16° Domingo do Tempo Comum (ciclo A)
Mateus 13,24-43


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Confiança! A colheita será boa

Uma coisa é certa: é a boa semente que o semeador semeou em seu campo, e é a boa semente que ele irá colher. Devemos confiar no responsável pela colheita e devemos ter paciência e esperança. A reflexão é de Raymond Gravel. A tradução é de André Langer.
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Referências bíblicas:
Primeira leitura: Sb 12,13.16-19
Evangelho: Mt 13,24-43

Depois da longa parábola do Semeador, da semana passada, nós temos hoje a parábola quase tão longa do joio semeado no meio da boa semente, mais aquelas mais curtas da semente de mostarda e do fermento na massa… três novas parábolas, três novas comparações para ilustrar o Reino e seu mistério. Apesar de ter nascido na contradição (o joio e a boa semente) e na pobreza (a semente de mostarda e o fermento na massa), o Reino crescerá contra todas as probabilidades. O tempo presente é o tempo da confiança, da paciência e da esperança. Virá um dia, e esse dia não nos pertence, em que haverá a colheita e a triagem. Que mensagens podemos extrair destas três parábolas?

1. A parábola do joio

Esta parábola responde às grandes perguntas que assombram o mundo desde o início dos tempos: por que o mal? De onde ele vem? Por que Deus não intervém para parar com isso? O Cristo do Evangelho de Mateus observa que, nos campos de trigo, crescem ao mesmo tempo o joio e a erva daninha. À pergunta dos servos do senhor, ou seja, quem semeou este joio, Jesus simplesmente respondeu: “Foi algum inimigo que fez isso (Mt 13,28a), “de noite, enquanto todos dormiam” (Mt 13,25). O que quer dizer que o mal no mundo encontra-se muitas vezes ao lado do bem, com o bem. É assim… porque a criação, em sua materialidade, é boa, mas também frágil e limitada; de modo que o bem e o mal andam constantemente juntos.

Por outro lado, à pergunta dos servos: “Queres que vamos arrancar o joio?” (Mt 13,28b), o Mestre responde espontaneamente: “Não! pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo” (Mt 13,29). Mas, por que essa resposta? Por várias razões:

1) O bem e o mal estão juntos; é difícil distingui-los. Trata-se, sem dúvida, daquilo que chamamos de cizânia, que se parece com o trigo a ponto de se confundir com ele. O que significa que não é fácil decidir entre o que é bom e o que é mal; não é possível separá-los com uma faca: de um lado os bons e do outro, os maus.

2) O bem e o mal encontram-se em todos os seres humanos. Ninguém pode pretender dizer: eu sou bom e o outro é mau. Como todos nós somos seres limitados, o bom e o mau está em todos nós. É por isso que querer extirpar o mal em nós é correr o risco de arrancar, ao mesmo tempo, o bem que há em nós. São João Crisóstomo dizia que o joio pode se transformar em trigo. De fato, na história do mundo e da Igreja, há exemplos em que grandes pecadores se tornaram grandes santos: pensemos em Mateus, o publicano, que se tornou um apóstolo, em São Paulo, o perseguidor dos cristãos, em Santo Agostinho, o depravado, em São Francisco de Assis, o libertino, em Charles de Foucault e muitos outros. São Paulo não disse: “Onde o pecado abunda, a graça superabunda” (Rm 5,20)?

3) Não cabe a nós julgar o que é bom ou ruim no campo de trigo; não é nossa responsabilidade fazer a triagem da colheita. Nós somos os servos da colheita e não os donos do campo a colher. Na nossa Igreja e entre os cristãos, há muitos que pensam que são os donos da colheita, e que decidem arrancar o que lhes aparece joio, quando eles próprios são, talvez, ervas daninhas, posto que retardam o crescimento da boa semente, do Reino. Isto é muito verdadeiro, nos diz o exegeta belga Jean-Philippe Kaefer: “Há joio em nosso próprio coração. Este defeito que não consigo corrigir, essa situação da qual não consigo me libertar… É este joio que cresce no coração de todo mundo que está na origem de todo o mal do mundo, da Igreja e das nossas sociedades. E diante disso, o que vemos? Um Deus paciente ao extremo, lento para a cólera e cheio de amor, como diz o Salmo”.

4) Uma coisa é certa: é a boa semente que o semeador semeou em seu campo, e é a boa semente que ele irá colher. Devemos confiar no responsável pela colheita e devemos ter paciência e esperança: “Deixai crescer um e outro até a colheita! E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e o amarrai em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!” (Mt 13,30). Podemos ter surpresas em relação ao conteúdo e à qualidade da colheita.

2. A parábola do grão de mostarda

“O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo” (Mt 13,31). Que bela imagem para falar da pobreza do Reino: “É a menor de todas as sementes” (Mt 13,32a), mas, ao mesmo tempo, que bela esperança: “quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos” (Mt 13,32b). Mais uma vez, devemos ter paciência e confiança para esperar que uma semente tão pequena possa tornar-se uma árvore tão grande.

3. A parábola do fermento

“O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado” (Mt 13,33). Nós, durante muito tempo, acreditávamos que ser fermento na Igreja era impor-se em todas as partes, querer controlar tudo e ser visível, a ponto de desenvolver nas pessoas o anticlericalismo. E, no entanto, é preciso tão pouco fermento para que a massa cresça… Isto significa dizer que quanto mais a Igreja se empobrece, mais ela tem a chance de ser fermento para o mundo de hoje: pensamos na Madre Teresa, em abade Pierre, em Mons. Romero, em Dom Hélder Câmara, em Mons. Adolphe Proulx, no bispo Bernard Hubert, em Jean Vanier e muitos outros… Discretamente, eles eram e ainda são fermento na massa. Precisamos de outros como eles para dar às pessoas o gosto de crer e confiar, de se comprometer a tornar o mundo mais humano, melhor. Já 50 anos antes da era cristã, o autor da Sabedoria tinha compreendido isso: “Assim procedendo, ensinaste ao teu povo que o justo deve ser humano; e a teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores” (Sb 12,19).

Concluindo, podemos dizer que ser cristãos, discípulos de Jesus, Igreja, é viver na esperança, aconteça o que acontecer… porque é preciso tão pouco para fazer a diferença. Devemos simplesmente ser úteis ao próximo (a expressão é de São João Crisóstomo, no quarto século). E como um cristão pode ser útil ao seu próximo, se não é sendo paciente e tolerante para com os outros e sendo um sinal de esperança para os outros, no Reino de Deus que se constrói agora. E eu termino citando justamente as palavras de São João Crisóstomo sobre o fermento na massa: “Se o fermento não faz levedar a massa, não é verdadeiro fermento. Se um perfume não inebria os que se aproximam, poderemos dizer que é um perfume? Não digas que é impossível exercer boa influência nos outros porque, se és verdadeiramente cristão, é impossível que não aconteça nada. Isso faz parte da própria essência do cristão e seria tão contraditório dizer que um cristão não pode ser útil ao seu próximo como negar ao sol a possibilidade de iluminar”.

Uma espiga de bom trigo vale mais que todo o joio

O bem e o mal, semente boa e erva daninha, formaram raízes no meu torrão de terra: o manso dono da vida e o inimigo do ser humano disputam, numa contenda infinita, o meu coração. E então o Senhor Jesus inventa uma das suas parábolas mais belas (Mateus 13,24-30) para me orientar no caminho interior, com o estilo de Deus.

A minha primeira reação perante as ervas daninhas é sempre: queres que vamos recolher o joio? O instinto sugere-me para agir assim: arranca, erradica já aquilo que em ti é pueril, errado, imaturo. Arranca e ficarás bem, e produzirás fruto.

Mas em mim há também um olhar consciente e adulto, mais sereno, semeado pelo Deus da paciência camponesa: não arranques as más ervas, arriscas-te e erradicar também a boa semente. A tua maturidade não depende de grandes reações imediatas, mas de grandes pensamentos positivos, de grandes bons valores.

O que procura em mim o Senhor? A presença daquela profecia de pão que são as espigas, e não a ausência, inatingível, de defeitos ou de problemas. Mais uma vez, o manso Senhor dos cultivos abraça a imperfeição do seu campo.

No seu olhar transparece a perspetiva serena de um Deus semeador, que olha não para a fragilidade presente, mas para o bom trigo futuro, mesmo que não seja mais do que uma possibilidade.

A nossa consciência clara, iluminada, sincera, deve descobrir antes de tudo aquilo que de vital, belo, bom, prometedor, a mão viva de Deus continua a semear em nós, e depois cuidá-lo e guardá-lo como nosso paraíso

O olhar libertador de um Deus que nos faz coincidir não com os pecados, mas com bondade e graça, ainda que se em fragmentos, com generosidade e beleza, pelo menos em rebento. Eu não sou os meus defeitos, mas os meus amadurecimentos; não sou criado à imagem do inimigo e da sua noite, mas à semelhança do Pai e do seu pão bom.

Todo o Evangelho propõe, como nossa atmosfera vital, o respiro da fecundidade, da frutificação generosa e paciente, de cachos que amadurecem lentamente ao sol, de espigas que docemente se enchem de vida, e não um ilusório sistema de vida perfeita.

Não estamos no mundo para ser imaculados, mas encaminhados. O bem é mais importante do que o mal, a luz conta mais do que a treva, uma espiga de bom trigo vale mais do que todo o joio do campo.

Esta é a positividade do Evangelho. Que nos convida a libertarmo-nos dos falsos exames de consciência negativos, de quantificar sombras e fragilidades. A nossa consciência clara, iluminada, sincera, deve descobrir antes de tudo aquilo que de vital, belo, bom, prometedor, a mão viva de Deus continua a semear em nós, e depois cuidá-lo e guardá-lo como nosso paraíso.

Veneremos as forças de bondade, de generosidade, de ternura, de acolhimento que Deus nos entrega. Façamos que elas irrompam em toda a sua força, em todo o seu poder e beleza, e veremos o joio desaparecer, porque não mais encontrará terreno.

Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
http://www.snpcultura.org