II DOMINGO do TEMPO COMUM – ano B
João 1, 35-42

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Referências bíblicas:
1ª leitura: A vocação de Samuel (1 Samuel 3,3-10.19)
Salmo: Sl 39(40) – R/ Eu disse: «Eis que venho, Senhor, e com prazer faço a vossa vontade».
2ª leitura: O nosso corpo pertence ao Senhor (1 Coríntios 6,13-15.17-20)
Evangelho: A vocação dos três primeiros discípulos (João 1,35-42)

«Fala, que teu servo escuta!»
Marcel Domergue

O que estais procurando?

Não se fizeram de surdos, os dois discípulos que ouviram João Batista apresentar-lhes Jesus. Há aí um encontro de dois desejos, de duas buscas. André e seu companheiro vieram ouvir João porque estavam em crise, estavam insatisfeitos; insatisfeitos, primeiro, com a situação de Israel ocupada pelos romanos, mas insatisfeitos antes de tudo com o sentido a dar à sua própria vida. Foi o que os fez botar os pés na estrada. E não são os únicos nesta busca, que não é senão o eco de uma outra busca: a busca de Deus à procura do homem. É o «Adão onde estás» de Gênesis 3,9 que ressoa por toda a história e no decorrer de todas as nossas vidas. Falamos sem parar sobre a nossa «busca de Deus», mas não esqueçamos que Deus é quem antes nos procura. Pois, justamente, os dois discípulos não sabem muito bem onde estão nem de onde são, e eis que o Batista lhes indica um homem que vai e que vem no meio dos outros que estão ali. À primeira vista, nada de particular, mas este é o homem que os está procurando e ele é o homem a quem eles procuram. E as primeiras palavras que ouvem dele são precisamente «o que estais procurando?» O que quereis ao certo? O que esperais da vida? O evangelista põe assim em suas bocas uma questão primordial, que está presente em toda a Bíblia: «Onde moras?» Onde Deus habita? Onde podemos encontrá-lo? Jesus responde: «Vinde ver». Não basta ouvir o testemunho de João, dos enviados de Deus, é preciso experimentar por si mesmo.

«Abristes meus ouvidos» (Salmo)

Paulo dirá que a fé vem pela audição, mas não basta ouvir, é preciso também abrir-se à palavra de outra pessoa. A resposta de Samuel (1ª leitura) exprime bem este acolhimento: «Fala, que teu servo escuta.» Escutar é mais do que ouvir. Uma criança pode muito bem ouvir uma ordem que lhe é dada por sua mãe, e não «escutar», ou seja, não obedecer. A fé, no entanto, não pode ficar só em ouvir e escutar. Por isso o Salmo 40, depois do «Abristes meus ouvidos», acrescenta «Então eu disse: eis que venho.» Vir, mover-se: «Vinde ver», diz Jesus aos seus discípulos. «Vem ver», dirá Filipe a Natanael que pergunta se de Nazaré pode sair algo de bom (versículo 46, logo em seguida ao evangelho do dia). Este primeiro deslocamento abre uma lista de muitos outros; até o dia em que «vereis o céu aberto (estivera então fechado até ali) e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem» (versículo 51, em lembrança da escada de Jacó, em Gênesis 28,10-17) e, para o futuro, uma alusão à ressurreição. A escuta da palavra conduz, portanto, à visão, visão que reaparece mais 10 vezes nesta passagem. Devemos acrescentar que atualmente vivemos sob o regime da audição, da escuta da Palavra. A visão é para o dia em que a nossa condição de filhos de Deus se manifestar plenamente. Veremos então o Cristo tal como ele é e seremos semelhantes a ele (1 João 3,1-2).

“Tu és Pedro”

Nas Escrituras, mudar o nome equivale a uma mudança de destino, a quase uma mudança de natureza. Dali em diante, não será mais a hereditariedade de «filho de Jonas» que falará por e em Simão, mas uma outra hereditariedade: a de filho de Deus. Pedra, ou rochedo, é de fato um título do Messias, como se pode ver, por exemplo, em Daniel 2,31-35. Esta transformação de Simão não é uma simples mudança de ofício ou de função. Somos trazidos de volta aqui à questão da residência de Deus, abordada no primeiro parágrafo. A morada de Deus entre os homens é inicialmente o Templo, que a Bíblia chama muitas vezes de «a pedra, o rochedo». E, de esboço artístico, este rochedo fundamental sobre o qual se edificará o edifício acaba por se tornar o próprio edifício. Simão será, portanto, o novo Templo. Mas o Templo é apenas um símbolo. O Cristo (Messias, em hebraico) é aquele que recebeu a unção, a comunicação do Espírito: Deus habita nele. Simão, de qualquer forma, torna-se um outro Messias, «semelhante a ele». No entanto, a imagem do templo conserva o seu valor, porque a construção realiza wa unidade dos diversos materiais. Lemos em 1 Pedro 2,5: «também vós, como pedras vivas, prestai-vos à construção de um edifício espiritual…» O que é dito sobre Simão refere-se a todos nós, e Paulo pode escrever (2ª leitura): «Vosso corpo é o templo do Espírito.» Afinal, o Templo novo somos todos nós, constituídos em Igreja.

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A morada de Deus

Iniciamos um novo ano litúrgico com a festa do Batismo de Jesus, que celebramos no domingo passado.

De acordo com o evangelista Marcos (Mc 1,7-11), esta festa é a inauguração secreta do tempo messiânico, porque só Jesus o sabe por enquanto.

Novamente a Igreja nos convida a percorrer e participar da vida de Jesus. E nos oferece a sua Palavra, para ser acolhida, vivida e celebrada comunitariamente.

Neste ano, quem nos vai introduzir, cada domingo, no mistério da Boa Nova de Jesus, é o evangelho de Marcos.

Iniciamos este novo ano litúrgico com João Batista apontando aos seus discípulos Jesus de Nazaré como o Cordeiro de Deus, porque como ele mesmo diz: “Eu vi e deu testemunho que ele é o Eleito de Deus” (Jo 1,34). O precursor cumpre sua missão e convida aos seus discípulos a seguir Aquele para quem ele tinha preparado o caminho.

Podemos nos perguntar por que João chama Jesus de Cordeiro de Deus?

Para os judeus, escutar essas palavras ativam sua memória do Primeiro (Antigo) Testamento. A libertação da escravidão, a saída de Egito é marcada pelo sangue do cordeiro, seu sangue sela a aliança de Deus com seu povo.

Assim sendo, João Batista apresenta Jesus como o novo Cordeiro de Deus, o Ungido, aquele através do qual Deus realizará uma nova e eterna aliança com a humanidade (Jr 32, 40-41).

É por isso que os discípulos de João não duvidam em seguir Jesus, a vida e as palavras do Batista os orientam a Jesus, colocam-nos no seu caminho.

Lembremos que pessoas nos têm ajudado a colocar-nos no caminho de Jesus. E nossa vida leva outros a conhecerem Jesus?

Os discípulos caminham atrás Jesus. De repente, Ele rompe o silêncio de seus seguidores, voltando-se pergunta-lhes: “O que é que vocês estão procurando?”.

Dessa maneira, leva-os a questionar-se interiormente por que o estão seguindo. Iniciaram esse caminho, conduzidos pelas palavras de João Batista, agora têm que responder por si próprios, o seguimento de Jesus pede uma adesão livre e responsável de cada um, cada uma.

Jesus se apresenta já como mestre de liberdade, ele quer que seus amigos e amigas sejam homens e mulheres livres.

Ao responder a sua pergunta com outra: “Rabi, (Mestre) onde moras?”, os discípulos estão manifestando a Jesus seu desejo de conhecê-lo, de saber dele, de entrar na sua vida, na sua intimidade. Deixam claro que querem segui-lo, e o seguimento é estar com o Mestre.

E Jesus os acolhe, abre-lhes as portas da sua vida, convidando novamente à liberdade a colocar-se em ação: “Venham, e vocês verão.” Não faz um discurso, não dita normas, mostra-lhes sua morada. Cabe-nos perguntar qual é essa morada,  já que ele mesmo diz que não tem morada alguma! (Mt 8,20)!

João evangelista nos dá uma dica sobre a residência de Jesus: “E a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14), colocou sua tenda no meio de nós.

Para Marcelo Barros, monge beneditino e biblista, quando o quarto evangelho diz: “A Palavra de Deus se fez Carne”, podemos compreender que todo o universo, com a imensidade da sua “comunidade da vida”, não somente se torna uma espécie de presépio permanente para a manifestação humana de Deus, na pessoa de Jesus Cristo, mas também é assumida pela encarnação como uma espécie de extensão do corpo do Cristo.

Por isso, a comunhão com a natureza é fundamental no caminho da intimidade com Deus. Dela podemos aprender atitudes fundamentais para viver segundo o projeto de Deus, as palavras e parábolas de Jesus estão cheias desses ensinamentos!

Não podemos esquecer que a morada, na qual Jesus convida seus discípulos/as de todos os tempos a entrar e morar, o universo do qual somos parte, sofre e geme.

É necessário que, em primeiro lugar, escutemos seus gemidos, sejamos sensíveis a eles para depois cada um/a, do lugar onde se encontra, colabore com o desenvolvimento sustentável de nosso planeta, morada de Deus e de suas criaturas.

O seguimento de Jesus que se inicia nesta experiência de encontro com Ele, leva a marca do compromisso no cuidado e respeito com todo o criado. Hoje todo o universo está crucificado com Cristo (não são mais somente, como dizia Jon Sobrino, “os povos crucificados”).

Ser seguidores/as de Jesus, viver sua ressurreição é trabalhar para que toda a criação goze da sua Vida em abundância, desta forma louvaremos ao Criador.

Oração

Oração com as culturas indígenas

“Ó grande Espírito, o teu sopro infunde vida
ao mundo inteiro e a cada ser do universo.
Tua voz se ouve no vento que assobia,
o teu cheiro nas flores e no capim molhado.
Precisamos de tua beleza e teu encanto,
dá a todos os seres que te buscam, sabedoria,
dá-nos olhos capazes de te perceber
no menor dos seres e a cada passo do dia.
Faze-nos te descobrir no calor de um dia fatigante
e no trabalho cotidiano que fazemos,
dá-nos tua capacidade de visão
para que possamos entender melhor o que vivemos.
Faze-nos estar em tua presença com mãos limpas,
e olhos atentos para que, quando a vida adormecer,
como o poente, nosso ser mais intimo de ti se aproxime,
e sem temor, o nosso ser se funda ao teu ser.

Oração de um chefe indígena dos EUA.
Disponível em: http://pensador.uol.com.br

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Locutor: Gilberto Faggion