XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM (B)
João 6,1-15


5 PANI E 2 PESCI

Referências bíblicas

1ª leitura: «Comerão e ainda sobrará» (2 Reis 4,42-44).
Salmo: Sl. 144(145) – R/ Saciai os vossos filhos, ó Senhor!
2ª leitura: «Um só Corpo, um só Senhor, uma só fé, um só batismo» (Efésios 4,1-6).
Evangelho: «Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, tanto quanto queriam» (João 6,1-15).

Páscoa, a grande festa dos judeus
Marcel Domergue

Se o evangelista se dá ao trabalho de assinalar a proximidade da Páscoa, é porque quer que leiamos este relato conservando na memória o contexto pascal. Ele imediatamente acrescenta que, levantando os olhos, Jesus viu «que uma grande multidão estava vindo ao seu encontro». Ora, o que caracteriza a celebração pascal é a enorme afluência de pessoas que vão para Jerusalém. Mas aqui parece que a multidão, em vez de dirigir-se a Jerusalém, volta-se para Jesus, que está nas proximidades do lago de Tiberíades, muito longe daquela cidade. Esta impressão se vê reforçada ao lermos que «estavam querendo levá-lo para proclamá-lo rei». Pois, em Israel, quem diz rei, diz filho de Davi, e quem fala em Davi faz pensar em Jerusalém, a cidade que Davi conquistou, fazendo dela a residência real. Há um deslocamento, portanto: o interesse desvia-se da cidade de Jerusalém e se dirige para Jesus. Ele vai se tornar a nova Páscoa. E o discurso que segue, a respeito do pão da vida, não desmente esta interpretação.

«Comprar» o pão

Sem me deter na importância do ato de «comer» nas Escrituras, gostaria de sublinhar neste texto a palavra «comprar», que é reforçada pela menção às duzentas moedas de prata, equivalentes a «um salário de duzentos dias de trabalho». Filipe caiu na armadilha! Jesus por certo queria que os discípulos se lembrassem dos Livros Sapienciais, onde vemos o pão e o vinho da Sabedoria serem oferecidos gratuitamente a quem os desejassem (Provérbios 9,1-6). Encontramos também no Êxodo o pão e o vinho vindos do céu, sem qualquer outro trabalho senão o de recolhê-los. Há, portanto, uma oposição entre o pão que foi ganho com o próprio trabalho e o que foi dado. Jesus aqui prefigura o dom que vai fazer aos homens: dom de si mesmo. Uma observação se impõe: este dom da vida, que caracteriza a «conduta» de Deus para com todos nós, mulheres e homens, desapropria-nos de certo modo de nós mesmos. Comer um pão que não tenhamos ganho com o nosso esforço liquida com qualquer pretensão da nossa parte. Pretensão de, por nós mesmos, querer «fazer a nossa vida», de salvar-nos a nós mesmos, de conquistar nós mesmos a Sabedoria. Por isso o dom de Deus é uma prova: é a prova da fé. Onde vamos colocar nossa confiança? Gostaríamos tanto de «não precisar de ninguém»! Termos de encontrar a segurança fora de nós só pode nos trazer tranquilidade mediante o risco da fé.

O garoto

«Um menino», traduz a Bíblia de Jerusalém. Vejo também aí um contraste entre o adulto, que ganha a sua vida, e a criança, que não a ganha. No entanto, é esta quem detém o único alimento disponível. E importa de que alimento se trata: pães e peixes, os dois símbolos do próprio Cristo, na Igreja primitiva. E trazidos por um garoto! Uma criança, que deve se apoiar em algum outro para poder viver, mas é ela quem detém a Sabedoria (Mateus 19,14). A criança faz parte dos pobres, aos quais pertence o Reino dos Céus. Há um contraste igualmente entre as duzentas moedas de prata, ou os duzentos dias de trabalho, e a insignificância dos cinco pães e dois peixes. Para que Deus possa agir, é preciso que o homem traga alguma coisa, o que tiver, que, de qualquer forma, será sem proporção perante o dom. Filipe deu a sua resposta, mesmo que superficial; já o garoto deu a sua refeição, ainda que derrisória diante dos cinco mil homens… Deus nos dá, fazendo com que outros nos deem, porque, para receber, temos de entrar na lógica, no movimento do dom. Assim como o garoto, Cristo nos dará o que tem; e será verdadeiramente tudo o que tem: a sua carne e o seu sangue. E sua carne que foi entregue e o seu sangue, derramado, serão o alimento de todos nós, mulheres e homens, para a vida eterna.

Um conflito entre duas sabedorias

Este evangelho faz parte de um conjunto que é preciso ter em conta: primeiro, Jesus multiplica os pães; depois, escapa da multidão que quer fazê-lo rei; e, finalmente, anda sobre as águas, para encontrar os discípulos que haviam embarcado com tempo ruim. Será que devemos ver nestes três tempos o equivalente das tentações que abrem a vida pública de Jesus, nos evangelhos sinóticos (por exemplo, Lucas 4)? Muitos exegetas pensam que sim: a multiplicação dos pães equivaleria ao “manda que estas pedras se transformem em pão”; a vontade de fazer dele o rei corresponderia ao “todos os reinos da terra eu te darei”. E, por fim, andar sobre as águas, não seria tentar a Deus tanto quanto o jogar-se do pináculo do templo? A cena das tentações anunciava o tom característico de toda a existência de Jesus. O texto que lemos hoje dá início ao que foi chamado como “a crise de Cafarnaum”: a maior parte dos discípulos irá deixar Jesus (evangelho do 21º Domingo). Assim como o próprio mestre, também os discípulos devem escolher entre duas Sabedorias, entre duas maneiras de conceber a vida: ou escolhem o poder (a realeza), a abundância material (os pães multiplicados) e o prestígio dos milagres e performances, ou escolhem o dom de si mesmos, para que os outros tenham vida.

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O sinal da multiplicação dos pães
Enzo Bianchi

Comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 17º Domingo do Tempo Comum (Jo 6, 1-15). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O ordo de leituras bíblicas do Ano Litúrgico B prevê que, tendo chegado, na leitura cursiva de Marcos, ao evento da multiplicação dos pães (Mc 6, 35-44), interrompa-se a leitura do evangelho mais antigo e que ela seja substituída pela leitura do mesmo episódio narrado no quarto evangelho. Por cinco domingos, portanto, lê-se o capítulo 6 de João, um texto que requer uma breve introdução geral.

Na verdade, esse capítulo, todo centrado no tema do “pão da vida”, que nunca aparece em outro lugar, parece bastante isolado no desenvolvimento do relato joanino. Com toda a probabilidade, trata-se de um trecho acrescentado mais tarde para dar à Igreja joanina uma catequese sobre a eucaristia, já que o relato da sua instituição falta no quarto evangelho, sendo substituído pelo do lava-pés (cf. Jo 13, 1-17).

Esse capítulo, em todo o caso, é decisivamente importante no quarto evangelho, porque, justamente através da compreensão eucarística, Pedro e os outros discípulos chegam à confissão da identidade de Jesus: para os judeus, ele é o filho de José, simplesmente um homem da Galileia (cf. Jo 6, 42), enquanto Jesus declara ser o Filho de Deus, aquele que é e que desceu do céu como enviado do Pai (cf. Jo 6, 57); a verdadeira identidade de Jesus é proclamada com a confissão de Pedro, que reconhece nele “o Santo de Deus” (Jo 6, 69).

Os evangelhos nos dão nada menos do que seis testemunhos da multiplicação dos pães, porque Mateus e Marcos conservaram duas tradições daquele “prodígio”, recebido pela Igreja como profético do dom do pão eucarístico dado por Jesus aos seus discípulos na noite da sua paixão. O quarto evangelho, de modo ainda mais explícito, narra-o como “sinal” (semeîon) que anuncia o dom do corpo e do sangue, da vida inteira de Jesus.

Jesus se encontra na Galileia, no Lago de Tiberíades, quando decide atravessar a ampla baía para chegar à outra margem, sempre no lado ocidental do lago, talvez para procurar um lugar de descanso e de oração. Mas “uma grande multidão” o segue, e logo o evangelista nos indica a razão: Jesus fez muitos sinais sobre os doentes, a sua ação e a sua pregação despertam assombro e curiosidade.

Portanto, essa parece ser uma hora de sucesso para ele, que escolhe subir ao monte, como Moisés havia feito por ocasião da celebração da aliança entre Deus e o seu povo. Também é explicitada uma informação temporal: “Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus”. Portanto, era uma hora vigilar (como a hora da instituição eucarística), e, de fato, o sinal que Jesus agirá, será o sinal da Páscoa cristã por excelência.

Sentado no alto, Jesus tem diante dele a grande multidão, que observa erguendo os olhos: é uma multidão à espera! E eis que, livre e gratuitamente, ele toma a iniciativa de dar um sinal, de fazer um gesto que narre o amor de Deus, que ama tanto a humanidade a ponto de lhe dar o seu Filho como dom (cf. Jo 3, 16).

Ele chama a si um discípulo, Filipe e lhe pergunta: “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?”. Na realidade, Jesus sabe o que está prestes a fazer, porque sua intenção é fruto da sua comunhão com os pensamentos de Deus, a quem ele chama de “Pai”. Filipe, por sua vez, faz cálculos para determinar a despesa da compra do pão para tantas pessoas, e André ressalta que os cinco pães de cevada e os dois peixes que um menino trouxe com ele seriam absolutamente insuficientes.

Então, Jesus, com sua soberania, pede que os discípulos acomodem a multidão naquele gramado verde que recorda as pastagens onde Deus, o Pastor, conduz as suas ovelhas (cf. Sl 23, 2), para que tenham comida abundante. Depois, diante de todos, faz o gesto: “Tomou os pães, deu graças (eucharistésas) e distribuiu-os aos que estavam sentados, tanto quanto queriam. E fez o mesmo com os peixes”. Eis o sinal dado e os gestos que preanunciam os da instituição eucarística na última ceia:

Jesus toma o pão em suas mãos
dá graças a Deus (ou o abençoa, de acordo com Marcos e Mateus),
parte-o
e o dá, distribui-o aos discípulos.

É ele, o Cristo Senhor, que dá, distribui (dédoken) aquele pão que sacia cinco mil pessoas, aqueles cinco pães que, compartilhados, conseguem saciar a todos. E precisamente em virtude dessa ação totalmente decidida e feita por ele mesmo, ele poderá dizer: “O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo” (Jo 6, 51).

Assim, Jesus aparece como o Profeta escatológico, bem mais do que Eliseu, que havia multiplicado os pães de cevada (cf. 2Re 4, 42-44), porque não socorre apenas a fome, a necessidade humana de comer para viver, mas faz o dom do seu corpo, amando os seus até o fim (cf. Jo 13, 1).

O pão, que é uma necessidade para o ser humano, para a sua necessidade de viver, é também aquilo que Deus dá a cada criatura (cf. Sl 136, 25). No gesto de Jesus, portanto, há o fato de ir ao encontro da necessidade humana, mas também a narração do amor de Deus, amor gratuito e superabundante, excessivo, que não pede contrapartida, mas apenas acolhida e agradecimento.

A injunção de Jesus – “Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca” – tem um significado particular: não manifesta apenas a abundância do pão compartilhado, mas significa que sempre, na comunidade do Senhor, haverá o pão eucarístico, que deverá ser conservado com cuidado e solicitude.

O relato desse sinal, porém, se resolve em um mal-entendido. Através desse sinal, Jesus quis revelar algo da sua identidade e da sua inserção na história da salvação: ele é o Profeta, é o Messias, é aquele que renova e transcende em uma inédita plenitude os sinais operados pelo próprio Deus no êxodo, mas as pessoas que chegam a essa compreensão de Jesus tiram consequências que ele rejeita, até se isentar e fugir para a solidão.

De fato, posta diante desse sinal profético e desse prodígio da multiplicação do pão compartilhado, a multidão pensa que chegou a hora de proclamar Jesus como Rei dos Judeus e de celebrar a sua glória. Equívoco, mal-entendido que revela também que a aquisição do conhecimento de Jesus pode ser desviante e trair a sua verdadeira identidade e a autêntica intenção dos seus gestos.

Perceber Jesus como rei do modo dos reis, dos poderosos deste mundo, seria negar a missão que ele recebeu do Pai e consentir com as intenções do Príncipe deste mundo, Satanás. Jesus é o Rei dos Judeus e assim será proclamado na cruz pelo título que Pilatos fará erguer sobre a sua cabeça (cf. Jo 19, 19); mas é um Rei crucificado, na fraqueza do homem das dores, vítima do ódio do mundo, solidário com os perseguidos, os oprimidos, os pobres, os descartados da história.

A numerosa multidão, portanto, desconhece aquele Jesus a quem seguiu, porque o interpreta e o quer de acordo com os próprios desejos e as próprias projeções, não estando disposta a aceitar um Profeta e Messias conforme ao desígnio de Deus.

É significativo que João anota que “estavam querendo levá-lo para proclamá-lo rei”, isto é, queriam reduzi-la a um objeto, a um ídolo moldado pelos seus desejos, queriam um Messias com um programa mundano. Mas Jesus recusa, porque sabe que esse poder que querem lhe dar não é o verdadeiro poder que lhe foi conferido pelo Pai.

Assim como ele havia fugido das tentações de poder no deserto (cf. Mc 1, 12-13; Mt 4, 1-11; Lc 4, 1-13), assim também agora ele se retira na solidão da montanha, fugindo da multidão que o aclama, discernindo a ilusão de um aparente sucesso, que não pode nem desejar nem aceitar. Subindo naquele monte, sozinho, deixando até os discípulos no vale, Jesus medita sobre aquela incompreensão e se confia novamente ao Pai, confiando-lhe também aquela multidão e aqueles discípulos que não haviam entendido nem o seu gesto nem a sua intenção.

Mas a sequência do relato, que escutaremos nos próximos domingos, nos revelará, através de um longo discurso de Jesus, que aquele que deu o pão em abundância, na verdade, é ele mesmo o pão dado por Deus à humanidade para a plenitude da sua vida.

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