O Mestre está cá, e chama-te. Bíblia e Vocação
Manuel João Pereira Correia

Vocação de Jonas
Espelho das nossas fugas

Há momentos particulares em que se torna urgente reprojectar a nossa vida e a nossa missão. Por exemplo, no início dum novo ano. A figura de Jonas poderia oferecer um bom ponto de partida… Parecerá algo estranho apresentar este profeta como ‘modelo’, dada a sua relutância a partir em obediência à Palavra de Deus. Mas não será precisamente Jonas o espelho das nossas resistências e das nossas fugas? (Jonas, capítulos 1-4).

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“Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado” (Eclesiastes 3,1). Se bem que haja um tempo para tudo, o tempo de recomeçar, de relançar a vida é de importância capital.

Como, por exemplo, o mês de Outubro quando regressamos às nossas tarefas e responsabilidades, depois do período das férias e do Verão. Com o Outono a vida reparte. Iniciamos um novo ano escolar, pastoral ou profissional… É tempo de partir de novo, de reprojectar o caminho da nossa vida e da nossa missão. A existência implica um contínuo recomeçar, não porque sejamos condenados a repetir o passado mas porque somos agraciados com uma nova oportunidade para o futuro.

Que sentimentos nos animam no princípio dum novo ano?

Outubro é também o mês da Missão, com a celebração do Dia Mundial das Missões no penúltimo domingo do mês. É uma boa ocasião para reflectir sobre a nossa vocação missionária de enviados. Um convite a partir!…

Nestas circunstâncias, proponho meditar sobre a figura de Jonas, um profeta que é convidado a levantar-se para iniciar uma longa viagem. Pode parecer algo estranho apresentar este profeta como exemplo, dada a sua relutância e resistência a partir em obediência à Palavra de Deus. Mas não será precisamente Jonas o espelho de nós próprios?

Partir para fugir

A vocação de Jonas aparece-nos no livrinho que tem o seu nome, um dos 12 profetas menores. Um livro singular, de carácter narrativo, um midrash, ou seja, uma história exemplar. A sua mensagem constitui um dos ápices do primeiro testamento, um prenúncio da mensagem de Jesus, do Pai misericordioso que a todos quer salvar.

A história é conhecida. O profeta Jonas (cujo nome significa «pomba»!) recebe de Deus uma ordem de missão: «Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até à minha presença.» Diz o texto bíblico que Jonas se pôs a caminho, mas na direcção contrária, para fugir do Senhor. Desceu a Jope, onde encontrou um navio que partia para Társis; pagou a passagem e embarcou. Uma vez embarcado, refugiou-se nos porões do barco e aí adormeceu profundamente.

Em vez de partir para oriente, em direcção a Nínive, capital da Assíria e inimiga histórica do seu povo, Israel, foge para bem longe. A «pomba» recusa-se a levar a mensagem. Com efeito, Társis fica algures para ocidente, talvez em Itália (há até quem diga que se trate de Gibraltar!), ou seja, nas antípodas de onde deveria ir. Longe de Nínive e da sua gente, longe de Deus e da sua incómoda missão.

Quantas vezes não fugimos também nós à nossa responsabilidade, optando por uma vida que se furta ao sacrifício e à cruz, refugiando-nos numa vida cómoda e tranquila, longe do empenho e da luta?!

Jonas, um missionário em fuga, é o espelho de tantas nossas falsas partidas, que são fugas ao nosso dever, à nossa missão. Onde estou andando eu? Em direcção a Nínive ou a Társis?

Sem «responsabilidade» (ou seja, disponibilidade a responder) não crescemos, ficamos eternamente infantis. É este talvez um dos grandes males que afligem a sociedade de hoje!…

Afastar-se ou aproximar-se

A mentalidade religiosa de Jonas é a de… manter as distâncias! Afasta-se de Nínive, porque os seus habitantes são pagãos e inimigos, são «distantes» e tais devem ficar. Jonas afasta-se também de Deus porque não partilha a sua atitude de compaixão, de «proximidade» para com Nínive. Jonas parte mas para Afastar-se, para reafirmar a sua distância!

No dia 10 de Outubro, celebra-se São Daniel Comboni, apóstolo da África. A festa de Comboni oferece-nos um exemplo de uma «boa partida». Convencido de ser enviado à África, luta para superar todos os obstáculos que se levantam para o impedir de partir. Perante o fracasso da primeira viagem que leva tantos a desistir da empresa, ele não desespera e volta à carga: «Se o Papa, a Congregação da Propagação da Fé e todos os bispos do mundo estiverem contra mim, inclinarei a cabeça por um ano e, em seguida, apresentarei um novo plano, mas desistir de pensar na África, nunca, nunca!» A sua é uma espiritualidade missionária da proximidade! Deixa a sua terra, a sua família, os seres e realidades mais próximas para se tornar «próximo» dos que estão longe. Parte em viagem em direcção à periferia do mundo, para terras e populações distantes e desconhecidas, para aproximar-se dos longínquos. E desta maneira aproxima-se do Coração de Deus.

E a minha, é uma espiritualidade missionária da proximidade ou uma religiosidade de alienação que escava distâncias ou fossas entre mim e os outros, entre o meu coração e o Coração de Deus?

O Deus das mil armadilhas!

Em resposta à «ordem de missão», Jonas cala-se e foge. Deus cala-se também, mas lança-se na sua perseguição. O Senhor é «o Deus das mil emboscadas», diz um teólogo italiano (ver Amós 5,18-19). Ele precede-nos até nos caminhos que nos afastam dele, para tecer-nos uma «armadilha», de maneira que Lhe caiamos nos braços.

Deus envia um seu primeiro mensageiro: o vento, que levanta tal tempestade que a embarcação ameaça despedaçar-se. Este mensageiro converte os passageiros, que se põem todos a rezar. Todos, excepto Jonas. É o próprio capitão que o encontra, refugiado na escuridão do porão do barco, profundamente adormecido, alienado da angústia, azáfama e esforço de todos os demais à sua volta. Desperta-o violentamente: «Dorminhoco! Que estás fazendo aqui? Levanta-te e invoca o teu Deus!…»

Estranho sono letárgico de Jonas, que denuncia a tentativa de calar a voz da consciência!… Não é certamente o sono tranquilo de Jesus, dormindo à proa do barco de Pedro, ameaçado pela tormenta no lago da Galileia. Uma letargia que não nos é desconhecida! Acho que poderíamos dizer que cada um de nós tem também o seu refúgio, onde procura distrair-se e fechar os olhos à realidade dolorosa, na vã tentativa de ignorar a chamada à «responsabilidade».

Um subterfúgio que, aliás, vem de muito longe, dos tempos de Adão e Eva, quando estes se esconderam do olhar de Deus depois da desobediência. Mas nenhum lugar conseguirá esconder-nos da face de Deus. Como bem diz o salmo 139: «Para onde ir, longe do teu espírito? Para onde fugir, longe da tua presença? Se subo aos céus, tu lá estás; se fizer no inferno a minha cama, aí te encontro. Se tomo as asas da alvorada para habitar nos limites do mar, mesmo lá é a tua mão que me conduz, e a tua mão direita me sustenta. Se eu dissesse: “Ao menos a treva me cubra, e a noite seja um cinto ao meu redor” – mesmo a treva não é treva para ti, tanto a noite como o dia iluminam.»

Os passageiros do barco entregue à tempestade decidem «investigar» de quem é a culpa, através da tiragem à sorte. E a sorte cai sobre Jonas! É o segundo mensageiro, através do qual o longo braço de Deus alcança o seu apóstolo para o chamar à responsabilidade. Jonas, apanhado em flagrante, assume a sua culpa e diz aos seus companheiros de viagem que o atirem ao mar. Não sabemos se se trata de um acto supremo de abandono nos braços de Deus. Tudo indica, porém, que seja um último e desesperado gesto ditado pelo remorso.

«Deus não quer a morte do pecador mas que se converta e viva», diz o profeta Ezequiel 33,11. Deus envia um terceiro mensageiro para resgatar o seu profeta: «um grande peixe». Jonas permanece três dias e três noites no seu ventre. É uma experiencia pascal, que converte o coração de Jonas e o faz rezar, finalmente! Do fundo das entranhas do peixe, Jonas ergue a Deus uma sentida e profunda prece. «Então o Senhor ordena ao peixe, e este vomita Jonas na praia»!…

A imaginação popular crê que se tratava de uma baleia. Uma tradição judaica diz que os dois olhos da baleia eram como duas janelas através das quais Jonas contemplava a realidade externa. Ora a baleia tem os olhos lateralmente, pelo que cada olho tem uma visão diversa, um à esquerda e o outro à direita. Desses dois ângulos visuais, Jonas é obrigado a considerar uma dupla perspectiva da realidade: a sua, virada a ocidente, a Társis; e a de Deus, virada a oriente, a Nínive. E a visão de Deus acaba por prevalecer.

Quantas vezes não terá acontecido também a nós, de sermos obrigados a «entrar em nós mesmos», a enfrentar a nossa realidade, e de rezarmos precisamente no momento de aflição, quando nos encontrámos nas entranhas da baleia?!

O Profeta sobre a colina

Jonas é enviado pela segunda vez: «Vai a Nínive, a grande cidade, e faz-lhe conhecer a mensagem que te ordenei.» Jonas desta vez obedece, de bom ou mau grado. Começa a calcorrear a cidade (eram precisos três dias para a percorrer!), pregando: «Daqui a quarenta dias, Nínive será destruída.»

Terminada a sua missão, a «pomba», Jonas refugia-se numa colina afastada da cidade para ver o que aconteceria. Aqui vemos que a sua «proximidade» a este povo é apenas física e momentânea, não atinge o coração. Apenas pode, foge da cidade, afasta-se. Torna-se um simples espectador. Não se solidariza com esta gente. Não são o «seu» povo!

Não é esta a atitude de Comboni. Solidário com o «seu» povo, faz «causa comum» com os Africanos. Contempla-os da colina do Calvário, com o olhar do Coração trespassado de Cristo Bom Pastor. Disposto a dar a sua vida por eles. É esse o seu lugar privilegiado de observação, à sombra da Cruz.

De qual colina contemplamos nós o mundo? Desde a colina encastelada do nosso egoísmo (e Deus não queira que com um olhar de abutre!), ou da colina da solidariedade onde foi plantada a cruz de Cristo, com o olhar de mansidão da pomba que daí voa para ir anunciar a paz?

Cidade e profeta a salvar!

A pregação de Jonas, porém, obtém um êxito inesperado. O rei decreta um jejum de penitência e conversão. E Deus perdoa. Com efeito a ameaça da sua Justiça era apenas uma «arma» ao serviço da Misericórdia.

Há muita alegria no céu e regozijo em Nínive. Mas não no coração de Jonas. O êxito que ele esperava era outro: que o fogo descesse do céu, como acontecera com Elias. Jonas fica tão indignado com isso e irritado com Deus que invoca a morte. No fundo, ele é o filho maior da parábola do filho pródigo, que recusa partilhar a alegria do Pai e acolher o irmão que se perdera.

Mas o Pai, que salvara Nínive, quer salvar também o seu profeta. Jonas, no topo da colina, refugia-se do sol debaixo de uns ramos. Deus então faz crescer um arbusto para fazer sombra à sua cabeça e curá-lo de seu mau humor. Jonas alegra-se com isso.

No dia seguinte, porém, o Senhor envia um pequeno mensageiro, um simples verme, que rói a raiz do arbusto. E em seguida envia o fogo do sol a golpear a cabeça do pobre profeta que, irritado e desfalecido, invoca de novo a morte.

O livro termina com uma pergunta, dirigida ao profeta mas também a nós, que tantas vezes nos desesperamos por pequenas coisas que nos acontecem, sem nos preocuparmos com a sorte dos demais:

«Tiveste compaixão de um arbusto, pelo qual nada fizeste… E então, não hei-de ter compaixão da grande cidade de Nínive, onde há mais de cento e vinte mil seres humanos, que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e uma inumerável multidão de animais?»

Qual será a minha resposta?