17° Domingo do Tempo Comum (ciclo A)
Mateus 13,44-52


Rete1

O verdadeiro tesouro

Neste último “domingo das parábolas” (15º, 16º e17º), são-nos oferecidas mais outras três. São comparações que nos impelem a apostar tudo naquela que é a única riqueza verdadeira.
A reflexão é de Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 17º Domingo do Tempo Comum, do Ciclo A. A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.
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Referências bíblicas

  • 1ª leitura: “Já que pediste sabedoria para praticar a justiça, vou satisfazer o teu pedido” (1 Reis 3,5.7-12)
  • Salmo: Sl. 118(119) – R/ Como eu amo, Senhor, a vossa lei, vossa palavra!
  • 2ª leitura: “Desde sempre, os predestinou a serem conformes à imagem de seu Filho” (Romanos 8,28-30)
  • Evangelho: “Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo” (Mateus 13,44-52 ou 44-46)

Escolher a Sabedoria

Entre a primeira leitura e o evangelho, temos ao menos um ponto comum: a escolha. De fato, podemos ver, na leitura, como Salomão escolhe a Sabedoria, ou seja, a arte do discernimento, de preferência a uma vida longa, à riqueza ou à morte dos seus inimigos.

No evangelho, igualmente, o homem que descobre o tesouro ou a pérola preciosa prefere-os a todo o resto. Salomão escolheu a Sabedoria, não por interesse próprio, mas por seu povo; povo, aliás, que não era propriedade sua, posto tratar-se do povo escolhido por Deus.

A oração do rei supõe, portanto, um desapossamento total. Não é proprietário sequer da Sabedoria, já que esta lhe vem de Deus, de quem, de alguma forma, será apenas um «oficial». E isto nos faz pensar no que, de diversas formas, Jesus nos fala no evangelho de João: «As obras que faço não são minhas, mas daquele que me enviou

O mesmo valendo para as suas palavras. De tal forma que, sendo totalmente transparente, exatamente por isto, através dele podemos ver e ouvir o Pai. Com uma diferença: Salomão recebeu a Sabedoria, já o Cristo é ele mesmo a Sabedoria. Aliás, escolher a Sabedoria já é Sabedoria.

Por isso Salomão é imagem do Cristo, tanto assim que este herdará os títulos de Salomão: Rei de Sabedoria, Príncipe da Paz, Rei da glória. Mas Salomão não é somente imagem do Cristo, daí suas derrapagens como sabemos: será por isso a origem da separação das tribos, enquanto que Cristo será a origem da sua unidade.

O povo sobre o qual Salomão deve reinar é numeroso; o povo de Cristo é a humanidade inteira.

A escolha do homem e a escolha de Deus

Passemos ao tesouro e à pérola. Grande, portanto, é a Sabedoria do homem que os escolheu e que por eles sacrifica todo o resto. O evangelho diz que, através das imagens do tesouro e da pérola, trata-se do Reino de Deus.

Reino este que vale preferir a tudo o que a existência nos possa dar, posto ser ele vida indestrutível e amor sem mancha alguma. Se, contudo, podemos escolher o Reino, é porque Deus nos escolheu antes: nossa escolha é, portanto, uma resposta a um amor anterior, se é que podemos falar de anterioridade, em se tratando de eternidade.

A 2ª leitura nos fala desta escolha primeira de Deus, com as palavras «os que de antemão ele conheceu», «predestinados a serem conformes à imagem de seu Filho». Nesta escolha recíproca, vamos encontrar o tema do matrimônio, que é bem mais que uma metáfora: os esposos passam a limpo o que se dá entre Deus e a humanidade, significando-o, como se pode ler em Efésios 5,26-32.

Se a Sabedoria consiste em amar (escolher) a Deus sobre todas as coisas, por isso mesmo, em sua mesma Sabedoria, Deus ama o homem sobre todas as coisas. Não por outro motivo, este de quem as palavras e o comportamento revelam Deus, Cristo, amou os seus «até o fim» (João 13,1), preferindo-os à sua própria vida.

Para Cristo, o homem é o tesouro escondido no campo, por quem sacrifica a sua vida, a sua honra, o seu poder e a sua glória; resumindo, a sua «forma divina», conforme diz Paulo em Filipenses 2,6-8.

O desejo da alegria

Em seus comentários sobre São João, Santo Agostinho insiste em que cada um é atraído pelo seu prazer. E, com o prazer em perspectiva, daí nasce o desejo. A escolha do tesouro e da pérola é, portanto, fonte de alegria: «Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens», diz Jesus.

Não somos, então, convidados ao masoquismo, à tristeza etc., como poderiam nos fazer pensar a necessidade de sacrificar tudo ao Reino e ao espetáculo da morte de Cristo. Trata-se de deixarmo-nos atrair por nosso desejo mais profundo, o desejo de viver, e viver para sempre no amor.

É verdade que este desejo fundamental é com frequência inconsciente, extraviando-se numa multidão de desejos ilusórios, porque o seu objeto não nos faz sair da perspectiva da morte. Concretamente, onde está o tesouro, onde está a alegria, onde se encontra o amor de Deus sobre todas as coisas?

Não tem mistério: está no amor, simplesmente; ou seja, no serviço ao próximo, uma vez que através dos outros é que amamos a Deus, este Deus a quem não se pode amar, isto é, servir, diretamente (1 João 4,20).

O que importa, portanto, é que nos interroguemos sobre o que desejamos verdadeiramente, o que procuramos em nossa existência, ou seja, qual o sentido da nossa vida. Sem esquecer que não se trata de nenhum esforço ascético, mas de deixarmo-nos atrair por este amor que nos precede: «Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrair» (João 6,43). Lemos em Mateus 6,21: “Onde está teu tesouro, aí estará também teu coração”.

O tesouro escondido

Tudo o que existe, tudo o que acontece é “comparável ao reino dos céus” porque tudo, salvo o pecado e o mal que ele acarreta, é à imagem de Deus. E até mesmo este mal (comentário precedente) é recuperado por Cristo em sua crucifixão, para gerar uma vida nova.

Eis aí o campo no qual está escondido o tesouro do Reino. O mistério da criação, que faz com que existam tantas coisas ao invés de nada e que faz com que eu mesmo esteja aqui, revela e também esconde a “mão” de Deus.

De tão habituados a habitar este universo, não mais nos admiramos com o fato de que ele esteja aí. Numerosos são, no entanto, os insatisfeitos, que procuram o tesouro que nele está escondido. Não é este o caso, na parábola, de quem o encontra.

E isto é importante, porque somos tentados a imaginar que somente os que buscam a Deus podem encontrá-lo. Mas Ele muitas vezes vem nos encontrar de improviso, tal como ocorreu com o escritor P. Claudel, por acaso, na catedral de Paris.

Os evangelhos estão cheios destes encontros, a exemplo do episódio da viúva de Naím, em Lucas 7-11, ou do chamamento de Mateus (Mt 9,9). O Reino, portanto, está aqui, na superfície e nas profundezas das nossas existências; e em toda a criação.

Por certo, nesta parábola, quem encontra o tesouro dá prova de certa desonestidade. Nas parábolas, os exegetas dizem que nem todos os detalhes são para serem explorados.

O que está posto em evidência, na descoberta do tesouro, é a alegria e o fato de que, bruscamente, tudo o que este homem possuía deixa de contar para ele. O que supõe que o tesouro do Reino é mais importante que tudo o que possamos ter além dele. Uma nova vida começa. Cabe a nós descobrir em que isto nos interessa.

A pérola rara

À primeira vista, poderíamos acreditar que a parábola da pérola só faz repetir a do tesouro. Reparemos, no entanto, diferenças importantes. Enquanto o homem que encontra o tesouro não buscava nada absolutamente, o negociante “procura pérolas preciosas“.

Temos aí uma preocupação que parece um tanto estranha, no que diz respeito ao “Reino dos céus“. Entretanto, o Reino esconde-se também nesta procura que vai agora ser preenchida e superada.

O negociante encontra o que procura, e tudo o que possui já perde imediatamente toda importância aos seus olhos. Somente a pérola excepcional ganha valor. Ele também vai vender tudo o que possui para adquiri-la.

Traduzindo: a vida que se leva nos domínios de Deus ultrapassa – e quanto! – tudo o que inicialmente contava para nós. A riqueza, em que colocávamos nossa segurança; a consideração, confundida com o valor; o poder, sob qualquer forma que fosse…

Estas três pequenas parábolas devem ser lidas em paralelo com a história do “jovem rico“, em Mateus 19,20-21, por exemplo. Encontramos nelas, se queremos chegar até o fim e tomar posse do que há de melhor, a necessidade de “vender” tudo o que possuímos e em que depositamos uma confiança ilusória.

O que equivale, aliás, a nos libertarmos, colocando-nos no caminho para o Reino, em seguimento do Cristo. Este é o tesouro, esta é a pérola. A parábola do tesouro sinaliza a alegria de quem o encontra, enquanto que o jovem atracado aos seus “muitos bens” vai embora entristecido.

Estes textos nos ensinam notadamente que a nossa situação inicial não conta em nada para o negócio: quer sejamos alguém que passeia por um campo, um negociante à procura de pérolas, um observador da Lei em busca de boa consciência etc., um dia ou outro Deus virá nos encontrar, para nos abrir um futuro inesperado.