XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (B)
Marcos 13, 24-32


33b2


Referências bíblicas:

1ª leitura: «Neste tempo, teu povo será salvo» (Daniel 12,1-3)
Salmo: Sl 15(16) – R/ Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio!
2ª leitura: «Com esta única oferenda, levou à perfeição definitiva os que ele santifica» (Hebreus 10,11-14.18)
Evangelho: «Reunirá seus eleitos, dos quatro ventos, da extremidade da terra à extremidade do céu» (Marcos 13,24-32)

Fim do mundo ou mundo novo?
Raymond Gravel


No final de cada ano litúrgico, os textos bíblicos que nos são propostos nos falam do fim dos tempos. Seus autores utilizam uma forma literária que chamamos apocalipse. Mas atenção! Apocalipse não é sinônimo de catástrofe, como entendem alguns contemporâneos. Ao contrário, apocalipse significa revelação, o que quer dizer: anúncio de uma Boa Nova nos momentos difíceis da vida. Hoje, nós temos dois exemplos desses eventos trágicos que servem de trampolim para suscitar a esperança dos crentes.

Apocalipse de Daniel

O livro de Daniel foi escrito em circunstâncias dramáticas. Estamos no ano 164 a.C. O rei grego Antíoco IV, apoiado por um grupo de judeus helenizados, decretou o fim do judaísmo. Imaginem: depois do ano 176 a.C, no império grego, o Templo de Jerusalém foi consagrado a Zeus. A população judia que ficou fiel a Javé, o Deus da Aliança, foi perseguida. O sangue dos mártires se derrama. Então, o autor do livro de Daniel conta os fatos e os interpreta utilizando o estilo apocalíptico. Para ele, trata-se do fim dos tempos, do combate do final que acontecerá com a vitória final do Javé sobre as forças do mal, sobre as divindades pagãs.

A passagem que lemos hoje conta a intervenção divina por intermédio do arcanjo Miguel, o chefe das legiões celeste. No momento em que parece perdido, Israel será salvo por Deus. Porém, surgiu um grande problema. Vocês sabem que os judeus não acreditavam na ressurreição após a morte. Eles acreditavam em uma espécie de retribuição nesta vida, segundo o bem ou o mal que eles faziam, de maneira que, se alguém era bom, Deus abençoava a ele e a sua família. Ele o protegia do mal. Se ele era ruim, Deus o amaldiçoava por toda a vida. Mas eis que durante esse período grego muitos juízes foram martirizados por causa da sua fidelidade ao Deus da Aliança. O que acontecerá com esses que morreram mártires? Eis ali que nasce a ideia da ressurreição. Não é possível que os mártires tenham morrido em vão! O profeta Daniel escreve: “Muitos que dormem no pó despertarão: uns para a vida eterna, outros para a vergonha e a infâmia eternas” (Dn 12,22).

Para os crentes desta difícil época, trata-se de uma questão de justiça: os que ficaram fiéis a Deus devem ser recompensados e os que os martirizaram devem ser punidos. O conceito de retribuição que se aplicava só para esta vida se estendeu para além da morte até a ressurreição. Essa fé na ressurreição individual será adotada pelo judaísmo de tendência farisaica, enquanto que ela será rejeitada pelos saduceus. Podemos vê-lo no evangelho de Marcos, quando os saduceus fazem uma pergunta a Jesus sobre a mulher que morre e que teve sete maridos… Com qual ficará na outra vida? (Mc 12,18-27).

Por outro lado, para os cristãos que leem o livro de Daniel, eles reconhecem o Cristo luz e mestre da justiça no versículo seguinte: “Os sábios brilharão como brilha o firmamento, e os que ensinam a muitos a justiça brilharão para sempre como estrelas” (Dn 12,3).

Apocalipse de Marcos

O evangelista Marcos tem também seu discurso apocalíptico não para predizer uma catástrofe, mas para anunciar um mundo novo. A volta do Senhor que Marcos anuncia, justo antes de iniciar o discurso da paixão de Jesus, é já o anúncio da Páscoa, da Ressurreição. É a vitória da vida sobre a morte; é o dia que vence a noite. É como se nós assistíssemos a um segundo nascimento do mundo, a uma nova criação, a um novo começo. E todo o cosmos participa: “Nesses dias, depois da tribulação, o sol vai ficar escuro, a lua não brilhará mais, as estrelas começarão a cair do céu, e os poderes do espaço ficarão abalados” (Mc 13,24-25), e toda a criação está implicada: “Ele (o Filho de Deus) enviará os anjos dos quatro cantos da terra, e reunirá as pessoas que Deus escolheu, do extremo da terra ao extremo do céu” (Mc 13,27).

Que quer dizer tudo isso? Marcos escreve seu evangelho em Roma, por volta do ano 70 a.C. O Templo de Jerusalém foi há pouco destruído pelos romanos, os cristãos são denunciados, torturados e massacrados pelos imperadores sucessivos: Nero, Cláudio, Domiciano e os outros. O que o evangelho anuncia não é uma catástrofe: trata-se do fim de um regime opressivo e desumano, e da vinda de um mundo melhor. Os astros que são vistos como divindades pelos romanos se movimentarão, e a salvação será oferecida a todos, sem exceção, dos “quatro cantos da terra, e reunirá as pessoas que Deus escolheu, do extremo da terra ao extremo do céu” (Mc 13,27). E para mostrar bem que se trata de um mundo novo, de uma vida nova que surge, a comparação com a figueira não anuncia o outono e a estação da morte, mas a primavera deste mundo novo com todas as suas promessas de vida: “Aprendam, portanto, a parábola da figueira: quando seus ramos ficam verdes, e as folhas começam a brotar, vocês sabem que o verão está perto” (Mc 13,28). Então, se Cristo ressuscitou, e de fato assim ocorreu, visto que Marcos escreve após a Páscoa, vejam que o verão está próximo e que o mundo novo já nasceu mesmo se ainda não parece.

E quanto à questão de saber o momento quando aparecerá, o Cristo do evangelho de Marcos responde: “Quanto a esse dia e a essa hora, ninguém sabe nada, nem os anjos no céu, nem o Filho. Somente o Pai é quem sabe” (Mc 13,32). Isso quer dizer para todas as testemunhas de Jeová do mundo: Chega de predizer o fim do mundo! Não acontecerá absolutamente nada. Ao contrário, participem no crescimento de um mundo novo, que começa na Páscoa e que continua ainda hoje, através de nós. E a única maneira de participar nele é pelo nosso engajamento em fazer um mundo melhor, mais bonito, restabelecendo a justiça para todos, devolvendo a dignidade àquelas e àqueles que a perderam, mantendo a esperança que nos habita.

Terminando, na segunda leitura de hoje, que é continuação da leitura de semana passada, o autor da carta aos hebreus nos diz explicitamente que o sacrifício de Cristo sobre a cruz da Sexta-Feira Santa santifica àquelas e àqueles que o reconhecem: “De fato, com uma só oferta ele tornou perfeitos para sempre os que ele santifica” (Hb 10,14), e o perdão definitivo dos seus limites e dos seus pecados: “Ora, quando os pecados já foram perdoados, não é mais preciso fazer ofertas pelos pecados” (Hb 10,18). E é porque, diz o teólogo belga Jacques Vermeylen: “A partir desse texto cristológico é possível desenvolver uma reflexão sobre as práticas cristãs. O sacerdote cristão não é um especialista do sagrado como os da primeira Aliança e das outras religiões, e é por isso que falar do sacerdote dessa maneira é, pelo menos, ambíguo. Por outro lado, se for verdade que o sacrifício eficaz foi oferecido uma vez por todas por Cristo, então falar do sacrifício da missa não pode ser feito sem precauções”.

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Passa a figura deste mundo
Marcel Domergue

O céu e a terra passarão

O espetáculo apresentado no evangelho, com imagens apocalíticas, é o inverso de Gênesis 1. Certamente, não estão ali enumerados todos os seres criados conforme o relato de Gênesis, mas as menções a “céu e terra” (duas vezes), ao sol, à lua, aos astros e às “forças dos céus” são suficientes para tornar evidente esta alusão. Sem contar que “a origem” e a criação são mencionadas no versículo 19 (fora da leitura). Assim, então, tudo o que foi feito durante os “seis dias” da criação será desfeito. Ora, os relatos da Paixão, sobretudo em Mateus, (mas também em Lucas, com o sol que se apaga) falam de grandes convulsões cósmicas. Aí também, a criação se desfaz. A Palavra criadora crucificada é verdadeiramente o fim do mundo. Paulo, por sua vez, põe no passado o desaparecimento do mundo antigo: “passaram-se as coisas antigas; eis que se fez realidade nova” (2 Coríntios 5,17). A mensagem é a mesma do Apocalipse de João, com o tema dos “novos céus e nova terra”. Aqui também “o sol não iluminará mais” (21,23; cf. Zacarias 14,7). Compreende-se assim, sem ter de mencionar a crença dos primeiros cristãos na iminência da vinda do Cristo, que Jesus pudesse dizer: “Esta geração não passará até que tudo isso aconteça”.

O apocalipse no presente

O “tudo isso” da citação precedente não designa apenas as perturbações cósmicas, mas também as guerras e perseguições do começo do capítulo. As relações entre os homens caíram no caos, assim como toda a natureza. Temos a impressão de que as Escrituras, ao invés de nos prometer um Reino de Deus pacífico sobre a terra, um universo pacificado desde agora, faz-nos entrever uma progressão da divisão do homem com o homem e do homem com a natureza. Mas, por certo, é preciso compreender que com a Páscoa -paroxismo de todas as nossas contradições- tudo está cumprido. Paulo, no entanto, não se contenta com pôr no passado o desaparecimento do mundo antigo; põe-no também no presente: “Pois passa a figura deste mundo” (1 Coríntios 7,31). Significa que o drama do nascimento deste mundo novo reporta-se para toda a história. Cada geração vive este drama por conta própria e a humanidade em seu conjunto o vive até a chegada do sétimo dia, dia do repouso de Deus, da criação perfeita e acabada.

“Veremos o Filho do homem”

O evangelho de hoje não fala do mundo novo: atém-se às imagens da destruição. Mostra-nos, contudo, o Filho do homem vindo com grande poder e grande glória. É o Reino de Deus. Este é o mundo novo. Paulo diz que o Cristo investiu-se em toda a criatura, que ele “preenche o universo”, é “tudo em todos”. Pois, aí também, está no passado, já que foi dado na ressurreição do Cristo; está no presente, já que temos de atualizá-lo; e está no futuro, já que estamos esperando o seu cumprimento. Enfim, as revelações deste evangelho, que à primeira vista nos parecem catastróficas, são de fato revelações de salvação. Só que, para esta salvação, devemos superar as nossas trevas, a nossa violência e o nosso pecado, atravessando-os. Duas palavras chaves deste capítulo 13 do Evangelho de Marcos devem reter a nossa atenção: “Não tenhais medo!” (versículos 7 e 11) e “Atenção, e vigiai!” (versículos 33-37). “Vigiai” Quer dizer: não vos deixeis enganar pelas aparências, é Deus quem vem.

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