1.º Domingo da Quaresma – ano B
Marcos 1,12-15

desert


Referências bíblicas:
1ª leitura: A aliança de Deus com Noé, após ter escapado do dilúvio (Gênesis 9,8-15)
Salmo: 24 (25) – R/ Verdade e amor são os caminhos do Senhor.
2ª leitura: O batismo é hoje a vossa salvação (1 Pedro 3,18-22)
Evangelho: «Jesus foi tentado por Satanás (…) e os anjos o serviam» (Marcos 1,12-15)

«Naquele tempo, o Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto. Jesus esteve no deserto quarenta dias e era tentado por Satanás. Vivia com os animais selvagens e os anjos serviam-no. Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia e começou a pregar o Evangelho, dizendo: “Cumpriu-se o tempo e está próximo o Reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho”» (Evangelho do 1.º Domingo da Quaresma, Marcos 1, 12-15)

Voltai-vos para a luz, porque a luz já está aqui!
Ermes Ronchi

1. Não devemos começar a Quaresma com o rosto sombrio, mas com um sorriso, com aquele sorriso que intuo no Evangelho deste primeiro domingo. Com efeito, Jesus começa com um anúncio gozoso, que da Galileia chega a todos os caminhos do mundo; parte de uma boa notícia, que está encerrada nas primeiras palavras, aquelas com que inaugura a sua primeira missão, e que são: «Está próximo o Reino de Deus.»

Como é possível levar uma boa notícia, que é para todos, a não ser com um olhar exultante de alegria e um sorriso aberto? Muitos vieram antes dele e depois dele como profetas, e começaram por denunciar o mal, por lamentar a queda dos valores, a maldade dos tempos… como se esse fosse o caminho para fazer triunfar o bem.

Jesus escolhe outro caminho: em vez de denunciar, anuncia. Não vem como um reformador religioso ou como um contestador moralista, mas como o mensageiro de uma boa notícia extraordinariamente prometedora. O seu anúncio é um “sim”, e não um “não”.

É como se dissesse: queres vencer o mal, dentro e fora de ti? O mal é aquilo que faz mal ao homem, e é evocado hoje pelo relato dos quarenta dias passados por Jesus no deserto, sendo tentado por Satanás.

Queres vencer o mal? Não basta o teu esforço, primeiro tens de conhecer a beleza aquilo que está a acontecer, de um dom de Deus. E esse dom, eu to anuncio: o Reino de Deus está aqui.

2. O que entende Jesus por Reino de Deus? Deus olhou e disse “basta”; Ele vem, está aqui, luta contigo, e o coração e o mundo mudam. Deus vem e cura a vida, dá-te o seu alento, o seu sorriso, a sua vida. A todos e sem medida. E já não te deixa, se tu não o deixares.

Deus vem para que o mundo seja completamente diferente, outro mundo onde seja possível viver bem, encontrar a plenitude da vida, a felicidade.

As primeiras palavras que Jesus pronuncia também são o seu primeiro presente: vós estais imersos num mar de amor e nem sequer vos dais conta! Por isso viveis mal. E acrescenta imediatamente: convertei-vos! O que significa: mudai de olhar, virai-vos para esse mar de amor, para essa luz.

Imagino a conversão como o movimento do girassol, como esse obstinado voltar-se para o sol. Porque o rosto de Deus é luminoso, e cada homem pode ser um amigo.

Interrogo-me por vezes como é possível que pessoas que tenham tido uma educação cristã se afastem para sempre da fé. Creio que não é difícil encontrar a resposta, pelo menos em muitos casos, que é a seguinte: não conheceram a boa notícia. Conheceram as normas morais, os preceitos da Igreja, as práticas religiosas, mas não tiveram o encontro, não viveram o sol, o encontro com a beleza de Deus.

Que fé é essa sem assombro e sem amor? Então, estes não deixaram a fé, mas apenas uma casca vazia, feita de comportamentos e de práticas que já não os conseguiam motivar profundamente.

3. Amanhã, prestemos atenção à primeira leitura: falar-nos-á de um Deus que inventa o arco-íris, esse abraço resplandecente entre o céu e a terra, um Deus inventor de comunhão com tudo aquilo que vive debaixo do sol e para lá do sol. Tu até podes deixar Deus, mas Ele nunca te deixará.

Volta, então, a primeira pergunta: queres vencer o mal que está dentro e fora de ti? Jesus indica o caminho: não contes com o teu esforço, mas com a força do Reino que está dentro de ti, mansa e poderosa energia, como semente no ventre da mulher.

Vencer o mal contando com o bem, como faz Jesus. Escreve o padre David Turoldo: «Nós morremos porque adoramos coisas de nada, porque escolhemos amores de nada.» A tentação é sempre uma escolha entre dois amores, e eu venço quando escolho o amor maior. Que está aqui.

Voltai-vos para a luz, porque a luz já está aqui. Acreditai nesta boa notícia que é o amor, neste bem maior que está dentro e fora de vós, e que tem a beleza de um arco-íris.

«Nómada de amor, deixei a riqueza do palácio por um arco-íris. Tu escancaraste a minha vida, és vento que sopra e enfuna as velas, seguir-te é coisa de gente corajosa. Deixei-me agarrar por ti e, capturando-me, libertaste-me: agora caminho com passo de rainha.
Como ao mergulhar em águas profundas, primeiro tive medo, mas agora recebi como dom de ti um novo alento.
Centelha de eternidade, sinto-me perto de ti, ereta e real.
De olhos fixos no sol, a cada aurora eu sei que renunciar por ti equivale a florescer.»
(Marina Marcolini)

Ermes Ronchi,
In “A esperança que nasce da Palavra – Ano B”, ed. Paulinas
http://www.snpcultura.org/

Quarenta dias da Quaresma
Marcel Domergue

Quarenta dias

O número quarenta é simbólico. Representa a duração de uma existência humana e a duração também da história da humanidade. Deste modo, Noé enfrentou por quarenta dias as águas mortais do abismo primitivo. Foi um novo nascimento, uma nova criação. A primeira leitura nos diz que estamos indo em direção a um universo em perfeita aliança com Deus. As nuvens ameaçadoras de novas chuvas diluvianas serão mantidas à distância pelo arco de luz que sinaliza a aliança de Deus com todos os viventes. E, enquanto estivermos caminhando sobre as águas do não ser, está ainda por vir a realidade que este arco representa. Para os Hebreus, foram quarenta anos no deserto. Ao fim do caminho, a Terra Prometida. Uma pátria que esteve sempre no horizonte, à medida que dela ia-se aproximando, à espera da «pátria melhor» de que fala Hebreus 11,13-16. Para Jesus, quarenta dias no deserto, submetido à fome, à sede e atormentado pela tentação do poder e do domínio. E não irá acompanhá-lo por toda a vida esta mesma tentação? Até que, no último dia, pedirá ao Pai que afaste dele o cálice que deverá beber? Como vemos, aos quarenta dias da Quaresma não faltam referências bíblicas. Poderíamos citar ainda outras, mas vamos nos contentar com 1 Reis 19,6-8, onde se vê Elias caminhar quarenta dias e quarenta noites até à montanha de Deus, o Horeb.

Para onde vão os nossos caminhos?

Temos aí o que pode enriquecer o sentido que damos à Quaresma. Este é com certeza um tempo especial, bem enquadrado pela liturgia, mas que significa toda a nossa existência. Sinaliza as nossas apostas, caminhos e provações. Por que este número, quarenta? Porque, ao que parece, quarenta anos representa o tempo que dura uma geração. Um ser humano procria convencionalmente quando tem vinte anos: e, vinte anos depois, os seus filhos e filhas chegam por sua vez à idade de procriar. Deste modo, a geração toda que saiu do Egito morreu nas areias do deserto. As crianças nascidas durante o Êxodo é que irão entrar na terra prometida. A Quaresma nos convida, de qualquer forma, a lembrarmos o que está em jogo no decurso dos nossos dias. Para onde vamos? O que buscamos? Para onde se dirigem as nossas preferências? O nosso caminho, sinuoso às vezes, pode estar semeado de obstáculos, sofrimentos e fracassos. A Quaresma convida-nos a manter um afastamento, a que nos desembaracemos do imediato, para localizarmos o que temos de viver na trajetória da nossa existência. Ao fim do caminho, esperamos encontrar a terra onde corre o leite e o mel, num universo em perfeita aliança com Deus e, portanto, com todos. É claro que a Quaresma deveria ser um tempo de reflexão e de reorientação para nós. E é evidente que isto deverá nos conduzir a compartilharmos e a nos ocuparmos com os problemas postos a um número tão grande de excluídos. Voltaremos a falar sobre isto.

Sobreviventes

Este subtítulo quer fazer alusão à aventura simbólica de Noé. Não é uma aventura entre outras, mas sim a parábola de toda a existência humana. De fato, é exatamente o que quer dizer a segunda leitura que estabelece um paralelo entre a arca de Noé e o batismo: «Salvas por meio da água». Paulo irá mais longe, ao explicar que o batismo nos faz passar pela morte e pela ressurreição do Cristo (Romanos 6,3-5 e Colossenses 2,12). Assim como Noé, o mundo passa também pela morte, para chegar à ressurreição. Uma recriação e um renascimento do mundo. A água e o vento estão aí, assim como em Gênesis 1. O batismo, tanto o de Jesus como o nosso, contém os mesmos elementos. Batismo, sem dúvida, só se recebe uma vez. Mas, justamente porque é para ser vivido e revivido em cada coisa até na hora da nossa morte, assinalará a passagem definitiva e, assim, coroará tudo o que teremos significado ao longo dos nossos dias, dos nossos «quarenta dias». Tudo isso nos ajuda a compreender a coerência que há entre a Quaresma e o acontecimento pascal de que ela prepara a celebração. Mais uma vez; a Quaresma não é um tempo entre outros, mas sim a imagem de todos os tempos, de todo o nosso tempo. Lembra-nos a Boa Nova da Ressurreição e da derrota da morte. Acolher a esta Boa Nova muda a nossa vida e é esta mudança que é chamada de conversão. Trata-se de passar da tristeza à alegria.

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Ficha do Domingo:
Word I Quaresma B – 2018 – Seduzidos pelo Pai