempo, de pesar, palavras sugeridas pela sua assiduidade às Escrituras, especialmente aos profetas.

    Com um solene “amém”, ele emite uma sentença breve, mas eficaz, afiada como uma flecha: “Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”. Jesus a pronuncia com pesar pela rejeição sofrida, mas também com uma alegria interior indescritível, porque, precisamente a partir dessa rejeição, ele recebe um testemunho. Louvando-o pelas suas palavras de graça, eles não lhe davam testemunho, mas, paradoxalmente, agora, rejeitando-o, sim: porque isso ocorre com quem é profetas, com quem traz em sua boca uma palavra de Deus e a entrega a quem escuta.

    Jesus, portanto, naquele momento, recebe o testemunho do Espírito Santo que sempre o acompanha e que lhe diz: “Tu és verdadeiramente um profeta, por isso conheces a rejeição!”. Sim, profeta a alto preço, e somente quem conhece a rejeição pelas suas palavras – que podem ser cheias de graça, mas não são acolhidas pela falta de reconhecimento da sua autoridade (exousía) – também conhece a mansa e serena certeza de realizar um serviço não em nome próprio, mas no nome do Senhor; não por interesse pessoal, mas em obediência a uma vocação e a uma missão vividas e sentidas como mais fortes do que a própria  disposição interior e os próprios desejos humanos. Essa é a atitude dos homens de Deus, dos profetas.

    Aqui também se deve destacar a tensão entre Nazaré, a pátria, e Cafarnaum, cidade estrangeira para Jesus, mas onde ele encontrará justamente estrangeiros, não judeus que têm uma fé nunca vista por ele em Israel, dentro do povo de Deus (cf. Lc 7, 9): é mais fácil para Jesus agir em espaços estrangeiros do que nos do próprio povo de Deus. Ele sabe muito bem que as Escrituras atestam que essa rejeição também ocorreu para os profetas Elias e Eliseu, e ele diz isso.

    Foi uma viúva estrangeira, de Sarepta na Sidônia, que acolheu o primeiro e que lhe deu comida no tempo da carestia e da fome (cf. 1Re 17, 7-16). Quanto a Eliseu, ele curou um estrangeiro, Naamã, o sírio (cf. 2Re 5), enquanto não conseguiu purificar nenhum dos leprosos pertencentes ao povo eleito.

    Com essas palavras, Jesus, na sua missão, faz cair toda fronteira, todo muro de separação: não há mais uma terra santa e uma profana; não há mais um povo da aliança e os outros excluídos da aliança. Não: há uma oferta de salvação dirigida por Deus a todos. Ou, melhor, o Deus de Jesus ama os pagãos porque tem como que nostalgia deles, que, durante os séculos, permaneceram longe dele. Jesus, portanto, vai buscá-los, encontrá-los e acha neles uma fé-confiança que lhe permite aquela ação libertadora para a qual ele havia sido enviado por Deus.

    Essas palavras de Jesus, que atestam o fim dos privilégios de Israel e a acolhida dos gentios, não podiam deixar de aumentar a rejeição a ele e desencadear ainda mais a ira contra ele: “Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até ao alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício”.

    É a violência que não suporta quem revela a sua fonte no coração humano… Desse modo, Jesus faz uma primeira experiência daquilo que acontecerá a ele quando chegar o tempo do seu ministério em Jerusalém. Jesus é perseguido pela ira dos homens religiosos que não aceitam o rosto de Deus pregado e revelado por ele, um homem não investido de autoridade por parte das instituições sagradas: tentam expulsá-lo já no início do seu ministério, ainda na Galileia, na sua casa.

    Mas, para Jesus, ainda não chegou o tempo da paixão e, assim, simplesmente, com coragem e liberdade, “passando pelo meio deles, continuou o seu caminho” na direção de Cafarnaum (cf. Lc 4, 31). “Transiens per medium illorum ibat”, atesta a Vulgata. Jesus que “passa pelo meio”, que “passa fazendo o bem” (cf. At 10, 38), que passa causando entusiasmo, mas também rejeição.

    Ontem como hoje, “Jesus passa pelo meio e vai”, mas nós não nos damos conta disso… Ele passa pelo meio da sua Igreja, mas vai além da Igreja; como Elias, como Eliseu, ele está entre os pagãos que Deus ama.

    Essa imagem é cara para LucasJesus passa e vai. E a Herodes, que gostaria de impedi-lo, manda dizer: “Vão dizer a essa raposa – Jesus nunca o nomeia! –: eu expulso demônios, e faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. Entretanto preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém” (Lc 13, 32-33).

    Até que chegue a hora dos adversários, “o poder das trevas” (Lc 22, 53), Jesus caminha, vai, mas já agora está pronto! No quarto Evangelho, aquilo que acontece aqui em Nazaré está sintetizado nas palavras do prólogo: “A Palavra veio entre os seus, e os seus não a acolheram” (Jo 1, 11).

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    Abolir as fronteiras
    Marcel Domergue

    Jesus tinha acabado de expor o seu “discurso-programa” e, falando a respeito de Isaías 61, apresentou-se como tendo vindo cumprir a antiga Escritura, que anunciava a reabilitação da humanidade. Notemos que, em Lucas, este primeiro discurso de Jesus coincide com o último, quando explica aos discípulos de Emaús que os acontecimentos da Páscoa foram para que as Escrituras se cumprissem.

    Ali, em Nazaré, este cumprimento ainda está no futuro, mas o que se passa entre Jesus e seus ouvintes é uma prefiguração dele. Os ouvintes reagem de forma complexa. Primeiro “todos davam testemunho a seu respeito” e admiravam-se “com as palavras cheias de encanto que saiam de sua boca”. Admiração que, todavia, logo se mistura ao espanto: é beleza demais para o filho de José (cf. João 6,42)! Em todo caso, por tratar-se exatamente do filho de José, ele lhes pertence, é um dos seus. E mais, sendo seu compatriota, tem o dever de privilegiá-los.

    Em resumo, Jesus se sente cercado dentro de um território e de uma genealogia. Pois, também aí, ele parte das Escrituras para lhes revelar que Deus ultrapassou desde sempre todas as fronteiras e transgrediu todos os limites. Isto porque o limite fundamental, o limite que separa Deus e o homem, em Cristo foi ultrapassado. Daí que as fronteiras que erguemos entre nós, homens, perdem todo o seu significado. Depois de nos ter dado o exemplo, Cristo nos confia a tarefa de abrogá-las.

    O fundo do problema

    O primeiro encontro direto de Jesus com seus compatriotas é descrito por Lucas como um conflito. A versão de Marcos é menos dramática, mas termina com a impossibilidade de Jesus fazer milagres, em razão da “falta de fé” deles (Marcos 6,1-6). Impotência de Cristo, impotência de Deus: a Cruz já está em perspectiva. E, conforme Lucas, os que o ouviam na sinagoga intencionaram matá-lo. Temos, pois, aí, logo na entrada da “vida pública” de Jesus, uma espécie de resumo de todo o Evangelho. Ao longo das páginas, esta hostilidade vai se afirmar e crescer, até o desfecho final. Mas qual o motivo para tanto ódio? É que Jesus anuncia o fim da oposição entre o povo da Lei e as “Nações”.

    Sabemos que a Bíblia cristaliza nesta oposição todos os nossos conflitos, todas as nossas rivalidades assassinas. Para falar da reconciliação que ele traz, Jesus serve-se da Escritura (a história de Naamã e da viúva de Sarepta). Argumento irrefutável para os seus ouvintes; então, como não têm mais nada a dizer, rompem o diálogo e recorrem à violência. Preparam, sem saber, os acontecimentos da Páscoa, que irão desqualificar todo ódio e toda violência. Em Efésios 3,5-6, Paulo vê no fato de os pagãos serem admitidos à mesma herança que Israel, o Mistério mesmo do Cristo, que não foi dado a conhecer às gerações e aos homens do passado, como agora foi revelado.

    Último inimigo, a última fronteira

    O que, enfim, os Nazarenos recusam é a abertura ao outro, o acolhimento do diferente e da diferença. O amor; se quisermos. Dissemos que Deus ultrapassou todas as fronteiras: ora, isto vai muito mais longe do que assumir encargos sociais ou ter apenas em conta particularidades étnicas etc. Em Cristo, Deus atravessou todas as valas, vindo juntar-se e fazer seu logo o que é o seu maior contrário: o mal da humanidade. Paulo chegou a dizer que Cristo foi feito pecado (2 Coríntios 5,21). Inocente, foi arrolado entre os malfeitores. Em outras palavras, podemos dizer que o Cristo tornou-se intimamente solidário conosco, em nossas decadências, e isto para estar junto de nós onde quer que estivéssemos, no melhor e no pior. E, no pior, para conduzir-nos ao melhor.

    Assim, a fronteira entre o bem e o mal foi atravessada. Descendo ao mais baixo dos nossos infernos para aí nos encontrar, ele retorna conosco ao mais alto da “Glória”. As últimas fronteiras entre Deus e nós foram atravessadas. E eis que a vida nasce de seu contrário, da morte. Justamente porque aquele que a Bíblia sem cessar chama de “a Vida”, “Aquele que vive”, veio esposar a nossa morte. Mas, então, “a morte foi absorvida na vitória” (1 Coríntios 15,54). A palavra final de tudo isso é Amor; um amor que não suporta fronteiras.

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